Existe uma ideia muito comum de que homens gays “não querem compromisso”.
Mas será que isso é verdade?
Se olharmos apenas para os relacionamentos que não deram certo, essa impressão pode até parecer correta. O problema é que ela ignora toda a história por trás dessas relações.
Nenhuma pessoa nasce sabendo amar.
Nós aprendemos a amar observando outras pessoas. Aprendemos vendo nossos pais, nossos avós, nossos tios, nossos vizinhos e até os casais que aparecem na televisão.
É assim que entendemos, desde crianças, como funciona um relacionamento.
Mas, durante muito tempo, muitos homens gays cresceram sem ter essas referências.
Enquanto a maioria das crianças via casais heterossexuais em todos os lugares, quase nunca via dois homens vivendo uma relação de amor de forma natural. Quando apareciam na televisão, muitas vezes eram motivo de piada, escondiam quem eram ou tinham finais tristes.
Como aprender a construir um relacionamento quando quase ninguém mostrou que ele era possível?
Essa é uma pergunta que ajuda a entender boa parte da história.
Uma geração inteira desapareceu
Existe um capítulo dessa história que poucas pessoas conhecem.
Nos anos 1980 e no início dos anos 1990, a epidemia de AIDS atingiu de forma devastadora a comunidade gay.
Antes da chegada dos tratamentos eficazes para o HIV, milhares de homens morreram muito jovens.
Não foram perdidos apenas filhos, irmãos, amigos e companheiros.
Também desapareceram casais, líderes comunitários, artistas, professores e homens que poderiam servir de inspiração para as gerações seguintes.
Imagine crescer sem conhecer um único casal gay que estivesse junto há vinte ou trinta anos.
Foi exatamente isso que aconteceu com muitos homens.
Essa ausência criou um vazio afetivo que ainda pode ser sentido hoje.
Embora o HIV tenha mudado completamente com o tratamento antirretroviral e pessoas vivendo com HIV possam ter uma vida longa e saudável, os efeitos daquela epidemia continuam presentes na memória coletiva da comunidade LGBTQIA+.
O preconceito começa antes do primeiro namoro
Para muitas pessoas gays, o medo não começou na vida adulta.
Começou na infância.
Muitos ouviram frases como:
“Isso é errado.”
“Você precisa mudar.”
“Tomara que meu filho nunca seja gay.”
Mesmo quando essas frases não eram dirigidas a eles, a mensagem era clara.
Ser gay parecia algo que precisava ser escondido.
Quando uma criança cresce ouvindo que existe algo errado com aquilo que sente, ela pode começar a acreditar nisso.
Na Psicologia, esse processo é conhecido como estigma internalizado.
A pessoa passa a carregar dentro de si parte do preconceito que aprendeu com a sociedade.
Isso pode afetar a autoestima, a confiança, a forma como demonstra carinho e até a capacidade de acreditar que merece ser amada.
Aprender a esconder também ensina a não confiar
Muitos homens passaram anos escondendo seus sentimentos.
Escondiam de amigos.
Da família.
Da escola.
Do trabalho.
Alguns escondiam até de si mesmos.
Depois de tanto tempo vivendo dessa forma, confiar em outra pessoa pode parecer perigoso.
Alguns evitam demonstrar vulnerabilidade.
Outros terminam relações antes de criar um vínculo profundo.
Outros vivem esperando o abandono.
Não porque não saibam amar.
Mas porque aprenderam que amar podia trazer sofrimento.
Casais gays não vivem a mesma realidade de casais heterossexuais
Outro erro muito comum é comparar casais gays com casais heterossexuais como se todos funcionassem exatamente da mesma maneira.
Não funcionam.
Casais formados por um homem e uma mulher vivem determinadas experiências.
Casais formados por dois homens vivem outras.
Casais formados por duas mulheres vivem outras diferentes.
Isso acontece porque existem fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais envolvidos.
Por exemplo, pesquisas mostram que, em média, homens apresentam níveis mais elevados de testosterona do que mulheres, o que pode influenciar padrões médios de desejo sexual. Em casais de dois homens, essa dinâmica pode resultar em negociações diferentes sobre frequência sexual, exclusividade e formas de viver a intimidade.
Isso não significa que homens sejam incapazes de construir relações duradouras.
Muito menos que todos os casais gays sejam iguais.
Significa apenas que suas experiências não podem ser medidas usando o relacionamento heterossexual como única referência.
Cada casal constrói seus próprios acordos.
Cada casal encontra sua própria forma de amar.
Os aplicativos mudaram completamente a forma de conhecer pessoas
Se antes o desafio era encontrar outro homem gay, hoje o desafio muitas vezes é escolher entre centenas de possibilidades.
Os aplicativos transformaram a vida da comunidade LGBTQIA+.
Eles aproximaram pessoas que talvez nunca se encontrassem.
Ajudaram quem morava em cidades pequenas.
Criaram amizades.
Casamentos.
Famílias.
Mas também trouxeram novos desafios.
Quando existem opções praticamente infinitas, algumas pessoas passam a acreditar que sempre existe alguém melhor esperando logo abaixo na tela.
A Psicologia chama esse fenômeno de paradoxo da escolha.
Quanto maior o número de opções, maior pode ser a dificuldade para escolher uma delas e permanecer satisfeito com essa escolha.
Criar intimidade exige tempo.
Confiança exige convivência.
Nenhum vínculo profundo nasce da velocidade com que deslizamos o dedo na tela.
Pesquisas também mostram que o uso excessivo de aplicativos pode aumentar ansiedade, comparação social, preocupação com aparência física e sensação de rejeição, principalmente quando a autoestima passa a depender da aprovação de desconhecidos.
Isso não significa que os aplicativos sejam ruins.
Significa apenas que eles mudaram profundamente a maneira como muitas pessoas iniciam seus relacionamentos.
Existe uma enorme pressão para encontrar “o amor da vida”
Outro fator pouco discutido é a pressão social.
Desde pequenos ouvimos histórias que terminam em casamento.
Filmes, novelas e desenhos costumam ensinar que a felicidade depende de encontrar a pessoa certa.
Mas a vida real é muito mais diversa.
Existem pessoas felizes casadas.
Existem pessoas felizes solteiras.
Existem pessoas felizes vivendo relacionamentos abertos.
Existem pessoas felizes morando sozinhas.
Nenhum desses caminhos é automaticamente melhor que o outro.
O problema surge quando alguém acredita que fracassou simplesmente porque sua vida não se parece com a dos outros.
Essa comparação constante pode gerar ansiedade, frustração e fazer com que pessoas permaneçam em relações ruins apenas por medo da solidão.
Relacionamentos saudáveis não existem para completar alguém.
Eles existem para compartilhar uma vida que já tem sentido.
O peso do preconceito continua existindo
Mesmo com todos os avanços das últimas décadas, homens gays ainda convivem com discriminação.
Alguns escondem a orientação sexual no trabalho.
Outros evitam demonstrar carinho em público.
Alguns têm medo da reação da própria família.
Pesquisadores chamam esse conjunto de experiências de estresse de minoria.
Não é a orientação sexual que aumenta os problemas de saúde mental.
É o desgaste provocado pelo preconceito constante.
Diversos estudos mostram que pessoas LGBTQIA+ apresentam taxas mais elevadas de ansiedade, depressão, estresse e pensamentos suicidas quando comparadas à população geral. Grande parte dessa diferença está relacionada às experiências de discriminação, violência e exclusão.
Essas marcas também aparecem nos relacionamentos.
Quem aprendeu a viver em alerta costuma precisar de mais tempo para confiar.
Hoje existe algo que antes quase não existia: referências
Talvez a maior mudança das últimas décadas seja justamente esta.
Hoje é possível ver casais gays envelhecendo juntos.
Criando filhos.
Comprando uma casa.
Planejando a aposentadoria.
Vivendo uma vida comum.
Pode parecer pouco.
Mas isso muda tudo.
As referências ensinam.
Elas mostram para um adolescente que existe futuro.
Que é possível amar.
Que é possível construir uma família.
Que felicidade não pertence apenas aos casais heterossexuais.
No fim, talvez a pergunta esteja errada
Talvez a pergunta nunca tenha sido:
“Por que homens gays têm dificuldade para se relacionar?”
Talvez a pergunta mais justa seja:
Como construir um relacionamento saudável depois de crescer sem referências, enfrentando preconceito, convivendo com perdas históricas, aprendendo a esconder quem se é e, hoje, tentando criar vínculos em um mundo onde tudo parece rápido, descartável e cheio de opções?
Quando olhamos para essa história inteira, percebemos que o problema não está na orientação sexual.
Está nas marcas deixadas por décadas de exclusão.
A boa notícia é que essas marcas não precisam definir o futuro.
Quanto mais espaço existe para acolhimento, saúde mental, diálogo e representatividade, maiores são as chances de construir relações baseadas em respeito, confiança e afeto.
Porque ninguém nasce sabendo amar.
Mas todos podem aprender quando finalmente têm a liberdade de viver quem realmente são.
Referências teóricas
- Meyer IH. Prejudice, Social Stress, and Mental Health in Lesbian, Gay, and Bisexual Populations: Conceptual Issues and Research Evidence. Psychological Bulletin. 2003.
- Herek GM. Sexual Stigma and Sexual Prejudice in the United States. 2007.
- Frost DM, Meyer IH. Minority Stress and Relationship Functioning among Same-Sex Couples. Journal of Counseling Psychology.
- Pachankis JE. The Psychological Implications of Concealing a Stigma. Psychological Bulletin. 2007.
- Schwartz B. The Paradox of Choice: Why More Is Less. 2004.
- Bruch EE, Newman MEJ. Aspirational Pursuit of Mates in Online Dating Markets. Science Advances. 2018.
- Goffman E. Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada. 1963.
- Foucault M. História da Sexualidade. Vol. I.
- Butler J. Problemas de Gênero. 1990.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Relatórios sobre saúde mental e determinantes sociais da saúde.
- UNAIDS. Relatórios históricos sobre a epidemia de HIV/AIDS e seus impactos sociais.
- Ministério da Saúde do Brasil. Boletins Epidemiológicos de HIV/Aids e publicações sobre saúde da população LGBTQIA+.

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