PEP pode mudar completamente nos próximos anos: pesquisadores discutem uma nova forma de testar a prevenção ao HIV

Apresentado durante a AIDS 2026, no Rio de Janeiro.

A profilaxia pós-exposição (PEP) pode estar prestes a passar por uma das maiores mudanças desde sua criação. Pesquisadores, reguladores, representantes da Organização Mundial da Saúde (OMS), indústria farmacêutica e lideranças comunitárias discutiram, durante a AIDS 2026, um novo caminho para desenvolver e aprovar futuras PEPs, principalmente as versões de longa duração.

O problema não é que a PEP atual seja ruim. Pelo contrário. Ela funciona tão bem que ficou extremamente difícil provar que uma nova PEP é ainda melhor utilizando os modelos tradicionais de pesquisa clínica.

O problema dos estudos atuais

Quando a PEP surgiu, sua eficácia foi demonstrada principalmente por estudos observacionais, modelos biológicos, pesquisas em animais e pela experiência acumulada na prática clínica. Não foram realizados grandes ensaios clínicos randomizados semelhantes aos exigidos hoje para novos medicamentos.

Agora, para aprovar novas tecnologias, os órgãos reguladores costumam exigir estudos muito maiores e mais rigorosos. Segundo os pesquisadores, isso cria uma situação paradoxal.

Como a PEP já protege muito bem, quase ninguém adquire HIV durante os estudos. Consequentemente, torna-se quase impossível demonstrar estatisticamente que uma nova estratégia é superior.

O desafio aumenta com as PEPs de longa duração

As novas PEPs injetáveis de longa duração podem aumentar muito a adesão ao tratamento.

Hoje, muitas pessoas não conseguem completar os 28 dias de medicação.

Alguns estudos mostram taxas de conclusão próximas de apenas 50%.

Se existir uma PEP aplicada em dose única ou poucas aplicações, a adesão pode ultrapassar 99%.

O problema é que os métodos atuais de pesquisa foram criados para medicamentos orais tradicionais e talvez não sejam os mais adequados para essas novas tecnologias.

A corrida contra o tempo

Os pesquisadores reforçaram um conceito importante da biologia do HIV.

Após a exposição:

• nas primeiras horas ocorre a infecção inicial;

• depois o vírus começa a se multiplicar localmente;

• somente mais tarde acontece a disseminação pelo organismo.

Por isso, quanto mais cedo a PEP é iniciada, maiores são as chances de impedir que o HIV se estabeleça.

Os quatro modelos propostos

Durante a apresentação foram discutidos quatro possíveis modelos de pesquisa.

1. Placebo contrafactual

Utiliza modelos matemáticos para estimar o que aconteceria sem o novo tratamento.

É considerado interessante do ponto de vista estatístico, mas possui dificuldades operacionais e regulatórias.

2. Estudos pragmáticos

Comparam principalmente a adesão entre diferentes estratégias.

São mais simples de executar, porém não demonstram diretamente a eficácia biológica exigida pelas agências reguladoras.

3. Estudo híbrido de preferência

Permite que parte dos participantes escolha o tratamento enquanto outra parte seja randomizada.

Produz dados mais próximos da vida real, mas exige grandes amostras.

4. Zero Event Trial

Foi o modelo que recebeu maior apoio durante o workshop.

A proposta muda completamente a lógica dos estudos.

Em vez de esperar que pessoas adquiram HIV para provar eficácia, o estudo acompanha milhares de exposições em que ninguém se infecta.

Quanto maior o número de exposições acompanhadas sem transmissão, maior a confiança estatística de que a PEP realmente protege.

Segundo os pesquisadores, aproximadamente 1.000 a 2.000 participantes acompanhados por um ano poderiam fornecer evidências robustas suficientes para futuras análises regulatórias.

Consenso do workshop

Ao final da discussão, os participantes chegaram a algumas conclusões importantes.

• A exigência de evidências deve ser proporcional ao padrão de cuidado já existente.

• Os 28 dias de tratamento continuam sendo considerados necessários para a maioria das pessoas até que novas evidências demonstrem o contrário.

• Novos desenhos de pesquisa são necessários para desenvolver PEPs de longa duração.

• O modelo chamado Zero Event Trial foi considerado o mais promissor por combinar viabilidade, ética, rigor científico e potencial regulatório.

• A discussão com agências reguladoras, como FDA, EMA e outras autoridades sanitárias, deverá continuar antes da implementação desses novos estudos.

O que isso significa para quem vive a prevenção?

Ainda não muda a recomendação atual da PEP.

Quem tiver uma exposição de risco continua devendo iniciar a PEP o mais rapidamente possível e completar os 28 dias de tratamento.

O que muda é a forma como os pesquisadores pretendem testar os próximos medicamentos.

Se essas propostas forem aceitas pelas autoridades regulatórias, elas poderão acelerar o desenvolvimento de novas PEPs, principalmente versões injetáveis de longa duração, que podem facilitar muito a adesão e ampliar o acesso à prevenção.

Referências

• AIDS 2026 – Why PEP Trial Design Matters Now (Workshop apresentado durante a Conferência Internacional de AIDS 2026, Rio de Janeiro).

• Robertson M. et al. HIV PEP Workshop 2026 – Forum for Collaborative Research.

• Gao F. Statistical methodology for counterfactual placebo designs. Statistics in Medicine. 2025.

• Violette NJ et al. Preference trial methodologies. Vaccine. 2024.

• Molina JM et al. ANRS Prévenir Study. The Lancet HIV. 2022.

• Zhang et al. Operational considerations for HIV prevention trials. BMC Public Health. 2025.

• WHO. Guidelines on HIV Post-Exposure Prophylaxis. Organização Mundial da Saúde.

• Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Updated Guidelines for HIV Post-Exposure Prophylaxis.

• Ministério da Saúde do Brasil. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pós-Exposição (PEP) ao HIV.