Histórias Positivas - Thiago

Histórias Positivas -  Thiago


Meu nome Thiago, no dia 16 de Outubro de 2006 (Segunda-Feira), um dia como todos os outros: trabalho, amigos e algo de diferente! Dia de fazer minha inscrição na faculdade... a realização de um sonho antigo. Estava tudo certo, exceto por um incômodo enorme: um sonho muito chato naquela madrugada...onde eu ia ao hospital com os pés descalços e saía de lá com a cabeça bem baixa... não levei isso a sério ( mas me preocupei ) acordei bem disposto, pois no domingo havia ido à uma festa muito boa.
Cheguei ao trabalho, e no momento estava fazendo inspeções e me encontrei com a minha colega de trabalho. Recebi uma ligação da minha chefia, dizendo que uma enfermeira queria conversar comigo no Hospital. Fiquei com uma certa dose de preocupação, pois não havia nenhum exame pendente, a não ser um do qual não havia me esquecido, anti-HIV.
Já havia feito esse exame antes, portanto não me procuravam para entregar resultados. Fui sem demora ao Hospital para resolver logo a questão que me pipocava a cabeça, contudo a enfermeira só estaria no hospital no período vespertino. Voltei ao trabalho já com muita expectativa para que chegasse logo a tarde. Comentei com a minha colega sobre o que estava acontecendo e finalmente chegou às 14 horas!
Fui ao hospital com bastante angústia no meu peito, como uma ave que morre sem fôlego. Fiquei ainda na espera, o que ajudou a aumentar todas as dúvidas em minha cabeça, embora tivesse uma certeza (maior que a dúvida) quanto ao resultado do exame.
De repente, uma enfermeira se apresentou à mim com um sorriso muito treinado em seu rosto, me chamou para uma conversa de portas fechadas em seu escritório de tijolinhos vermelhos, sem muito conforto. Ao entrar, reparei que havia outra enfermeira no consultório. Sentaram-se à mesa e eu em uma cadeira do tipo escolar.
Elas buscavam palavras para me dar uma notícia há muito esperada. Ao ver em seus olhos o motivo que me levou até aquele lugar, lhes ajudei a me contar: “- Vocês querem me dizer que estou infectado? Sou soropositivo?” Um silêncio ensurdecedor tomou conta do ambiente, como se tivessem aberto as portas de uma grande cidade rodeada por tambores
Tentei não levar água aos olhos, protegendo-me de revelar medo e insegurança diante de uma situação constrangedora (para nós três); tão logo retomou a palavra a enfermeira, confirmando o meu incontestável diagnóstico. Certamente me mantive como um belo cristal seguro em uma caixa de papel.
Não me lembro de já ter me constrangido tanto quanto naquela tarde de sol intenso. Eu não tinha outra vontade a não ser sair de lá e me encontrar comigo mesmo em minha imaginação e conseguir olhar pra mim mesmo sem espectadores. Foi exatamente o que aconteceu, sai do hospital meio que sem cabeça e me veio o pensamento em imediatamente ligar para o meu ex-namorado, liguei para sua casa, mas ele não estava, liguei para um de seus amigos e lhe pedi que desse o recado.
Queria lhe falar, então pedi que o avisasse disso, que me ligasse. Fui para a lan house que fica de frente à minha casa e o meu telefone tocou, era o ex. Como eu iria dar aquela notícia? Constrangimentos não faltavam... as palavras, sim... a mensagem tinha que ser passada, senti-me como a enfermeira; a diferença é que a notícia não era a de que ele estava infectado, mas eu!
Pedi que viesse até a minha casa para que conversássemos pessoalmente, contudo ele imaginou que esta era uma forma de eu tentar uma reconciliação entre nós, relutou em vir, tentando fazer com que eu lhe contasse por telefone de que se tratava a conversa.
Um fato que me impressionou foi ele pressupor que o assunto se tratava sobre alguma doença, especificamente, DST. Logo, logo se defendeu argumentando: “- se o assunto for alguma DST, te aviso que já fiz todos os exames quando acabamos com nosso namoro!” E eu relutava em não lhe contar por telefone... De tão grande a insistência dele, apenas confirmei sua desconfiança: “- Sim. É uma DST, podemos conversar pessoalmente agora?”
Ele ainda quis ter certeza: “- Você tem os exames que confirmam esse resultado?” Jamais havia passado em minha cabeça ter que provar para alguém que sou soropositivo... Sei que consegui convencê-lo a vir em pouco tempo...Não podia me esquecer da inscrição na faculdade! Em pouco tempo, saí da lan house para minha casa, me arrumei e fiquei esperando pelo beija-flor...
Esperei por um bom tempo e ele não chegava... Resolvi não esperá-lo mais e ir para a faculdade, pois já estava perto do fim das horas... Ao subir a rua a caminho do ponto de ônibus, aparece o beija-flor em seu carro, eu estava muito bem arrumado, roupas bonitas, cabelos e olhos com brilho de diamantes, energia na pele forte como um touro, estava como quem luta em uma enorme batalha e a vence sozinho; talvez eu tenha me sentido com um decréscimo de auto-estima e usei as belas roupas e bons perfumes para que eu me sentisse melhor.
Quando nos encontramos de fato, ele com um sorriso seco, estacionou o carro e logo desceu, talvez suspeitando de que eu entraria em seu carro. Reparei que ele usava uma camisa de malha igual a uma que também tenho, porém tanto a dele quanto a minha foram adquiridas após o término do namoro.
Ao nos cumprimentarmos, senti enorme desprezo na temperatura de seu olhar e de suas mãos, eu queria não acreditar que todo o amor que havíamos vivido e sido cúmplices havia se tornado apenas em algo apalpável e gelado, ao contrário do amor que havia sido construído, projetado para durar até o nosso último dia de vida. Acho ter sido essa uma das tristezas mais marcantes da minha história.
Com falhas em meu falar lhe contei tudo que havia a ser dito naquele dia, porém ele ainda se manteve em posição de ataque, duvidando do que lhe havia contado, ao que lhe propus irmos à enfermeira que havia me atendido pouco mais cedo para que ele esclarecesse quaisquer dúvidas, mas ele não quis e este foi o fim da conversa...
Retomei meu caminho em direção ao ponto de ônibus para ir à faculdade, quando ele passou por mim, não sei por que cargas d’água o pedi para que parasse o carro e lhe sugeri mantermos contato em função da nova situação para que pudéssemos nos ajudar, com relutância fez sinal positivo com sua cabeça, mas pude ver que era apenas naquele momento que ele havia concordado; ele foi seguindo, fez um balão e voltou com o carro, foi o momento em que eu não tive nenhum tipo de reação, apenas continuei a andar, ele me chamou até o seu carro para que fôssemos ao hospital e entrei no carro.
Durante o caminho não nos falamos, a não ser um momento em que lhe comentei: “- Você realmente acha que eu seria capaz de inventar uma história desse tipo só pra ter como falar com você?” Ele respondeu: “- Não estou achando nada!” E foi esta toda a conversa dentro do carro. Ao chegarmos no hospital lhe orientei que ficasse sempre perto de mim, pois por eu também ser profissional da área da saúde tinha fácil acesso às salas internas e, assim o fez. Quando me encontrei com a enfermeira novamente logo lhe apresentei ao ex e conversaram.
Eu não quis participar da conversa para não constrangê-los, fiquei no corredor de acesso à sala esperando, já sem unhas, pois as ruía na mesma intensidade em que queria sair de lá. Ao sairmos, me despedi dele dizendo-lhe que fui orientado a fazer novos exames de exatidão maior e que lhe retornaria através de telefonemas para lhe contar sobre os resultados.
Fui sem demora à faculdade fazer a inscrição, mas minha cabeça estava em todos os pensamentos e em nenhum ao mesmo tempo, acho que eu não acharei palavras no decorrer de toda a minha vida para discernir aquele sentimento. O vestibular envolve 2 tipos de avaliação, a prática e a tradicional. No tipo prática, tem-se que decorar um texto e representá-lo à uma banca de avaliadores. No caso, este foi o meu texto : Segismundo ...Ai, mísero de mim! Ai, infeliz! Saber, oh céus, eu pretendo, já que me tratais assim! Que delito cometi contra vós outros nascendo ? Que crime foi cometido? Grande razão terá dito vossa justiça e rigor, pois o delito maior do homem é ter nascido. Só queriria saber para apurar meus desvelo, que mais vos pude ofender, p’ra me castigardes mais? Não nasceram os demais? Então se os demais nasceram, que privilégios tiveram que eu não gozei jamais? Trecho extraído da obra A Vida é Sonho, de Calderón de La Barca.
Não...Não tive como não me identificar com o texto, pois me senti como num enorme castigo interminável, porém hoje o meu conceito sobre isso já é outro, é o seguinte: toda ação gera uma reação, mas há momentos de fraqueza em que não queremos assumir as conseqüências dos nossos erros e é aí que se tem uma enorme demonstração de personalidade, ao assumir o que uma ação praticada por você pode causar.
Uma das coisas que mais me chateia atualmente é não deixar de pensar nele um dia sequer e a forma como penso sobre ele. Me deixou várias lembranças boas e ruins, mas acho que todos nós sabemos qual a lembrança que ninguém gostaria de ter, uma doença, por exemplo.Voltei para casa, não comentei nada com ninguém, tomei um banho para me sentir limpo e deitei-me achando que não conseguiria alcançar o sono naquela noite, contudo dormi feito um bebê após mamar, perfeitamente confortável. Imagino que eu estaria muito feliz se ele me desse sua cumplicidade novamente. Nosso amor foi a maior alegria que tive até hoje.
Este relato foi produzido 2 dias após os fatos terem ocorrido.

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