O ser humano nasce monogâmico?

Quando duas pessoas começam um relacionamento, é comum surgir a ideia de que amar significa escolher apenas uma pessoa. Para muita gente, um casal deve ficar junto, ser fiel e não desejar ninguém além do parceiro.

Mas será que o ser humano já nasce querendo viver dessa maneira?

A resposta mais honesta é: não existe prova de que todas as pessoas nasçam monogâmicas. Também não existe prova de que o ser humano nasça incapaz de viver com apenas um parceiro.

O que os estudos mostram é que temos capacidade para criar vínculos fortes, amar, cuidar e construir uma vida ao lado de alguém. Ao mesmo tempo, podemos sentir atração, curiosidade ou interesse por outras pessoas.

Isso significa que vínculo afetivo e exclusividade não são exatamente a mesma coisa.

O que é monogamia?

Monogamia é um modelo de relacionamento em que duas pessoas combinam manter exclusividade afetiva ou sexual. Em algumas relações, a exclusividade envolve tanto o amor quanto as relações sexuais. Em outras, o casal cria acordos próprios sobre o que considera fidelidade.

Também existe a chamada monogamia em série. Ela acontece quando uma pessoa tem apenas um parceiro de cada vez, mas vive diferentes relacionamentos ao longo da vida.

Uma pessoa pode namorar, separar-se, conhecer outra pessoa e começar um novo relacionamento. Ela continua vivendo relações monogâmicas, mas não fica com o mesmo parceiro durante toda a vida.

O ser humano consegue criar vínculos duradouros

Os seres humanos possuem uma grande capacidade de criar laços afetivos. Podemos sentir saudade, ciúme, segurança, carinho e vontade de cuidar de alguém.

Na ciência, essa ligação pode ser chamada de vínculo de par. É quando duas pessoas desenvolvem uma ligação especial, procuram ficar próximas e passam a cooperar uma com a outra.

Esse tipo de vínculo pode ter ajudado nossos antepassados a cuidar dos filhos. Bebês humanos precisam de atenção durante muito tempo. A cooperação entre adultos pode ter aumentado as chances de proteção e sobrevivência das crianças.

Pesquisas mostram que vínculos de par aparecem em quase todas as sociedades humanas. Porém, isso não quer dizer que todas elas organizem o casamento, o amor e a sexualidade da mesma maneira. (Frontiers)

Criar vínculo não significa nunca desejar outra pessoa

Uma pessoa pode amar seu parceiro e ainda perceber que outras pessoas são bonitas ou atraentes.

Isso não prova que ela deixou de amar. Também não significa que precise agir sobre esse desejo.

Sentir atração é diferente de quebrar um acordo.

A fidelidade não depende apenas da ausência de desejo. Ela depende das escolhas feitas e dos acordos construídos entre as pessoas envolvidas.

Por isso, dizer que alguém verdadeiramente apaixonado nunca sente atração por mais ninguém é uma ideia difícil de sustentar. O cérebro humano pode formar vínculos fortes e, ao mesmo tempo, continuar respondendo a novidades e a outras pessoas.

Então a monogamia é natural ou cultural?

Ela pode ser as duas coisas.

A capacidade de formar vínculos faz parte da vida humana. Porém, a forma como esses vínculos são organizados também é ensinada pela família, pela religião, pelas leis, pelos filmes, pelas escolas e pela sociedade.

Em alguns lugares e momentos da história, um homem podia ter mais de uma esposa. Em outros, o casamento era decidido pelas famílias. Também existiram sociedades em que a separação era proibida ou muito condenada.

Isso mostra que não existe apenas uma maneira humana de organizar o amor.

Uma revisão antropológica publicada em 2019 concluiu que diferentes sistemas de relacionamento aparecem entre as sociedades. Mesmo onde a poliginia, quando um homem pode ter mais de uma esposa, é permitida, a maioria dos casamentos costuma envolver apenas duas pessoas. Os próprios pesquisadores afirmam que não existe consenso sobre um único sistema de relacionamento que possa definir toda a espécie humana. (Frontiers)

O que Freud pensava?

Sigmund Freud não criou uma teoria dizendo que o ser humano nasce monogâmico.

Para Freud, os seres humanos possuem desejos que nem sempre combinam com aquilo que a sociedade espera. A vida em grupo exige regras, limites e algumas renúncias.

Isso quer dizer que nem tudo o que desejamos pode ou deve ser realizado.

Em O mal-estar na civilização, Freud explicou que viver em sociedade exige controlar parte dos nossos impulsos. As pessoas precisam aprender a dividir espaços, respeitar regras e pensar nas consequências de suas ações.

A monogamia pode ser entendida como uma dessas formas de organização. Ela ajuda a definir quem forma um casal, como a família será organizada, quem cuidará dos filhos e quais comportamentos são esperados.

Entretanto, a regra não apaga completamente o desejo.

Uma pessoa pode escolher a monogamia e ainda enfrentar fantasias, ciúmes, medos e atrações. Para a psicanálise, esse conflito não significa necessariamente que o relacionamento fracassou. Ele mostra que o desejo humano não funciona como uma máquina que pode ser desligada.

Pesquisadores brasileiros que estudaram a presença da monogamia na obra de Freud observaram que ela aparece ligada à organização da família, da sociedade e do desejo, e não como um comportamento simples e totalmente determinado pela biologia. (Pepsic)

O que Foucault acrescenta?

Michel Foucault estudou como as sociedades criam ideias sobre aquilo que é considerado normal.

Para ele, a sociedade não apenas proíbe alguns comportamentos. Ela também ensina como as pessoas devem pensar sobre o amor, o corpo, o casamento, a família e a sexualidade.

Durante muito tempo, o casamento entre um homem e uma mulher, com filhos e exclusividade sexual, foi apresentado como o único modelo correto de família.

Outras formas de viver eram vistas como erradas, perigosas ou imorais.

Foucault ajuda a perceber que muitas coisas chamadas de naturais também foram construídas pela história. Isso não significa que sejam falsas. Significa que aprendemos a enxergá-las como normais porque elas foram repetidas, protegidas pelas leis e ensinadas durante muitas gerações.

A pergunta, portanto, não precisa ser apenas “a monogamia é natural?”. Também podemos perguntar:

Como a monogamia se tornou o modelo mais valorizado na nossa sociedade?

O pensamento de Foucault mostra que nossos desejos e nossa maneira de falar sobre sexualidade são influenciados pelas normas culturais e pelas relações de poder. (Enciclopédia de Filosofia de Stanford)

Onde entra a Escala Kinsey?

A Escala Kinsey não foi criada para medir se uma pessoa é monogâmica ou não.

Ela foi criada para estudar orientação e comportamento sexual. A escala vai de zero a seis. O zero representa experiências ou atrações exclusivamente heterossexuais. O seis representa experiências ou atrações exclusivamente homossexuais. Entre esses pontos existem diferentes combinações.

O principal ensinamento de Alfred Kinsey foi mostrar que o comportamento humano nem sempre cabe em duas caixas fechadas.

Antes de seus estudos, era comum dividir todas as pessoas apenas entre heterossexuais e homossexuais. Kinsey mostrou que muitas experiências estavam entre essas duas posições. (Kinsey Institute)

Essa ideia ajuda a pensar sobre os relacionamentos, mas com cuidado.

Não existe uma escala científica de monogamia criada por Kinsey. Porém, seu trabalho mostrou que os desejos, os comportamentos e as experiências humanas podem ser mais variados do que as regras sociais fazem parecer.

Também não devemos usar a escala para dizer que todas as pessoas são bissexuais ou que ninguém é realmente monogâmico. Ela apenas mostrou que a sexualidade pode apresentar diferentes graus e experiências.

E no Brasil?

Pesquisadores brasileiros também estudam como a monogamia influencia nossa identidade, nossas leis e a forma como entendemos o amor.

Um estudo brasileiro publicado em 2020 analisou a relação entre monogamia e identidade. A pesquisa mostrou como o modelo monogâmico pode participar da maneira pela qual uma pessoa entende a si mesma e seus relacionamentos. (SciELO Brasil)

Outras pesquisas discutem a chamada mononormatividade. Essa palavra descreve a ideia de que a monogamia seria o único modelo normal, correto ou capaz de produzir uma família legítima.

No Brasil, essa norma também aparece nas leis e na maneira como diferentes relações recebem ou deixam de receber reconhecimento. (SciELO Brasil)

Estudos brasileiros sobre poliamor e não monogamia mostram ainda que algumas pessoas passaram a questionar o modelo tradicional e a construir relações baseadas em outros acordos. Isso não significa que a monogamia esteja desaparecendo. Significa apenas que ela deixou de ser o único modelo sobre o qual as pessoas estão dispostas a conversar. (SciELO Brasil)

Ser monogâmico é errado?

Não.

A monogamia pode ser uma escolha saudável, segura e feliz. Muitas pessoas desejam construir uma relação exclusiva e sentem-se bem vivendo dessa forma.

O problema começa quando esse modelo é tratado como obrigação para todas as pessoas ou como prova automática de amor e caráter.

Da mesma forma, uma relação não monogâmica não é automaticamente mais livre, moderna ou saudável. Ela também precisa de diálogo, responsabilidade, respeito e consentimento.

Não existe modelo perfeito.

Uma relação monogâmica pode ter mentiras, controle e sofrimento. Uma relação não monogâmica também pode ter ciúmes, desrespeito e conflitos.

O que torna um relacionamento saudável não é apenas o seu nome. É a maneira como as pessoas se tratam.

Monogamia é diferente de fidelidade

É possível ser infiel dentro de uma relação monogâmica. Também é possível ser fiel dentro de uma relação não monogâmica.

Isso acontece porque fidelidade significa respeitar os acordos estabelecidos.

Em uma relação monogâmica, o acordo pode ser não se envolver com outras pessoas. Em uma relação aberta, pode existir permissão para determinadas experiências, desde que algumas regras sejam respeitadas.

A traição acontece quando alguém esconde, mente ou desrespeita aquilo que foi combinado.

Por isso, a fidelidade não pertence apenas à monogamia.

Afinal, o ser humano nasce monogâmico?

Não existe uma resposta simples que sirva para todas as pessoas.

O ser humano nasce com capacidade de criar vínculos, sentir afeto, buscar proteção e formar relações profundas. Mas não existe uma programação única que obrigue todos a desejar o mesmo tipo de relacionamento.

A monogamia é uma possibilidade humana. A não monogamia também.

A biologia ajuda a explicar nossa capacidade de amar e formar laços. A cultura ensina como esses laços devem ser organizados. Nossa história pessoal, nossos valores e nossas escolhas completam essa construção.

Talvez a pergunta mais importante não seja se todo ser humano nasceu monogâmico.

Talvez seja:

Qual modelo de relacionamento cada pessoa consegue viver com honestidade, respeito, responsabilidade e consentimento?

Referências teóricas

AMORIM, Patrícia Mafra de. Monogamia e identidade: considerações psicanalíticas. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, 2020.

AMORIM, Patrícia Mafra de; BELO, Fábio Roberto Rodrigues. A monogamia na obra de Freud. Cadernos de Psicanálise, Rio de Janeiro, v. 39, n. 36, p. 199-219, 2017.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. 1976.

FREUD, Sigmund. Totem e tabu. 1913.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. 1930.

KINSEY, Alfred C.; POMEROY, Wardell B.; MARTIN, Clyde E. Sexual Behavior in the Human Male. 1948.

KINSEY, Alfred C. et al. Sexual Behavior in the Human Female. 1953.

PEREZ, Tatiana Spalding; PALMA, Yáskara Arrial. Amar amores: o poliamor na contemporaneidade. Psicologia & Sociedade, 2018.

PORTO, Duina. Mononormatividade, intimidade e cidadania. Revista Direito GV, 2018.

SCHACHT, Ryan; KRAMER, Karen L. Are We Monogamous? A Review of the Evolution of Pair-Bonding in Humans and Its Contemporary Variation Cross-Culturally. Frontiers in Ecology and Evolution, v. 7, 2019.