Durante muito tempo, uma ideia foi repetida em consultórios, igrejas, escolas e até em universidades: a de que homens gays “se tornaram gays” porque sofreram abuso sexual durante a infância.
Essa explicação parece simples, mas a ciência mostra que a realidade é muito mais complexa.
Hoje, pesquisadores de diferentes áreas, como psicologia, psiquiatria, epidemiologia, neurociência e sociologia, concordam em dois pontos importantes:
• Homens gays, em média, relatam mais experiências de violência e abuso durante a infância do que homens heterossexuais.
• Isso não significa que o abuso seja a causa da orientação sexual.
Entender essa diferença é fundamental para combater preconceitos e acolher quem realmente sofreu violência.
Antes de tudo: o que é abuso?
Abuso é qualquer situação em que uma criança ou adolescente sofre uma violência que prejudica seu desenvolvimento físico, emocional ou psicológico.
Nem todo abuso deixa marcas no corpo. Muitos deixam marcas que só aparecem anos depois, na forma de ansiedade, depressão, medo, culpa ou dificuldade para confiar nas pessoas.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os principais tipos de abuso são:
• Abuso sexual.
• Abuso físico.
• Abuso psicológico ou emocional.
• Negligência (quando a criança não recebe os cuidados necessários).
• Exposição à violência dentro de casa.
Todos eles podem causar consequências importantes ao longo da vida.
O que é abuso sexual?
O abuso sexual acontece quando uma criança ou adolescente é envolvido em qualquer atividade sexual sem compreender plenamente o que está acontecendo ou sem poder dar consentimento.
Isso pode incluir:
• Toques no corpo.
• Obrigar a criança a tocar outra pessoa.
• Exposição à pornografia.
• Conversas com conteúdo sexual inadequado para a idade.
• Exploração sexual.
• Estupro.
Na maioria das vezes, o agressor não é um desconhecido.
É alguém conhecido da vítima: um familiar, vizinho, amigo da família, cuidador ou outra pessoa em quem a criança confiava.
A realidade brasileira
Infelizmente, o abuso infantil continua sendo um grave problema de saúde pública no Brasil.
Dados do Ministério da Saúde e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que milhares de casos são registrados todos os anos.
Especialistas acreditam, porém, que o número real seja muito maior, pois muitas vítimas nunca conseguem contar o que aconteceu.
Entre os meninos, essa subnotificação pode ser ainda maior.
O medo de não serem acreditados, a vergonha e os estereótipos sobre masculinidade fazem com que muitos permaneçam em silêncio durante anos.
Grande parte dos casos ocorre dentro da própria casa ou é praticada por pessoas próximas da família.
Existem estados onde isso acontece mais?
Os maiores números absolutos costumam aparecer em estados mais populosos, como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia.
Mas isso não significa, necessariamente, que esses sejam os estados mais violentos.
Estados com melhores sistemas de saúde e de notificação costumam registrar mais casos porque conseguem identificar melhor as vítimas.
Por isso, pesquisadores analisam também as taxas por população, e não apenas o número total de registros.
O que a ciência descobriu sobre homens gays?
Nas últimas décadas, pesquisadores de vários países tentaram responder uma pergunta importante:
Homens gays realmente sofreram mais violência durante a infância?
A resposta encontrada pelas pesquisas foi:
Em média, sim.
Uma das maiores revisões científicas já realizadas sobre esse tema, publicada no American Journal of Public Health, reuniu dezenas de estudos envolvendo milhares de participantes.
Os pesquisadores observaram que homens gays e bissexuais relataram, com maior frequência:
• Abuso sexual.
• Abuso físico.
• Abuso emocional.
• Bullying.
• Rejeição familiar.
• Outras experiências negativas durante a infância.
Esses resultados apareceram repetidamente em diferentes países.
Mas existe um detalhe muito importante.
Isso significa que o abuso causa a homossexualidade?
Não.
Essa talvez seja a conclusão mais importante de toda esta matéria.
Na ciência existe uma diferença entre associação e causalidade.
Imagine que pessoas que usam guarda-chuva aparecem com mais frequência em dias de chuva.
Isso não significa que o guarda-chuva provoque a chuva.
Ele apenas aparece junto com ela.
Com o abuso acontece algo parecido.
Os estudos mostram que existe uma associação entre ser um homem gay e relatar mais experiências de violência durante a infância.
Mas isso não prova que uma coisa tenha causado a outra.
Até hoje, não existe evidência científica capaz de demonstrar que sofrer abuso transforme alguém em gay.
Então por que essa associação existe?
Essa é uma das perguntas mais estudadas atualmente.
Uma das hipóteses mais aceitas envolve algo chamado não conformidade de gênero na infância.
Algumas crianças, desde muito pequenas, apresentam comportamentos que fogem do que a sociedade espera para meninos ou meninas.
Por exemplo:
• Um menino que prefere brincar de boneca.
• Um menino que gosta mais de atividades consideradas femininas.
• Uma menina que prefere brincadeiras tradicionalmente associadas aos meninos.
Esses comportamentos não determinam a orientação sexual.
Mas diversas pesquisas mostram que essas crianças podem se tornar alvos mais frequentes de bullying, violência física e, infelizmente, também de abuso sexual.
Ou seja, não é o abuso que cria a orientação sexual.
É possível que crianças percebidas como “diferentes” acabem ficando mais vulneráveis à violência.
O que Freud pensava sobre isso?
No início do século XX, Sigmund Freud já defendia uma ideia bastante avançada para sua época.
Ele acreditava que a sexualidade humana era muito mais complexa do que simplesmente dividir as pessoas entre heterossexuais e homossexuais.
Em 1935, Freud respondeu à carta de uma mãe preocupada porque seu filho era homossexual.
Sua resposta se tornou histórica.
Ele escreveu que a homossexualidade não era uma doença, não era um vício e não era motivo para vergonha.
Freud reconhecia que a infância influencia profundamente nossa vida emocional.
Mas nunca afirmou que o abuso sexual fosse responsável por produzir uma orientação sexual específica.
Para ele, a sexualidade resulta da interação de muitos fatores ao longo do desenvolvimento humano.
O que Foucault acrescentou a esse debate?
Décadas depois, o filósofo Michel Foucault observou que a sociedade passou muito tempo tentando descobrir “a causa” da homossexualidade.
Segundo ele, essa necessidade de encontrar uma explicação diz muito sobre a forma como a sociedade enxerga a diversidade humana.
Foucault chamava atenção para uma pergunta curiosa:
Por que tantas pessoas querem descobrir por que alguém é gay, mas quase ninguém pergunta por que alguém é heterossexual?
Essa reflexão continua importante até hoje.
Ela nos lembra que nem toda característica humana precisa ser explicada como um problema.
A sexualidade não funciona como uma caixa
Na década de 1940, o pesquisador Alfred Kinsey revolucionou os estudos sobre sexualidade.
Até então, muitas pessoas acreditavam que existiam apenas dois grupos: heterossexuais e homossexuais.
Após entrevistar milhares de pessoas, Kinsey percebeu que a realidade era muito mais diversa.
Ele criou a famosa Escala de Kinsey, que vai de 0 a 6.
- Exclusivamente heterossexual.
- Predominantemente heterossexual.
- Mais heterossexual do que homossexual.
- Igualmente atraído por homens e mulheres.
- Mais homossexual do que heterossexual.
- Predominantemente homossexual.
- Exclusivamente homossexual.
Hoje existem modelos ainda mais completos, como a Klein Sexual Orientation Grid, criada pelo psiquiatra Fritz Klein.
Ela mostra que a sexualidade pode mudar ao longo da vida e envolve vários aspectos, como atração, comportamento, fantasia, relacionamentos e identidade.
Esses modelos ajudam a entender que a sexualidade humana não cabe em categorias rígidas e não pode ser explicada por um único acontecimento da infância.
Trauma não determina orientação sexual
Outro dado importante reforça essa conclusão.
Milhões de homens heterossexuais também sofreram abuso sexual durante a infância.
Mesmo assim, continuam heterossexuais.
Da mesma forma, milhões de homens gays nunca sofreram qualquer tipo de abuso.
Se o abuso fosse responsável pela orientação sexual, esse padrão seria completamente diferente.
É justamente por isso que a comunidade científica considera essa hipótese insuficiente para explicar a diversidade da sexualidade humana.
As consequências do abuso são reais
Embora o abuso não explique a orientação sexual, ele deixa consequências importantes.
Entre elas estão:
• Ansiedade.
• Depressão.
• Transtorno de estresse pós-traumático.
• Dificuldades para confiar nas pessoas.
• Baixa autoestima.
• Uso abusivo de álcool e outras drogas.
• Maior risco de comportamento suicida.
Quando essas experiências se somam ao preconceito, à discriminação e à rejeição familiar, os impactos sobre a saúde mental podem ser ainda maiores.
Então qual é a pergunta correta?
Durante muito tempo, cientistas tentaram responder:
“Por que algumas pessoas são gays?”
Hoje, muitos pesquisadores acreditam que essa não é mais a pergunta mais importante.
Talvez devêssemos perguntar:
“Por que crianças percebidas como diferentes continuam sendo vítimas de tanta violência?”
Essa mudança de perspectiva nos ajuda a olhar para o verdadeiro problema.
O problema não é a orientação sexual.
O problema é a violência.
Conclusão
A ciência atual permite afirmar duas coisas ao mesmo tempo.
A primeira é que homens gays, em média, relatam mais experiências de abuso e violência durante a infância do que homens heterossexuais.
A segunda é que isso não significa que o abuso cause a homossexualidade.
Confundir associação com causa foi um erro cometido durante décadas e ajudou a alimentar preconceitos, terapias de conversão e estigmas que ainda persistem.
Hoje sabemos que a orientação sexual é um fenômeno complexo, influenciado por múltiplos fatores biológicos, psicológicos e sociais, e que não pode ser reduzido a um único evento da infância.
Se existe uma conclusão importante, ela é esta:
Nenhuma criança deveria sofrer violência.
E nenhuma pessoa deveria ter sua identidade explicada ou questionada com base na violência que sofreu.
Referências científicas
• Bailey JM, Vasey PL, Diamond LM, et al. Sexual Orientation, Controversy, and Science. Psychological Science in the Public Interest. 2016.
• Friedman MS, Marshal MP, Guadamuz TE, et al. A Meta-Analysis of Disparities in Childhood Sexual Abuse, Parental Physical Abuse, and Peer Victimization Among Sexual Minority and Sexual Nonminority Individuals. American Journal of Public Health. 2011.
• Roberts AL, Rosario M, Corliss HL, Koenen KC, Austin SB. Childhood Gender Nonconformity: A Risk Indicator for Childhood Abuse and Posttraumatic Stress in Youth. Pediatrics. 2012.
• Institute of Medicine. The Health of Lesbian, Gay, Bisexual, and Transgender People. National Academies Press. 2011.
• Organização Mundial da Saúde. Responding to Children and Adolescents Who Have Been Sexually Abused: WHO Clinical Guidelines. 2017.
• Ministério da Saúde. Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e VIVA – Vigilância de Violências e Acidentes.
• Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Referências teóricas
• Sigmund Freud. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905).
• Sigmund Freud. Carta a uma mãe americana (1935).
• Michel Foucault. História da Sexualidade – Volume I: A Vontade de Saber (1976).
• Alfred C. Kinsey, Wardell B. Pomeroy e Clyde E. Martin. Sexual Behavior in the Human Male (1948).
• Fritz Klein. The Bisexual Option (1978).

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