Por que alguns homens gays demonstram ser o que não são?

Abra qualquer rede social ou aplicativo de relacionamento e você encontrará pessoas exibindo viagens, corpos esculturais, roupas de grife, restaurantes caros e uma vida aparentemente perfeita. Esse comportamento não é exclusivo dos homens gays. Ele faz parte da sociedade em que vivemos. No entanto, dentro de alguns grupos da comunidade gay, essa necessidade de demonstrar sucesso, beleza, inteligência ou status parece acontecer com mais intensidade.

A pergunta é: por quê?

Seria algo relacionado à orientação sexual?

A psicologia, a sociologia e os estudos sobre diversidade sexual apontam que não. A orientação sexual não faz ninguém ser mais competitivo, mais vaidoso ou mais preocupado com aparência. O que pode influenciar esse comportamento é uma combinação de experiências de rejeição, preconceito, busca por pertencimento e comparação social que muitas pessoas LGBTQIA+ vivenciam desde muito cedo.

Em outras palavras, alguns homens gays não demonstram ser o que não são porque desejam enganar as pessoas. Muitas vezes, demonstram ser aquilo que acreditam que precisam ser para finalmente serem aceitos.

Essa diferença parece pequena, mas muda completamente a forma de entender esse comportamento.

Uma criança não nasce acreditando que precisa provar seu valor. Ela aprende isso.

Muitos homens gays cresceram ouvindo frases como “vira homem”, “isso é coisa de menina”, “você nunca vai casar”, “que vergonha”. Outros sofreram bullying na escola, esconderam seus sentimentos por medo da rejeição ou viveram durante anos tentando parecer alguém diferente para evitar violência e discriminação.

Quando isso acontece repetidamente, a mensagem que fica não é apenas “você é diferente”. A mensagem é muito mais profunda: “do jeito que você é, você não é suficiente”.

É justamente nesse ponto que a autoestima começa a ser afetada.

O psicanalista Sigmund Freud foi um dos primeiros autores a defender que grande parte da nossa personalidade é construída nas primeiras experiências de vida. Embora várias de suas teorias tenham sido ampliadas ou revistas ao longo do tempo, permanece atual a ideia de que a infância influencia profundamente a maneira como enxergamos a nós mesmos.

Quando alguém cresce sentindo vergonha de quem é, pode passar a organizar a vida inteira em torno da necessidade de compensar essa dor. Em vez de simplesmente viver, sente que precisa provar alguma coisa o tempo todo.

Provar que é bonito.

Provar que é inteligente.

Provar que tem dinheiro.

Provar que é desejado.

Provar que venceu.

Nem sempre essa busca acontece de forma consciente. Muitas pessoas realmente acreditam que só serão respeitadas se alcançarem determinado padrão de sucesso.

O filósofo Michel Foucault ajuda a compreender esse processo por outro caminho. Para ele, a sociedade cria normas sobre como os corpos devem se comportar e sobre o que significa ser um “homem de verdade”. Durante séculos, masculinidade foi associada à força, autoridade, controle emocional e poder. Homens gays foram frequentemente colocados no lado oposto dessa ideia, sendo vistos como frágeis, femininos ou inferiores.

Quando uma sociedade repete essas mensagens durante muitos anos, algumas pessoas passam a acreditar que precisam compensar essa suposta falta de masculinidade. A busca pelo corpo perfeito, pelo sucesso financeiro, pelo reconhecimento profissional ou pela popularidade pode funcionar como uma tentativa de recuperar um valor que nunca deveria ter sido retirado.

Esse processo também ajuda a entender por que, em alguns ambientes, existe tanta comparação.

Em 1954, o psicólogo Leon Festinger apresentou a Teoria da Comparação Social. Segundo ele, as pessoas avaliam quem são comparando suas vidas com as dos outros. Comparar faz parte da natureza humana. O problema surge quando essa comparação passa a definir o próprio valor.

Em vez de perguntar “quem eu sou?”, a pessoa começa a perguntar “quem está melhor do que eu?”.

Quem tem mais seguidores?

Quem ganha mais dinheiro?

Quem recebe mais curtidas?

Quem viaja mais?

Quem é mais bonito?

Quando o valor pessoal depende dessas respostas, a admiração pode dar lugar à competição.

Esse fenômeno pode ser intensificado pelas redes sociais e pelos aplicativos de relacionamento, onde a primeira impressão costuma ser construída quase exclusivamente pela aparência. Fotos, músculos, idade, roupas, viagens e estilo de vida passam a funcionar como cartões de visita. Aos poucos, muitas pessoas começam a acreditar que precisam vender uma versão perfeita de si mesmas para serem escolhidas.

Outro conceito importante para compreender essa realidade é o Estresse de Minoria, desenvolvido pelo psicólogo Ilan H. Meyer. Sua teoria mostra que pessoas pertencentes a grupos historicamente discriminados convivem com um nível adicional de estresse causado pelo preconceito, pela expectativa de rejeição e pela necessidade constante de vigilância.

Isso significa que, além dos desafios comuns da vida, muitos homens gays ainda precisam lidar com o medo de não serem aceitos pela família, pelos amigos, pelo ambiente de trabalho ou até pela própria comunidade. Esse desgaste emocional pode aumentar a ansiedade, reduzir a autoestima e fortalecer a necessidade de buscar validação externa.

Essa busca também aparece na relação com o corpo.

Pesquisas mostram que homens gays apresentam, em média, maior preocupação com imagem corporal do que homens heterossexuais. Isso não significa que todos vivam essa realidade, mas indica que existe uma pressão cultural importante relacionada à juventude, definição muscular, beleza e aparência.

Quando o corpo deixa de ser apenas parte da identidade e passa a representar o próprio valor da pessoa, qualquer mudança pode provocar sofrimento. Envelhecer, ganhar peso ou perder cabelo deixa de ser um processo natural e passa a ser percebido como uma perda de valor social.

Essa lógica aparece até mesmo dentro da própria comunidade.

Não é raro ouvir comentários sugerindo que um homem seria “mais masculino” porque assume determinado papel durante a relação ou que outro seria “menos homem” por assumir outro. Essas ideias não têm fundamento científico. Elas refletem valores culturais ligados ao machismo, que durante muito tempo associou masculinidade à dominação e feminilidade à inferioridade.

Da mesma forma, muitas pessoas ainda falam como se existissem homens “mais gays” ou “menos gays”. Os estudos de Alfred Kinsey mostraram justamente o contrário. Sua escala foi criada para demonstrar que a orientação sexual humana é mais complexa do que uma divisão rígida entre heterossexual e homossexual. Ela não estabelece níveis de “ser mais gay”. Essa hierarquia foi criada socialmente e costuma alimentar julgamentos e disputas desnecessárias.

Quando todas essas pressões se encontram, nasce um ciclo difícil de romper. A pessoa procura reconhecimento para aliviar uma insegurança construída ao longo da vida. Recebe elogios, sente um alívio temporário e logo precisa de mais reconhecimento para manter essa sensação. Como sempre haverá alguém mais bonito, mais rico, mais jovem ou mais popular, a corrida nunca termina.

Isso explica por que algumas pessoas parecem competir o tempo inteiro. Muitas vezes, a competição não é movida por arrogância, mas por medo. Medo de voltar a sentir a rejeição que conheceram tão cedo.

Nada disso significa que homens gays sejam naturalmente competitivos ou superficiais. Ao contrário. A maioria constrói amizades profundas, redes de apoio e comunidades marcadas pela solidariedade. O ponto é compreender que comportamentos de ostentação, necessidade excessiva de aprovação ou comparação constante podem ser entendidos muito melhor quando observamos a história de vida das pessoas, e não apenas aquilo que elas mostram nas redes sociais.

Talvez a maior consequência do preconceito seja convencer alguém de que ele precisa passar a vida inteira provando que merece respeito.

A boa notícia é que esse ciclo pode ser interrompido. Quanto mais saudável é a autoestima, menor tende a ser a necessidade de impressionar. Quem conhece o próprio valor não precisa transformá-lo em espetáculo. Pode admirar o sucesso dos outros sem enxergá-los como concorrentes, cuidar do próprio corpo sem fazer dele a medida da própria dignidade e construir relações baseadas em autenticidade, e não em comparação.

No fim, a verdadeira liberdade talvez não esteja em parecer perfeito. Ela está em descobrir que nunca foi preciso ser.

Referências

American Psychological Association. Guidelines for Psychological Practice with Sexual Minority Persons. 2021.

Connell, R. W. Masculinities. University of California Press, 1995.

Festinger, L. (1954). A Theory of Social Comparison Processes. Human Relations, 7(2), 117–140.

Freud, S. (1905). Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.

Foucault, M. (1976). História da Sexualidade: A Vontade de Saber.

Herek, G. M. (2004). Beyond “Homophobia”: Thinking About Sexual Prejudice and Stigma in the Twenty-First Century.

Kinsey, A. C., Pomeroy, W. B., & Martin, C. E. (1948). Sexual Behavior in the Human Male.

Meyer, I. H. (2003). Prejudice, Social Stress, and Mental Health in Lesbian, Gay, and Bisexual Populations: Conceptual Issues and Research Evidence. Psychological Bulletin, 129(5), 674–697.

Cash, T. F. (2004). Body Image: Past, Present, and Future. Body Image, 1(1), 1–5.