Histórias Positivas - André

Histórias Positivas - Andre


Meu nome é André, tenho 47 anos e sou soropositivo há 24 anos. Eu nasci em uma cidade chamada Limeira, no Interior de São Paulo...
Com 17 anos me descobri homossexual. Meu pai, que era Masson e cheio de preconceitos, me pediu que saísse de Limeira após a minha descoberta. Venho de uma família tradicional, e ele não queria um filho homossexual perante a sociedade local.
Prestei vestibular em Campinas, fui fazer faculdade e trabalhar lá. Logo no início do meu trabalho em uma seguradora eu conheci um cara chamado Luis, um médico que era 20 anos mais velho que eu.
Na época eu era virgem, nunca sequer tinha beijado alguém. Luis me conquistou e nos apaixonamos perdidamente. Foram 7 anos de felicidade, tínhamos amigos verdadeiros, a casa sempre cheia e muita gente amiga por perto.
Foi então que a o HIV e a AIDS começaram a aparecer no Brasil e, sutilmente, em nosso meio. Isso foi devastador. Ela apareceu no nosso convívio infectando pessoas do nosso grupo de amigos, e era uma realidade horrível.
Seguimos em frente, até que em um domingo, o Luiz estava com uma gripe que não curava de forma alguma. Já estava na terceira semana de febre e indisposição e foi então que caiu minha ficha: pode ser HIV.
Falei sobre esta possibilidade com ele, e fomos fazer os exames (meus e dele). Demorava cerca de 15 dias para ficar pronto, os processos eram muito demorados e esse período foi um sofrimento, uma angústia.
Quando os resultados ficaram prontos, o médico que era amigo dele nos chamou e disse que ambos estávamos contaminados e que nosso prognóstico de vida era de apenas 6 meses.
Foi uma bomba, eu me sentia sem chão, perdido. O Luis se entregou à infecção, jogou a toalha, mas eu não. Eu lutava, larguei meu emprego em uma multinacional para poder cuidar dele, pois ninguém aceitava ser cuidador ou enfermeiro de pessoas com HIV. Fomos a todos os médicos possíveis, inclusive no Drauzio Varela, e sempre saíamos arrasados e sem perspectiva.
Então nossos amigos começaram a adoecer um a um, e a maioria era expulsa de casa, demitidos de seus trabalhos, e eu me ví obrigado a levar muitos para minha casa para que eu mesmo cuidasse deles. Acabei enterrando todos e era uma dor terrível vê-los partir. No meio disso tudo me peguei pensando: “Quem vai cuidar de mim quando eu precisar?”
O Luis era a minha vida, ele tocava piano todo dia quando eu chegava em casa e nós tínhamos muitas coisas materiais como terrenos e casas, e fomos vendendo tudo para podermos tratar dele e dos amigos queridos, até que em pleno 12 de junho, Dia dos Namorados, o Luiz não aguentou. Morria alí o meu amor. Com isso eu pirei.
Enterramos ele em apenas duas horas de velório, eu e a irmã dele, apenas, e com o caixão lacrado, pois não se podia enterrar pessoas com AIDS em caixao aberto. Foi a pior coisa que passei na minha vida. Como voltar para casa depois do enterro? Ele me ensinou a dirigir, a comprar comida, a estudar... Enfim, ele era o meu cara, entendem? O amor da minha vida.
Como enfrentar a minha doença depois desta perda? Em vários momentos eu queria morrer também, confesso.
Na época, os infectados tomavam Bactrinn, Profilático. Não tínhamos o remédio certo e específico para HIV como os que temos hoje.
Eu fui conhecer camisinha depois que descobri que já estava infectado, não tínhamos informação nem sobre prevenção. E com um diagnostico positivo, desejávamos muito ter uma medicação naquela época!
Como tudo teria sido menos doloroso de houvessem as possibilidades que existem atualmente! Como queríamos ter pelo menos uma fonte informação segura. Tudo seria muito diferente.
Eu percorri estes 24 anos de soropositividade atrás de remédios, em 2001 quando finalmente consegui ter acesso a medicação - que era em um volume imenso se comparado aos coquetéis de hoje - já estava bem doente. Desenvolvi polineuropatia, que é uma doença secundária horrível e sem cura, auto imune, que faz com que os terminais nervosos morram e isso causa dores horríveis por todo o corpo.
Devido ao meu estado de saúde atual, hoje faço parte do programa DIGNITAS, na Suíça, que é o único país que regulamenta a eutanásia assistida e lá isso pode ser feito seguindo-se protocolos, legalmente. Sou bem consciente e racional nesse sentido.
Atualmente eu já perdi muitos movimentos e agora a doença está atacando meu intestino, que são os nervos finos. Já tratei muitas coisas, citomegalovírus, tuberculose, sarcoma de kaposi e estou muito cansado dessa luta.
De 93 a 2001 fiquei sem a medicação, e a doença causou muitas lesões que na época eram silenciosas, e esse período é chamado de túnel negro. Eu fiquei muito tempo nesse túnel, e hoje minha saúde está assim por conta dos anos e anos que não tive oportunidade de tratar o HIV. E durante esses anos todos, além de sofrer com o avanço da infecção, sofri com o preconceito, o descaso, as informações equivocadas. Todo esse processo foi uma via crucis.
No momento eu estou escrevendo um livro sobre tudo isso que vivi, e terminarei o capítulo final quando acontecer a minha ida para Suíça, para o processo de eutanásia.
Essa é a minha história. Eu peço que vocês façam a adesão ao tratamento. Não negligenciem a saúde. Eu queria ter tido esses recursos todos para me tratar, mas não tive. Levem a sério, sejam responsáveis e nada do que eu vivi e vivo acontecerá com vocês.
“A caminhada pede calma! Na solidão do caminho descobri a alma, como companheira absoluta. Sem julgamentos ela me aponta o norte e sopra o vento na direção que fala alto ao coração. Mesmo que tudo e todos ao redor estejam em sentido contrário, ela vem magnânima e impetuosa. Creio. Sei. Não me perdi, estou apenas me reencontrando. Que meus olhos, meus ouvidos, meus sentidos todos, sintam a profunda sintonia da existência e que possa eu vibrar e expandir a todas as direções. Por que assim é, e assim EU SOU!"

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