Histórias Positivas - Silvander

Histórias Positivas - Silvander


Era uma vez um rapaz que nasceu e cresceu no campo, numa localidade no interior do município de Guarapari, em agosto de 1977. Com 18 anos - após concluir o ensino médio - resolveu seguir por outros caminhos: abandonar o campo e viver em Vila Velha (ES). Partia atrás de um sonho de infância: trabalhar com desenho; lançar para o papel tudo aquilo que sentia em seu coração, através da criatividade e da imaginação.
E assim foi: durante aproximadamente 4 anos, lá viveu. Aprimorou seu talento nas artes, trabalhou, estudou.
Porém, quis o destino que este jovem ficasse desempregado. E com o desemprego ele foi obrigado a voltar para o campo, por volta do início dos anos 2000. Na época sentia sua alma sufocada por não poder mais alcançar o futuro que tanto almejou. Esse retorno às origens se deu, também, pelas constantes pressões psicológicas sofridas vindas por parte de um de seus primos, pois vivia na casa de seus tios. Como não tinha um quarto, dormia na sala de jantar de uma casa que estava sendo construída. Não suportando mais a tortura psicológica e a condição financeira e cotidiana, só restava retornar ao campo mesmo.
Felizmente, meses depois do retorno e por influência de amigos, partiu para a Europa. Foi viver em Portugal com alguns amigos de sua infância – vivida no campo. Nessa época tinha 23 anos.
Mas na Europa nem tudo foram coisas foram boas, pois como tudo na vida, tudo tem dois lados. Teve algumas boas oportunidades de trabalho, mas que por imaturidade deixou passar. Mesmo assim trabalhou muito, ao ponto de desenvolver problemas de saúde, concentrados na coluna. Passou até fome em épocas em que se trabalhava um mês e ficava-se esperando algum emprego temporário nos seguintes, por cerca de 3 meses. Estar num país estranho sem o conforto de seu lar, da sua família e sem a comida quentinha de sua mãe é terrível. Não foi fácil.
Muitas lágrimas ele derramou sobre o travesseiro - por longos anos.
Claro que como em toda a tempestade, teve momentos de calmaria. Chegou a ter um trabalho bem remunerado e uma casa confortável, além do emprego ser estável. Mas nada é para sempre, não é mesmo? Felizmente nesse tempo, um bem muito precioso conseguiu juntar com o passar dos anos: amigos; um bem muito precioso que se mostraria ainda mais valoroso em momentos de nebulosidade que viriam a seguir.
Durante este tempo, viveu intensamente. Aproveitou a sua juventude. Descobriu um mundo e com isso se descobriu por completo. Largou muitas amarras invisíveis que o dominavam e torturavam. Sobretudo um julgamento imposto pela religião. Apesar de tudo, sempre acreditou muito em Deus e sempre se agarrou à fé. Afinal, onde está o amor, Deus ali está.
Depois de 4 anos vivendo em Portugal, conheceu um rapaz. Pouco depois, mudou-se para Lisboa, vivendo com amigos. Também estes, brasileiros.
O namoro evoluía. E cada vez estavam mais apaixonados e envolvidos um pelo outro. E isso durou por dois anos.
E é aí que a nossa história fica mais triste.
Em dezembro de 2004, numa manhã de segunda-feira ao levantar-se da cama, sentiu-se mal e caiu sentado. Parecia um misto de labirintite com uma forte inflamação de garganta e gripe. Durante os dias que se seguiram, cuidou desses sintomas sem sucesso. E na noite de sexta-feira, cinco dias após o início dos sintomas foi levado ao hospital, para o serviço de urgência. Lá ficou sob cuidados médicos. No soro até o dia amanhecer. Quando decidiram interná-lo.
Neste momento, por conta do intenso inverno e da infecção, seus lábios ficaram em carne viva, sangrando e ele mal conseguia ficar de pé.
Mas Deus nunca fecha uma porta sem antes abrir uma janela. E prova disso foi que justamente o médico plantonista que o atendeu desde o primeiro momento, era o maior infectologista de Lisboa. Que, imediatamente, desconfiando do que se tratava, cuidou pessoalmente do prontuário deste rapaz.
Até que no sábado à tarde, após uma bateria de exames, veio a notícia que ninguém gostaria de ouvir: Infectado com o Vírus HIV.
Nos dias que se seguiram, foram vários exames, transferências para outros hospitais para fazer mais exames. Passaram-se alguns dias e sem um resultado claro, nosso protagonista passou a acreditar no pior. Que estava com AIDS e já em estado terminal, chegando ao ponto de durante uma das transferências para outro hospital, ver, pela janela da ambulância, o sol tocando o topo dos prédios típicos de Lisboa. Acreditou piamente que seria a última vez que veria um céu azul e a luz do sol em sua vida.
Mas o que mais o fazia chorar era em pensar estar longe de sua terra natal. De que seus pais jamais o veriam vivo novamente e que eles saberiam o motivo de sua morte, além de descobrirem a sua orientação sexual. Não achava justo com seus pais. Preferia omitir a fazê-los sofrer.
O tempo passou. Ficou numa ala reservada (e isolada) exclusivamente para doentes com doenças infectocontagiosas, mas ao chegar no quarto, se sentiu em um hotel: Apenas duas camas, TV, aquecedor e até banheiro exclusivo (Vale citar a troca de toda a roupa de cama diariamente, durante o seu banho –obrigatório - matinal). Ali sentiu-se acolhido pelos profissionais de saúde e um deles o explicou o que hoje todos sabemos: que o HIV é uma doença crônica. É possível conviver com o vírus, desde que seguindo o tratamento. Explicou que ele não morreria de HIV e seu coração, naquele momento, teve paz.
Ainda teve algumas provações: passou por duas punções lombares e alguns outros problemas na coluna, mas nessa época seus amigos já podiam visita-lo, pois havia saído do isolamento. De todos, apenas um se afastou, talvez por medo, por preconceito, ou mesmo por ignorância. Mas aqueles amigos fiéis não o abandonaram. Nem mesmo o seu namorado o deixou.
Sentia ali, como se um novo capítulo de sua vida começava a ser escrito. Mas só recebeu alta - já com a carga viral controlada e o CD4 mais alto - de 15 dias depois.
Ao chegar em casa do hospital, mais uma notícia ruim: como estava desempregado, não teria como pagar o aluguel e dentro de dias seria despejado e perderia seus poucos bens. E mais uma vez, os amigos lhe estenderam a mão: ofereceram-lhe uma pequena garagem na casa aonde viviam para guardar suas coisas, até que se reerguesse novamente.
Durante meses viveu como nômade em casas de amigos. Contou com a ajuda de pessoas muito especiais, que muitas vezes cediam a própria cama para não vê-lo dormir em um colchonete no chão. Esses, sim, são anjos enviados por Deus.
Seu sofrimento persistiu por algum tempo, até conseguir trabalho, alugar uma casa e viver como antes. Passaram-se 2 anos e seu namoro terminou. Em partes pelo desgaste da relação, pelo fato de desconfiar que fora infectado pelo seu namorado - dada à sua reação quando soube do motivo de sua internação - e muito também, e pela sua libido ter diminuído drasticamente após isso tudo, ao ponto de não sentir desejo sexual por cerca de 2 anos inteiros.
Em 2008, resolveu retornar ao Brasil, já que lá fora a vida não fora assim tão boa como imaginava e também pela saúde e idade avançada de seus pais. Queria passar mais tempo com eles. Chegando, manteve em segredo (e mantém até hoje) a sua sorologia e a sua sexualidade.
Teve um relacionamento recente com um rapaz sorodiscordante por quatro anos. Porque não ter? Embora seja muito mais fácil conviver com alguém com a mesma sorologia, também é possível com alguém "diferente". Afinal, para o amor não existe carga viral, pois ele só entende a língua do coração.
Atualmente trabalha por conta própria, tem seus projetos, sonhos e desejos. E convive com o vírus limitando-o ao seu tamanho: microscópico. Continua lutando, se cuidando, amando... VIVENDO.
Hoje, quase treze anos depois, se encontra indetectável. Enfrentava alguns efeitos do Efavirenz, mas nada que retirasse a sua força de viver. Trocou recentemente a sua medicação para o Atazanavir, o que trouxe uma melhora significativa em seu estado emocional, de sono e qualidade de vida. Prova que é possível sim conviver com o vírus e levando uma vida absolutamente normal, não focando na doença, mas sim na vida!
Quando pensou estar perdendo para o vírus, pensava: “Não é o vírus que tem a mim. Sou eu quem tenho o vírus!”
Você deve estar pensando que essa é mais uma história de ficção, mas não é. É uma história bem real! É a minha história. Na verdade é apenas um capítulo, pois o livro da minha trajetória, da minha vida, está apenas no começo.

Voltar