Histórias Positivas - Francisco

Histórias Positivas - Francisco


Meu nome é Francisco, mas todo mundo me chama de Nuno. Sou natural de Amparo-Sp, mas passei parte da minha infância em Barretos-SP, a adolescência em Bebedouro-SP e voltei a morar em Amparo novamente, onde resido atualmente.
Minha história se fez aqui! Sempre morei com meus pais e avós, tenho 32 anos e trabalho como auxiliar administrativo em um Buffet. Sou filho de um militar e de uma funcionária pública.
Entrando na minha história de soropositividade: eu estava trabalhando no Buffet - sou braço direito da minha chefe - e, mesmo sem saber, me deparei com um dos momentos mais dolorosos da minha vida: os primeiros sinais da AIDS. Na época, encarei como uma gripe, mas estava enganado.
Eu soube que havia algo muito errado durante uma viagem da minha chefe com a família dela, pois fui incumbido de ser responsável pelo Buffet, coordenando e organizando todos eventos da empresa durante aquele período em que ela estava ausente e constantemente me sentia mal, fadigado.
A princípio achei que era só uma gripe, mas fui ficando muito fraco e sem disposição para o trabalho, mas mesmo assim tentava com muito esforço me manter em pé até a volta da minha chefe. Não queria deixar minha condição de saúde interferir no meu trabalho.
Fui algumas vezes ao hospital onde eu era medicado e depois enviado pra casa, mas na última vez que fui me consultar fui atendido por um médico de plantão que era bem mais atencioso que os demais, e ele, vendo minha situação de saúde, me perguntou se podia fazer um teste rápido de HIV em mim.
Concordei de imediato, pois nunca tinha feito o teste e sou homossexual assumido, logo, sabia que deveria fazer – mesmo que por precaução.
Depois de ser medicado para tratar o mal estar, fui chamado pelo médico – com os exames em mãos - pra conversar. Foi quando ele me disse que meu teste tinha apontado o temido “REAGENTE”, mas que eu devia procurar o posto de saúde mais próximo de minha residência e fazer o teste confirmatório.
Eu fiz isso, mas eu estava envergonhado para ir pegar o resultado e lidar com essa situação. Neste período eu também estava perdendo peso muito rapidamente.
Decidi esperar minha chefe voltar de viajem, contei a ela o que havia acontecido e ela vendo minha situação sugeriu que fizéssemos o teste em um laboratório particular da cidade. Foi o que fizemos. Um dia quando eu estava doente, acamado, em casa, meu pai apareceu para me ver, pois a minha chefe havia procurado por ele – ela estava muito preocupada - e nesse mesmo dia ela havia recebido uma ligação do laboratório pedindo para que eu fosse refazer o teste.
Sem saber o que dizer para o meu pai, mas já imaginando o que estava acontecendo, disse a ele que estava esperando o resultado desses exames para saber o que realmente estava acontecendo comigo. Acabou que nesse dia fomos todos juntos ao laboratório para refazer o exame, e eu esperei mais alguns dias pelo resultado. Enquanto isso eu definhava cada dia mais.
No dia que fui buscar o resultado do confirmatório o meu pai me acompanhou novamente, minha cabeça flutuava pelas nuvens, não raciocinava mais, e neste período meu corpo não aguentava isso tudo. Eu entrei no laboratório com as calças largas e caindo, peguei meu resultado e voltei pro carro. No carro eu abri o exame e vi a confirmação REAGENTE novamente, mas não consegui processar, então passei o exame para meu pai e alí tivemos a confirmação que eu realmente era soropositivo.
Eu me lembro de perder a consciência naquele momento, e agora tenho alguns relances das minhas irmãs em minha casa, com meus pais, tentando me ajudar de alguma forma. Eles me davam banho, cozinhavam, tentavam ressuscitar alguém que já estava praticamente morto! Eu citei esses relances pois realmente passei por um período em que eu tinha muitas alucinações e visões, e me lembro muito pouco desse intervalo de tempo na minha vida.
Quando eu recuperei um pouco a minha consciência e coordenação eu já me encontrava internado, ligado a parelhos, ao oxigênio e inchado, enorme, eu havia desenvolvido insuficiência hepática, pneumonia, tinha herpes por toda a aérea interna da boca, uma ascite abdominal e por aí vai. Inúmeras complicações decorrente da Aids. Já tinha passado do estágio do HIV que ficou sem tratamento por um longo período por eu desconhecer minha sorologia.
Fui desenganado pela infectologista, ela disse para minha família que não havia mais o que fazer, mas mesmo assim ela ia tentar de tudo para reverter meu quadro. Posso afirmar que ela mesma me virou do avesso: foram ressonâncias, raios x, muitos exames sem fim que até me irritavam. Estava cansado, não aguentava mais aquilo." era assim. Era assim que tínhamos força pra sobreviver às perdas e ao preconceito. Era diferente do que ocorre hoje: cada um por si e encontros oficiais disso
Mas a persistência dela deu resultado: o tempo foi passando e eu fui melhorando, mas não me recuperei muito rápido, não. Foram 2 meses lutando, tive enfermeiras maravilhosas, um pai que me surpreendeu, recebi visitas de amigos – apesar de eu não quer ver ninguém, eles foram mesmo assim. Eu estava renascendo. Comemorei meu aniversário no hospital no dia 20 /03/2014. No dia 21 recebi alta. Foi um belíssimo presente.
Foi muito difícil esse período da minha vida: eu tive vergonha, nojo de mim mesmo, eu chorei demais, desenvolvi rejeição ao primeiro esquema de medicamentos, fiz transfusões de sangue, recebi olhares preconceituosos, assustados. Minha sorologia estava exposta.
O tempo passou, até que recebi a tão sonhada alta médica. Meus olhos se enchem de lagrimas até hoje quando me lembro disso tudo. Não vou dizer que superei, não vou mentir que esqueci, só sei que isso hoje é parte de mim, completa a minha história. É estranho. O lado bom disso tudo é que esse episódio trouxe meu pai para perto de mim, e não o tinha perto antes.
Tive forças para me reerguer, assumir quem eu era, que eu era gay, soropositivo e mesmo assim eu passei a exigir respeito das pessoas. Não pergunte onde tirei essa força. Só sei que fiz, enfrentei e agora é assim.
Hoje estou passando por um momento um pouco complicado, mas apenas psicológico, pois minha saúde física está ótima. Os remédios me ressuscitaram, e está tudo bem nesse sentido. Mas você não deixa de ter problemas “da vida” quando se torna soropositivo, não é? Eles existem, e nesse momento me chateiam.
Tenho acompanhamento psicológico, tenho um ex-namorado que me magoou muito depois de uma relação sorodiscordante e atualmente estou um pouco perdido nessas questões psicológicas, tentando me organizar e me estruturar para viver plenamente.
Ser feliz acima de qualquer outra coisa! E vou conseguir.
Espero que minha história possa ajudar alguém de alguma forma, que minha fraqueza não seja considerada, e que eu redescubra a força que curou meu corpo pra curar minha mente também.

Voltar