O maior medo de muitos homens não é gostar de outro homem. É que alguém descubra.

Há uma pergunta que poucas pessoas fazem:

Se sentir atração por outro homem fosse realmente o problema, por que tantos homens conseguem esconder isso durante anos, às vezes durante toda a vida?

Talvez o maior conflito não seja o desejo.

Talvez seja o medo do julgamento.

Esse medo ajuda a explicar por que muitos homens escondem partes importantes de quem são, entram em relacionamentos apenas para corresponder às expectativas da sociedade ou passam anos tentando convencer a si mesmos de que aquilo que sentem vai desaparecer.

Mas por que isso acontece?

Ninguém nasce com vergonha do próprio desejo

Nenhum menino nasce acreditando que gostar de outro menino é errado.

Essa ideia é aprendida.

Desde pequenos, muitos meninos escutam frases como:

  • “Homem não chora.”
  • “Vira homem.”
  • “Isso é coisa de menina.”
  • “Fala como homem.”
  • “Você vai casar com uma mulher bonita.”

Essas frases parecem simples, mas, repetidas durante anos, ensinam uma regra silenciosa: existe apenas uma maneira aceitável de ser homem.

Quando esse menino percebe que sente algo diferente do que esperavam dele, o medo costuma aparecer antes mesmo do primeiro beijo ou do primeiro relacionamento.

O medo não nasce do desejo.

O medo nasce da possibilidade de ser rejeitado.

O julgamento dos outros pesa mais do que o próprio desejo

Muitos homens não têm medo do que sentem.

Têm medo do que os outros vão pensar.

Em muitos grupos, a masculinidade parece estar sempre sendo testada.

Pela forma de andar.

Pela voz.

Pelas roupas.

Pelos amigos.

Pelas brincadeiras.

Pelas mulheres com quem se relacionam.

Até pequenos gestos podem ser motivo de comentários ou piadas.

Quando isso acontece durante toda a vida, muitos homens aprendem que precisam esconder qualquer comportamento que possa fazer alguém duvidar da sua masculinidade.

Freud: o desejo não segue as regras da sociedade

O psicanalista Sigmund Freud foi um dos primeiros autores a dizer que o desejo humano é muito mais complexo do que as regras criadas pela sociedade.

Para Freud, ninguém escolhe conscientemente aquilo que deseja. O desejo faz parte da vida psíquica e não obedece às expectativas da família, da religião ou da cultura.

Em 1935, ao responder à mãe de um jovem homossexual, Freud escreveu que a homossexualidade não era uma doença, nem um vício e nem um sinal de inferioridade.

Essa ideia foi revolucionária para a época.

Ela mostrava que o problema não estava na orientação sexual, mas na maneira como a sociedade a julgava.

Foucault: a sociedade ensina o que considera um “homem de verdade”

O filósofo Michel Foucault estudou como a sociedade cria normas sobre o corpo, o comportamento e a sexualidade.

Segundo ele, o poder não funciona apenas por meio de leis.

Ele também está presente na escola, na família, na religião, na televisão, nas redes sociais e até nas conversas do dia a dia.

Esses espaços ensinam, muitas vezes sem percebermos, como um homem “deveria” agir.

Quando alguém foge desse padrão, pode ser criticado, excluído ou ridicularizado.

Quando o preconceito passa a morar dentro da própria pessoa

Existe um tipo de preconceito que é ainda mais difícil de perceber.

É aquele que deixa de vir dos outros e passa a existir dentro da própria pessoa.

Isso é chamado por muitos estudiosos de opressão internalizada.

Depois de ouvir durante anos que determinado comportamento é errado, vergonhoso ou inaceitável, algumas pessoas começam a acreditar nisso.

Mesmo quando ninguém está julgando, elas continuam se julgando.

É como se a voz do preconceito passasse a morar dentro delas.

O microgerenciamento de si mesmo

Quando isso acontece, muitos homens passam a fazer um verdadeiro microgerenciamento da própria vida.

Eles vigiam cada detalhe do próprio comportamento.

Pensam antes de falar.

Controlam a forma de andar.

Prestam atenção ao jeito de sentar.

Mudam o tom da voz.

Evitam certos gestos.

Escolhem cuidadosamente as roupas.

Mudam as amizades.

Escondem gostos pessoais.

Até a maneira de sorrir pode ser controlada.

Tudo isso para evitar que alguém faça uma pergunta, conte uma piada ou coloque sua masculinidade em dúvida.

É como viver representando um personagem o tempo inteiro.

Esse esforço constante cansa.

Gera ansiedade.

Provoca culpa.

Faz com que muitas pessoas sintam que nunca podem relaxar completamente.

Michel Foucault explicou que o poder é mais eficiente quando a própria pessoa aprende a vigiar a si mesma. Já o educador brasileiro Paulo Freire mostrou que, muitas vezes, o oprimido acaba incorporando as ideias do opressor e passa a reproduzi-las contra si mesmo.

Talvez uma das consequências mais dolorosas desse processo seja que alguns homens passam tanto tempo tentando parecer quem esperam que eles sejam que, em determinado momento, já não conseguem responder com facilidade quem realmente são.

A masculinidade também pode prender

A socióloga Raewyn Connell chamou de masculinidade hegemônica o modelo de homem que costuma ser valorizado pela sociedade.

Esse modelo espera que o homem seja forte, corajoso, dominante, não demonstre fragilidade e seja necessariamente heterossexual.

O problema é que ninguém consegue corresponder perfeitamente a esse modelo o tempo todo.

Quanto mais rígida é essa expectativa, maior tende a ser o sofrimento daqueles que sentem que não cabem nela.

O silêncio cobra um preço

Esconder quem se é pode parecer uma forma de proteção.

E, em muitos casos, realmente é.

Mas viver escondendo sentimentos durante muitos anos também tem consequências.

Ansiedade.

Depressão.

Baixa autoestima.

Medo constante de ser descoberto.

Dificuldade para criar relações verdadeiras.

Sensação de viver uma vida que não parece totalmente sua.

Não é o desejo que costuma provocar esse sofrimento.

É o medo do preconceito.

Talvez a pergunta esteja errada

Durante muito tempo perguntamos:

“Por que alguns homens gostam de outros homens?”

Talvez a pergunta mais importante seja outra:

“Por que tantos homens aprenderam que sentir isso deveria ser motivo de vergonha?”

Quando mudamos essa pergunta, percebemos que o problema não está no desejo.

O problema está em uma sociedade que, durante muito tempo, ensinou que existia apenas uma maneira correta de ser homem.

Enquanto continuarmos educando meninos para ter medo do julgamento, muitos continuarão escondendo partes importantes de quem são.

Talvez o maior desafio não seja admitir um desejo.

Talvez seja construir uma sociedade em que ninguém precise esconder sua identidade para ser respeitado.

Referências teóricas

  • Freud, S. (1905). Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.
  • Freud, S. (1935). Carta à mãe de um jovem homossexual, na qual afirma que a homossexualidade não é uma doença nem uma degradação.
  • O Mal-Estar na Civilização (1930).
  • História da Sexualidade – Volume I: A Vontade de Saber (1976), sobre a construção social da sexualidade e os mecanismos de vigilância.
  • Vigiar e Punir (1975), especialmente o conceito de vigilância internalizada.
  • Masculinities (1995), obra que apresenta o conceito de masculinidade hegemônica.
  • A Dominação Masculina (1998), sobre como as relações de poder moldam os papéis de gênero.
  • Pedagogia do Oprimido (1968), especialmente a discussão sobre a internalização da lógica do opressor.
  • The Velvet Rage (2005), que analisa os efeitos da vergonha, da autocensura e da necessidade constante de validação em muitos homens gays criados em sociedades heteronormativas.

Leitura complementar: Embora escrita para um público amplo, a obra de Alan Downs dialoga diretamente com o conceito apresentado nesta matéria de “microgerenciamento de si mesmo”, descrevendo como a vergonha internalizada pode levar pessoas a monitorar continuamente seus gestos, sua fala e seus comportamentos para evitar rejeição social.