Estudo apresentado no AIDS 2026 mostra que, mais do que ter músculos grandes, o segredo para envelhecer bem pode estar na saúde deles.
RIO DE JANEIRO – Durante muitos anos, o maior objetivo do tratamento do HIV foi garantir que as pessoas sobrevivessem ao vírus. Hoje, graças aos avanços da terapia antirretroviral, esse cenário mudou. Pessoas vivendo com HIV estão envelhecendo e alcançando uma expectativa de vida cada vez maior.
Mas viver mais trouxe uma nova pergunta: como envelhecer com qualidade?
Foi justamente essa questão que pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos buscaram responder em um estudo apresentado no AIDS 2026, no Rio de Janeiro.
A principal descoberta pode mudar a forma como profissionais de saúde acompanham o envelhecimento de pessoas vivendo com HIV: a qualidade do músculo parece ser mais importante para preservar a autonomia do que apenas a quantidade de massa muscular.
Estamos vivendo mais. Agora precisamos viver melhor.
Nas últimas décadas, a ciência conseguiu transformar o HIV em uma infecção crônica tratável. Hoje, em muitos países, mais da metade das pessoas vivendo com HIV já tem 50 anos ou mais, e esse número continua crescendo.
Com isso, os desafios também mudaram.
Além de manter a carga viral indetectável, tornou-se essencial preservar a capacidade de caminhar, subir escadas, trabalhar, praticar atividades físicas e continuar independente.
Isso porque o envelhecimento está associado ao aumento do risco de:
- perda de força muscular;
- dificuldade para caminhar;
- quedas;
- perda da independência;
- fragilidade;
- hospitalizações;
- pior qualidade de vida.
A boa notícia é que muitos desses problemas podem ser prevenidos quando identificados precocemente.
O músculo muda com o passar dos anos
É natural perder massa muscular com o envelhecimento. Estima-se que, a partir dos 30 anos, uma pessoa possa perder entre 3% e 8% da massa muscular por década, e essa perda costuma acelerar após os 60 anos.
Em pessoas vivendo com HIV, esse processo pode ser influenciado por fatores como a inflamação crônica relacionada à infecção, o envelhecimento biológico, doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade e pelo próprio sedentarismo.
Mas será que o problema está apenas na quantidade de músculo?
Os pesquisadores acreditam que não.
Ter músculo não significa que ele seja saudável
Durante muitos anos, a maior parte dos exames avaliou apenas quanto músculo uma pessoa possui.
Mas um músculo pode parecer grande e, ainda assim, funcionar mal.
Isso acontece porque, com o envelhecimento, parte das fibras musculares pode ser substituída por gordura. Esse processo é chamado de infiltração de gordura intramuscular.
Imagine duas pessoas com pernas do mesmo tamanho.
As duas têm praticamente a mesma quantidade de músculos.
Uma sobe escadas sem dificuldade, caminha longas distâncias e mantém uma vida ativa.
A outra sente cansaço para pequenas atividades e tem dificuldade para levantar da cadeira.
Por fora, elas parecem iguais.
Por dentro, seus músculos podem ser completamente diferentes.
Foi justamente essa diferença que o estudo investigou.
Como o estudo foi realizado?
A pesquisa faz parte do HEALTH Study e incluiu pessoas vivendo com HIV entre 50 e 80 anos, todas em tratamento antirretroviral há pelo menos um ano e com carga viral inferior a 200 cópias/mL.
Nesta análise participaram 52 voluntários, com idade mediana de 58 anos e cerca de 24 anos vivendo com HIV.
Os pesquisadores utilizaram três métodos diferentes para avaliar os músculos:
- DEXA, que mede a quantidade de massa muscular;
- ressonância magnética, capaz de identificar gordura infiltrada dentro do músculo;
- ultrassom, utilizado para analisar a espessura e a estrutura muscular.
Depois disso, todos realizaram testes para medir:
- força de preensão manual;
- força dos membros inferiores;
- velocidade da caminhada;
- teste de levantar da cadeira;
- caminhada de 400 metros;
- desempenho físico global.
Quantidade e qualidade são coisas diferentes
Os resultados mostraram que existe uma diferença importante entre ser forte e ser funcional.
Quem tinha mais massa muscular também apresentava mais força.
Essa associação apareceu em praticamente todos os testes de força realizados.
Mas havia um detalhe importante.
Ter mais músculo não significava, necessariamente, caminhar melhor, levantar da cadeira com mais facilidade ou apresentar melhor desempenho físico.
Quem explicou essa diferença foi justamente a qualidade do músculo.
A gordura dentro do músculo faz diferença
A ressonância magnética mostrou que pessoas com maior infiltração de gordura na musculatura da coxa apresentavam pior desempenho físico.
Elas caminhavam pior, tinham resultados inferiores nos testes funcionais e apresentavam maior vulnerabilidade para perda de autonomia.
Curiosamente, essa gordura infiltrada não esteve relacionada à força máxima, mas sim à capacidade de realizar atividades do dia a dia.
Na prática, isso significa que alguém pode continuar relativamente forte e, mesmo assim, apresentar limitações para caminhar, subir escadas ou manter sua independência.
Isso pode mudar a forma como avaliamos o envelhecimento
Até hoje, muitos profissionais olham principalmente para a quantidade de massa muscular.
O estudo apresentado no AIDS 2026 mostra que talvez seja necessário ampliar essa avaliação.
Segundo os autores, quantidade e qualidade muscular são informações complementares.
Enquanto a quantidade ajuda a entender a força, a qualidade parece ser um indicador mais sensível da capacidade funcional e do risco de fragilidade.
Essa mudança pode permitir que problemas sejam identificados antes do aparecimento de quedas, limitações físicas e perda de autonomia.
Exercício físico protege muito mais do que os músculos
Os resultados também reforçam algo que diversas pesquisas já demonstraram: o exercício físico é uma das ferramentas mais importantes para promover um envelhecimento saudável em pessoas vivendo com HIV.
Além de preservar a massa muscular, a atividade física ajuda a melhorar:
- equilíbrio;
- mobilidade;
- capacidade cardiorrespiratória;
- controle da glicemia;
- saúde cardiovascular;
- qualidade do sono;
- redução da fadiga.
Os benefícios não param por aí.
Cuidar dos músculos também é cuidar da saúde mental
A prática regular de exercícios físicos também está associada à melhora da saúde mental.
Estudos mostram que pessoas vivendo com HIV apresentam maior risco de ansiedade, depressão e isolamento social, muitas vezes relacionados ao estigma, ao envelhecimento e ao impacto emocional de viver com uma condição crônica.
A atividade física ajuda a reduzir sintomas de ansiedade e depressão, melhora a autoestima, favorece a percepção positiva do próprio corpo e estimula o convívio social, principalmente quando realizada em grupo.
Ou seja, fortalecer os músculos também pode fortalecer o bem-estar emocional.
O envelhecimento passa a ser o novo foco do cuidado
O estudo apresentado no AIDS 2026 reforça uma mudança importante na forma como entendemos o cuidado das pessoas vivendo com HIV.
Durante muitos anos, a principal pergunta era:
“A carga viral está indetectável?”
Hoje ela continua sendo fundamental.
Mas talvez seja necessário acrescentar outras perguntas.
Essa pessoa consegue caminhar sem dificuldade?
Ela mantém força suficiente para realizar suas atividades diárias?
Seus músculos continuam saudáveis?
Essas respostas podem fazer tanta diferença para a qualidade de vida quanto os próprios exames laboratoriais.
Mais do que viver mais, viver melhor
O grande mérito da terapia antirretroviral foi permitir que milhões de pessoas vivendo com HIV chegassem ao envelhecimento.
Agora, o próximo desafio é garantir que esses anos sejam vividos com autonomia, movimento e qualidade de vida.
O estudo apresentado no AIDS 2026 deixa uma mensagem importante:
O futuro do envelhecimento com HIV pode depender não apenas de quanto músculo existe no corpo, mas da qualidade desse músculo.
E isso reforça uma ideia que vale para todos: envelhecer bem não significa apenas adicionar anos à vida, mas preservar a capacidade de viver esses anos com independência, saúde física e bem-estar.
Referências
- Dos Santos A, et al. Do Muscle Quantity and Muscle Quality Differ in Their Associations with Strength and Physical Performance in Ageing People with HIV? AIDS 2026.
- HEALTH Study (NCT04550676).
- Cruz-Jentoft AJ, et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis. Age and Ageing. 2019.
- Erlandson KM, et al. Estudos sobre envelhecimento, composição corporal, exercício físico e função muscular em pessoas vivendo com HIV.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Guidelines on Physical Activity and Sedentary Behaviour. 2020.
- American College of Sports Medicine (ACSM). Exercise Guidelines for Adults Living with HIV.

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