Histórias Positivas - Rogério

Histórias Positivas - Rogério


O ano era 1992. Aproximadamente 10 anos após o surgimento da AIDS no mundo.
Muita desinformação, preconceito, inexistência de coquetel ou políticas públicas eficientes. Nesse cenário é que soube da minha sorologia para o HIV.
Era um dia de semana. Ligaram para o quartel onde eu trabalha e informaram para eu comparecer no laboratório onde eu havia feito o exame. Eu era da saúde e sabia o que isso significava. O resultado tinha dado positivo.
Peguei o resultado no meio da tarde depois sentei em um banco da Praça da Cinelândia, no Centro do Rio de Janeiro.
Apenas um tenente da minha Companhia, próximo a mim, sabia o que eu tinha ido fazer. Sempre optei por saber o quanto antes quem estaria do meu lado se eu precisasse.
Anoiteceu e eu ali no banco. Não vi o tempo passar. Tampouco lembro o que pensei nessa tarde.
Ao chegar em casa meu companheiro estava com uns amigos. Morávamos em uma kitinete em Copacabana. Não dava pra fugir. Meu remédio foi interagir com as pessoas até que se fossem. Eu tinha 22 anos.
Estar na classe média ajudou muito: fiz um plano de saúde. E estagiar na FIOCRUZ, onde meu companheiro trabalhava como pesquisador, foi extremamente importante para ficar atualizado sobre as pesquisas. Na época era necessário ter um perfil clínico para ter acesso a tratamento na FIOCRUZ. Então, fui para o posto de saúde de Copacabana, onde havia infectologista.
Muita experimentação clínica. E os gays caíam como folhas nas árvores. Meus amigos foram partindo. Por mais que buscásssemos nos proteger em rede de cooperação com informações, encaminhamentos, comprando remédios para ajudar na imunidade uns para os outros; os avanços e nossos esforços não eram suficientes. Estávamos com o "câncer gay". Nossa morte era prognosticada como iminente.
E os “sangue de Cazuza” ou como também dizia-se no meio gay, “o pessoal que tinha docinho” ou “os carimbados”, às vezes nem tinham tempo de saberem o que tinham... E partiam.
As ONGs-AIDS surgiram em todo o globo. A maioria dirigida por gays. A luta pelo direito das pessoas vivendo com HIV foi se fortalecendo. Sou grato por ter vivido esse momento. Não havia como fugir daquele contexto da minha vida. Então, resolvi lutar por ela.
Providências eram necessárias. Através de uma tia influente na família, fiz circular a informação. O resultado foi uma reunião familiar num domingo. Um churrasco. "Vão acabar comigo" - pensei. Não. O churrasco foi um recado claro pra mim: "nós estamos aqui pra você".
Outra providência: saí do quartel depois de cinco anos e entrei pra faculdade, lá sim, experimentei de todas as amizades (de acolhimento à repulsa). E eu grato pelas pessoas que se afastavam. Seria horrível precisar de alguém e descobrir que não poderia contar com ela.
Nós adquirimos rapidamente resistência ao coquetel por causa da monoterapia do início. Seguíamos caindo.
Um amigo muito especial se foi. Era uma época em que as doenças oportunistas abraçavam a gente com facilidade. Tuberculose, sarcoma de kaposi, pneumonia, molusco contagioso, candidíase, criptococose, toxoplasmose, citomegalovírus. Esse último pegou meu amigo e o deixou cego. Eu chegava na casa dele de surpresa às vezes e ele sabia que era eu sem eu falar nada. E logo ia mexendo as mãos. Nosso código pra eu fazer massagem nele. Buscávamos afeto um no outro. Na verdade, nosso grupo era assim. Era assim que tínhamos força pra sobreviver às perdas e ao preconceito. Era diferente do que ocorre hoje: cada um por si e encontros oficiais disso daquilo... Nós pesquisávamos juntos, íamos um na casa do outro pra falar sobre nossas vidas com o HIV e nossa interação com o mundo.
Em meio a isso tudo tivemos (eu e meu companheiro) quadro clínico pra um projeto na FIOCRUZ. Mas foi tarde pra ele. No dia 15 de outubro de 2002 meu tudo se foi. Cremado, ele agora segue as correntes marítimas mundo a fora como sempre gostou.
Há uma passagem linda demais entre nós dois. Ele estava no que posteriormente saberia ser a sua última internação. Eu estava dando banho nele. De frente para o box, do lado de fora, ele fechou o blindex. Sua imagem nua foi aparecendo refletida enquanto fechava a porta. O corpo miúdo e castigado pelo emagrecimento progressivo e pela lipodistrofia acentuada. Nossos olhares se encontraram no reflexo do blindex. Ele sorriu. E seu sorriso me disse: “é, Rô, não tem mais o que fazer”. Eu não verbalizei nada. Abri a toalha e o sequei demoradamente. Entramos em um diálogo mudo e tônico, incompreensível para quem chegasse ali.
Na verdade, há anos já não conversávamos verbalmente sobre muitas coisas. Justo em um momento em que tantos medicamentos estavam surgindo. Ele não deu conta e um câncer o levou. E, por anos, eu também fiquei morto.
Tive problemas com adesão aos medicamentos. Os efeitos colaterais eram muito fortes. Diarreia, neuropatia periférica, dormência na boca e na língua, náuseas, vômitos, alteração no humor. O pior pra mim foi quando já não havia medicamentos novos e precisei usar o T-20 (antirretroviral injetável). Ele criava calombos grandes e dolorosos no local das aplicações, que eram duas vezes por dia. Por fim, não havia mais local sem calombo. Experimentei todos esses efeitos.
Novamente fui salvo por outra pesquisa na FIOCRUZ (novo medicamento em teste). Os medicamentos foram trocados. Os efeitos colaterais duraram pouco dessa vez. Em pouco tempo minha carga viral ficou indetectável, o que perdura até o momento atual (15 anos indetectável).
Eu refleti muito sobre esse momento. E tomei consciência da minha situação: eu era um paciente de resgate (resistente à maioria dos medicamentos).E, excluindo o novo projeto, não havia mais nada pra tomar. A nova geração de antirretrovirais com efeitos colaterais minimizados nos ajudou muito. Segui em frente. Tive a sorte de não ter tido doenças oportunistas. Mas com o tempo os antirretrovirais antigos cobraram seu preço.
25 anos após descobrir a infecção estou com síndrome plurimetabólica, com insuficiência renal e fazendo diálise. Pra arrematar fiz um AVC e estou fazendo Fisioterapia. Estou com alguns planos na cabeça. Fazer outra faculdade, mudar pra perto da família. A vida não vai parar.
Não vou desistir nem transformar o viver com HIV num martírio, num tormento. Sou grato por estar sendo cuidado por tanta gente que me ama e convive muito bem com meu HIV. Aderir aos antirretrovirais foi parte fundamental para a terapia ser eficaz. Assim como ter uma boa alimentação, horas adequadas de sono e não abusar de bebidas alcoólicas. Ninguém precisa demorar muito tempo para aprender. Então, aproveita seu tempo hoje, amanhã, depois e sempre. Seus pensamentos e ações são o que te guiarão por bons caminhos... E é possível sim. É totalmente possível ter muitos e muitos momentos de felicidade. Estamos em 2017 e a juventude soropositiva de hoje tem tudo para viver bem, Com qualidade de vida.

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