Envelhecer com HIV vai muito além da carga viral: estudo aponta os principais fatores que afetam a memória

RIO DE JANEIRO – Durante muito tempo, o principal objetivo do tratamento do HIV foi manter a carga viral indetectável e evitar infecções oportunistas. Hoje, graças aos avanços da terapia antirretroviral, milhões de pessoas vivem mais e envelhecem com qualidade. Mas uma nova pesquisa apresentada na AIDS 2026 mostra que, ao envelhecer, outros aspectos também merecem atenção, especialmente a saúde do cérebro.

Os resultados do ELEA-Brasil (Estudo Longitudinal do Envelhecimento e AIDS) indicam que preservar a memória, a atenção e o raciocínio depende não apenas do controle do vírus, mas também da saúde mental, da história do tratamento e até das condições sociais ao longo da vida.

A boa notícia é que muitos desses fatores podem ser identificados e acompanhados precocemente.

O que os pesquisadores investigaram?

O estudo reuniu 624 pessoas vivendo com HIV, todas com 50 anos ou mais, em tratamento antirretroviral e com carga viral abaixo de 200 cópias/mL.

Os participantes eram acompanhados em centros de referência do Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador.

O objetivo era entender quais fatores estavam relacionados ao desempenho cognitivo, ou seja, à capacidade de lembrar informações, manter a atenção, planejar tarefas e resolver problemas.

O que o estudo encontrou?

Os participantes realizaram o MoCA (Montreal Cognitive Assessment), um teste utilizado no mundo todo para identificar pessoas que podem precisar de uma avaliação mais detalhada da cognição.

Cerca de 50,5% tiveram pontuação igual ou inferior a 23 pontos, o ponto de corte adotado pelos pesquisadores.

É importante fazer uma ressalva: isso não significa que metade das pessoas apresentava demência ou uma doença neurológica.

O MoCA é um exame de rastreamento. Ele serve para indicar quem pode se beneficiar de uma investigação mais aprofundada. Muitas pessoas com pontuação abaixo do ponto de corte continuam independentes, trabalham normalmente e nunca desenvolverão demência.

O HIV não foi o único fator associado

Um dos resultados mais interessantes da pesquisa foi mostrar que o desempenho cognitivo não depende apenas da presença do HIV.

Após analisar diversos fatores ao mesmo tempo, os pesquisadores observaram associação entre pior desempenho cognitivo e:

  • idade mais avançada;
  • menor escolaridade;
  • sintomas mais intensos de depressão;
  • menor CD4 nadir (o menor CD4 que a pessoa já teve na vida);
  • maior tempo de uso de efavirenz;
  • maior vulnerabilidade social.

Em outras palavras, o cérebro é influenciado por toda a trajetória de vida da pessoa, e não apenas pelo vírus.

Começar o tratamento cedo continua fazendo diferença

Entre todos os fatores avaliados, um deles reforça uma mensagem conhecida pelos infectologistas.

Pessoas que tiveram CD4 muito baixo antes do início ou da estabilização do tratamento apresentaram maior probabilidade de alterações cognitivas anos depois.

Isso reforça a importância do diagnóstico precoce e do início oportuno da terapia antirretroviral.

Quanto mais cedo o tratamento começa, maiores são as chances de proteger não apenas o sistema imunológico, mas também outros órgãos, incluindo o cérebro.

A saúde mental também protege a memória

Outro resultado importante foi a relação entre depressão e desempenho cognitivo.

Os participantes com mais sintomas depressivos apresentaram pior desempenho nos testes.

Isso não significa que a depressão cause, sozinha, alterações cognitivas permanentes. Mas mostra que cuidar da saúde mental faz parte do cuidado integral em HIV.

Tratar ansiedade, depressão e outras condições emocionais pode contribuir para uma melhor qualidade de vida e também para preservar funções como memória e concentração.

E os medicamentos?

O estudo também avaliou a relação entre diferentes antirretrovirais e cognição.

Os pesquisadores observaram uma associação entre maior tempo de uso de efavirenz (EFV) e pior desempenho cognitivo.

No entanto, essa associação não prova que o medicamento seja a causa. Muitas pessoas que utilizaram efavirenz iniciaram o tratamento há muitos anos, quando os esquemas disponíveis eram diferentes e o diagnóstico frequentemente acontecia mais tarde.

Já o dolutegravir (DTG), utilizado atualmente por grande parte das pessoas vivendo com HIV, não apresentou associação com pior desempenho cognitivo, um resultado que traz tranquilidade para quem utiliza os esquemas modernos.

As condições de vida também fazem diferença

Outro ponto importante apresentado pelos pesquisadores foi a influência das condições sociais.

Pessoas com menor escolaridade e pertencentes a grupos historicamente mais vulneráveis apresentaram maior probabilidade de alterações cognitivas.

Esses resultados não significam que essas características sejam a causa do problema. Eles refletem desigualdades acumuladas ao longo da vida, como diferenças no acesso à educação, renda, serviços de saúde e oportunidades.

Isso reforça que cuidar da saúde também envolve olhar para o contexto em que cada pessoa vive.

O que muda para quem vive com HIV?

Talvez esta seja a principal mensagem da apresentação.

Ser indetectável continua sendo uma das maiores conquistas do tratamento do HIV e permanece fundamental para a saúde e para a prevenção da transmissão sexual do vírus.

Ao mesmo tempo, envelhecer bem envolve outros cuidados que beneficiam qualquer pessoa, vivendo ou não com HIV:

  • manter o tratamento em dia;
  • controlar pressão arterial, diabetes e colesterol;
  • praticar atividade física regularmente;
  • estimular o cérebro com leitura, estudos e novas aprendizagens;
  • manter vínculos sociais;
  • cuidar da saúde mental;
  • conversar com a equipe de saúde caso surjam dificuldades persistentes de memória ou concentração.

Essas medidas ajudam a preservar a qualidade de vida e a autonomia ao longo dos anos.

O futuro do cuidado em HIV

A apresentação do ELEA-Brasil mostra como o cuidado em HIV evoluiu nas últimas décadas.

Se antes o foco era garantir a sobrevivência, hoje o objetivo é que as pessoas vivam mais e vivam melhor.

Isso significa olhar para a pessoa como um todo: corpo, mente, relações, contexto social e envelhecimento.

Mais do que um alerta, esse estudo traz uma mensagem positiva. Graças aos avanços do tratamento, cada vez mais pessoas vivendo com HIV chegam aos 50, 60 e 70 anos. O próximo passo é garantir que esse envelhecimento aconteça com saúde, autonomia e qualidade de vida.

Referências

  • Côrtes P. Biological and Psychosocial Factors in Cognitive Decline Among Older Adults with HIV. Apresentação na AIDS 2026, Rio de Janeiro.
  • ELEA-Brasil (Estudo Longitudinal do Envelhecimento e AIDS).
  • Rosca EC, Albarqouni L, Simu M. Montreal Cognitive Assessment (MoCA): desempenho e aplicações clínicas. 2019.
  • Kroenke K, Spitzer RL, Williams JBW. The PHQ-9: Validity of a Brief Depression Severity Measure. Journal of General Internal Medicine. 2001.
  • Brew BJ, Crowe SM, Landay A, et al. HIV-associated neurocognitive disorders. Nature Reviews Neurology. 2009.
  • Winston A, Spudich S. Cognitive disorders in people living with HIV. The Lancet HIV. 2020.