A frase “todo mundo é um pouco bissexual” aparece com frequência em conversas, nas redes sociais e até em debates acadêmicos. Para algumas pessoas, ela faz sentido. Para outras, parece uma forma de apagar a identidade de quem é heterossexual, gay, lésbica ou bissexual.
Mas de onde surgiu essa ideia? Será que ela tem fundamento científico? E será que Freud realmente dizia que todas as pessoas são bissexuais?
A resposta é mais complexa do que parece.
A frase é verdadeira?
Depende do que estamos chamando de “bissexual”.
Se estivermos falando de orientação sexual, a resposta é não. A ciência não afirma que todas as pessoas sejam bissexuais.
Existem pessoas exclusivamente heterossexuais, exclusivamente homossexuais, bissexuais, pansexuais, assexuais e diversas outras formas de vivenciar a sexualidade.
Por outro lado, quando falamos sobre desejos, fantasias, curiosidades, vínculos afetivos e identificações, percebemos que a experiência humana pode ser muito mais rica do que uma simples classificação entre “hétero” e “gay”. É justamente aí que entram Freud, Kinsey, Klein e Foucault.
Freud nunca disse que todo mundo é bissexual
Essa talvez seja uma das interpretações mais equivocadas sobre a obra de Sigmund Freud.
Freud jamais escreveu que todas as pessoas são bissexuais no sentido em que usamos essa palavra hoje.
O que ele desenvolveu foi o conceito de bissexualidade psíquica.
Segundo Freud, todo ser humano nasce com potencialidades de identificação tanto com figuras masculinas quanto femininas. Essas identificações fazem parte da construção da personalidade e não significam, necessariamente, desejo sexual por ambos os sexos.
Ao longo do desenvolvimento, essas identificações, desejos e vínculos vão sendo organizados de maneiras diferentes em cada indivíduo.
Portanto, quando algumas pessoas afirmam que “Freud dizia que todo mundo é bissexual”, estão simplificando uma teoria muito mais ampla.
Freud não falava de orientação sexual. Ele falava da complexidade da mente humana.
Kinsey mudou completamente a discussão
Em 1948, Alfred Kinsey publicou um dos estudos mais importantes da história da sexualidade.
Depois de entrevistar milhares de pessoas, ele percebeu que a realidade não cabia em apenas duas categorias.
Até então, era comum imaginar que existiam apenas dois grupos: heterossexuais e homossexuais.
Mas Kinsey observou que muitas pessoas apresentavam experiências, fantasias ou comportamentos que não se encaixavam perfeitamente em nenhum dos extremos.
Foi então que criou a famosa Escala Kinsey.
Nessa escala:
• 0 representa pessoas exclusivamente heterossexuais.
• 6 representa pessoas exclusivamente homossexuais.
Entre esses extremos existem diferentes graus de atração e experiência.
É importante entender que Kinsey nunca afirmou que todas as pessoas estariam exatamente no meio da escala.
Algumas permanecem próximas do zero durante toda a vida.
Outras permanecem próximas do seis.
Muitas transitam por posições intermediárias.
Sua principal contribuição foi mostrar que a sexualidade pode funcionar como um continuum e não apenas como duas caixas completamente separadas.
Klein mostrou que a sexualidade é ainda mais complexa
Na década de 1970, Fritz Klein acreditava que a Escala Kinsey ainda deixava muitas perguntas sem resposta.
Para ele, olhar apenas para comportamento sexual era insuficiente.
Foi então que criou a Grade de Orientação Sexual de Klein.
Ela passou a avaliar diferentes aspectos da sexualidade:
• atração sexual;
• comportamento;
• fantasias;
• vínculos emocionais;
• preferência social;
• estilo de vida;
• autoidentificação.
Além disso, Klein avaliava cada um desses aspectos em três momentos diferentes:
• passado;
• presente;
• idealizado.
Isso permitia compreender situações como:
Uma pessoa pode sentir atração por homens.
Fantasiar com mulheres.
Ter relacionamentos apenas com mulheres.
E ainda assim se identificar como heterossexual.
Ou exatamente o contrário.
Para Klein, a sexualidade humana dificilmente poderia ser resumida em apenas uma palavra.
Foucault fez uma pergunta diferente
Enquanto Freud estudava o inconsciente e Kinsey analisava comportamentos, Michel Foucault voltou sua atenção para outra questão.
Ele perguntou:
Quem decidiu que todas as pessoas precisam ser classificadas em categorias rígidas?
Em História da Sexualidade, Foucault explica que as identidades sexuais que usamos hoje são relativamente recentes.
Durante séculos, a sociedade classificava comportamentos.
Mais tarde passou a classificar pessoas.
Em vez de dizer que alguém praticava determinado comportamento, começou-se a afirmar que aquela pessoa “era” determinada identidade.
Foucault não negava a existência da orientação sexual.
Seu argumento era que as formas como organizamos essas categorias também fazem parte da história, da cultura e das relações de poder.
Então todo mundo é um pouco bissexual?
A ciência atual não permite afirmar isso.
O que as pesquisas mostram é que existe uma enorme diversidade na forma como as pessoas vivenciam sua sexualidade.
Algumas jamais sentem qualquer atração pelo mesmo sexo.
Outras experimentam curiosidade sem nunca desejar viver aquela experiência.
Algumas apresentam mudanças ao longo da vida.
Outras permanecem estáveis desde a adolescência.
Existem pessoas claramente bissexuais.
Existem pessoas claramente heterossexuais.
Existem pessoas claramente homossexuais.
Todas essas experiências são legítimas.
O problema da frase
Quando alguém afirma que “todo mundo é um pouco bissexual”, geralmente pretende transmitir uma ideia de diversidade.
Mas essa frase pode produzir alguns efeitos inesperados.
Ela pode minimizar a experiência de pessoas exclusivamente heterossexuais.
Pode apagar a experiência de gays e lésbicas.
E também pode invisibilizar quem realmente é bissexual, como se sua orientação fosse apenas uma característica presente em todas as pessoas.
Por isso, muitos pesquisadores preferem uma conclusão diferente.
Talvez seja mais correto dizer que:
A sexualidade humana é muito mais diversa, dinâmica e complexa do que qualquer categoria consegue explicar completamente.
Uma reflexão
Talvez a pergunta mais interessante não seja:
“Todo mundo é um pouco bissexual?”
Talvez a pergunta seja outra.
Por que sentimos tanta necessidade de encaixar todas as pessoas em categorias absolutamente fixas?
As categorias são importantes porque ajudam muitas pessoas a compreenderem a si mesmas, encontrarem pertencimento e reivindicarem direitos.
Ao mesmo tempo, elas nunca conseguem representar perfeitamente toda a complexidade da experiência humana.
Talvez a maior contribuição de Freud, Kinsey, Klein e Foucault não tenha sido dizer exatamente o que é a sexualidade.
Talvez tenha sido nos lembrar de que ela dificilmente cabe em respostas simples.
E talvez essa seja justamente a beleza da sexualidade humana: ela desafia certezas, atravessa culturas, muda ao longo da história e continua nos convidando a fazer perguntas, em vez de aceitar respostas prontas.
Referências
Freud S. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905).
Freud S. O Ego e o Id (1923).
Kinsey AC, Pomeroy WB, Martin CE. Sexual Behavior in the Human Male (1948).
Kinsey AC et al. Sexual Behavior in the Human Female (1953).
Klein F. The Bisexual Option (1978).
Klein F, Sepekoff B, Wolf TJ. Sexual Orientation: A Multi-Variable Dynamic Process. Journal of Homosexuality (1985).
Foucault M. História da Sexualidade – Volume I: A Vontade de Saber (1976).
American Psychological Association (APA). Guidelines for Psychological Practice with Sexual Minority Persons (2021).

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