Você teve uma relação que considera de risco e, alguns dias depois, apareceu uma dor de garganta. Logo veio a febre. Depois, um cansaço diferente. Você pesquisa no Google e encontra uma lista de sintomas do HIV.
Pronto. A preocupação começa.
Mas existe um problema importante nessa tentativa de descobrir uma infecção pelo corpo: os sintomas iniciais do HIV são inespecíficos. Isso significa que podem ser semelhantes aos de diversas outras infecções e condições comuns.
Além disso, algumas pessoas podem passar pela fase inicial da infecção pelo HIV sem perceber sintomas importantes.
Por isso, nenhuma lista na internet, nem mesmo esta, consegue responder se uma pessoa tem HIV.
Quem responde essa pergunta é o teste.
O HIV realmente pode causar sintomas?
Sim.
Após a infecção pelo HIV, algumas pessoas desenvolvem um quadro conhecido como síndrome retroviral aguda, relacionado à intensa replicação do vírus nas primeiras semanas.
De acordo com fontes como o Ministério da Saúde dos Estados Unidos (NIH) e os Centers for Disease Control and Prevention (CDC), manifestações semelhantes às de uma síndrome gripal podem ocorrer aproximadamente entre 2 e 4 semanas após a infecção.
Mas atenção: isso não funciona como um relógio.
Os sintomas podem variar bastante entre as pessoas e algumas podem não perceber manifestação alguma nessa fase.
É justamente por isso que tentar calcular uma possível infecção com base no dia em que apareceu uma febre ou uma dor de garganta não é uma forma confiável de diagnóstico.
Os 15 sinais que mais fazem as pessoas pensarem em HIV
1. Febre
A febre pode ocorrer durante a fase aguda da infecção pelo HIV.
O problema é que ela também aparece em inúmeras outras situações, como gripe, COVID-19 e diversas infecções virais ou bacterianas.
Febre sozinha não indica HIV.
2. Dor de garganta
Dor ou irritação na garganta também pode aparecer durante uma infecção aguda pelo HIV.
Mas é um sintoma extremamente comum.
Mudanças de temperatura, alergias, refluxo e outras infecções podem causar manifestações semelhantes.
Por isso, sentir dor de garganta depois de uma relação não significa que houve transmissão do HIV.
3. Ínguas ou linfonodos aumentados
Os linfonodos fazem parte do sistema imunológico e podem aumentar quando o organismo está reagindo a uma infecção.
Eles podem aparecer principalmente no pescoço, axilas e virilha.
A infecção aguda pelo HIV pode provocar linfonodos aumentados, mas inúmeras outras infecções também podem fazer isso.
4. Cansaço intenso
Algumas pessoas relatam fadiga durante a infecção aguda pelo HIV.
Porém, cansaço é um dos sintomas mais inespecíficos que existem.
Poucas horas de sono, estresse, ansiedade, outras infecções, rotina intensa e diversos outros fatores podem causar fadiga.
5. Dor muscular
Dores musculares podem fazer parte do quadro semelhante a uma síndrome gripal observado em algumas pessoas durante a fase inicial da infecção.
Mas novamente temos um sintoma extremamente comum.
Atividade física, gripe, viroses e inúmeras outras situações também podem provocar dores pelo corpo.
6. Dor nas articulações
Algumas pessoas podem apresentar dores articulares durante a fase aguda.
Isso não significa, porém, que sentir dor no joelho, nos braços ou em outras articulações depois de uma relação seja evidência de HIV.
Sintomas precisam ser interpretados dentro de um contexto clínico e epidemiológico.
7. Dor de cabeça
Cefaleia pode ocorrer durante a infecção aguda pelo HIV.
Mas também pode aparecer por desidratação, estresse, privação de sono, enxaqueca, infecções comuns e diversas outras causas.
Sozinha, ela não permite qualquer conclusão sobre HIV.
8. Suor noturno
O suor noturno costuma assustar bastante quem pesquisa sintomas do HIV.
Ele pode aparecer associado ao HIV, mas também pode ocorrer por inúmeros outros motivos.
Inclusive temperatura elevada no quarto, medicamentos, alterações hormonais e outras infecções.
Ter suado durante a noite não é um teste de HIV.
9. Manchas ou erupções na pele
Algumas pessoas podem apresentar rash cutâneo, ou seja, alterações ou erupções na pele durante a infecção aguda.
Esse é outro sintoma que costuma gerar muita preocupação depois de uma possível exposição.
Mas alergias, dermatites, medicamentos, calor e diversas infecções também podem provocar alterações semelhantes.
Uma fotografia ou descrição de manchas na internet não substitui avaliação profissional e testagem.
10. Náusea
Náuseas podem ocorrer durante a síndrome retroviral aguda.
Porém, também podem surgir por alterações gastrointestinais, alimentação, ansiedade, medicamentos e inúmeras outras situações.
Por isso, sentir enjoo depois de uma possível exposição não permite determinar se houve transmissão.
11. Vômitos
Assim como a náusea, episódios de vômito podem aparecer em algumas infecções.
Mas não existe uma característica específica do vômito que permita relacioná-lo diretamente ao HIV.
12. Diarreia
Alterações gastrointestinais, incluindo diarreia, podem aparecer durante a infecção aguda pelo HIV.
Mas a diarreia é extremamente frequente na população e pode estar relacionada a alimentação, outras infecções, medicamentos e diversas condições.
Diarreia não diagnostica HIV.
13. Perda de apetite
Durante quadros infecciosos, algumas pessoas podem apresentar diminuição do apetite.
Isso também pode acontecer durante a fase inicial da infecção pelo HIV.
Mas não é uma manifestação específica.
14. Úlceras na boca
Algumas pessoas podem apresentar úlceras orais durante a síndrome retroviral aguda.
Entretanto, aftas e outras lesões na boca são extremamente comuns e podem estar relacionadas a diversos fatores.
Ter uma afta depois de uma relação não significa que a pessoa adquiriu HIV.
15. Mal-estar geral
Talvez esse seja o ponto que mais confunda.
A pessoa sente que está “ficando doente”.
Pode aparecer indisposição, fraqueza, dores pelo corpo e sensação semelhante a uma gripe.
Esse conjunto pode ocorrer durante a infecção aguda pelo HIV.
Mas também é exatamente o tipo de manifestação produzido por diversas outras infecções.
Por isso, mesmo vários desses sintomas acontecendo ao mesmo tempo não confirmam HIV.
“Mas eu tive vários desses sintomas juntos. Então a chance é maior?”
Não necessariamente.
Esse é um erro comum ao pesquisar sintomas na internet.
A pessoa pensa:
“Tenho febre, dor de garganta, cansaço e uma íngua. Quatro sintomas de HIV. Então devo ter HIV.”
Não funciona dessa maneira.
Essas manifestações não são exclusivas do HIV.
Para avaliar a possibilidade de transmissão, é muito mais importante compreender qual foi a exposição do que contar quantos sintomas apareceram posteriormente.
Existem pessoas que adquirem HIV e não sentem nada?
Sim.
Uma pessoa pode passar pela fase inicial da infecção sem perceber manifestações importantes ou pode apresentar sintomas tão leves que são confundidos com uma indisposição comum.
Depois da fase aguda, o HIV pode permanecer por um período prolongado sem produzir manifestações perceptíveis.
É justamente por isso que não apresentar sintomas também não exclui HIV.
A lógica vale para os dois lados:
Ter sintomas não confirma HIV.
Não ter sintomas não descarta HIV.
Então como saber se tenho HIV?
Com testagem.
Existem diferentes tipos de testes para detectar a infecção pelo HIV, incluindo testes laboratoriais, testes rápidos e autotestes.
Cada tecnologia possui características e períodos de detecção diferentes.
Por isso existe o conceito de janela imunológica, que corresponde ao intervalo entre a infecção e o momento em que determinado teste consegue identificar marcadores da infecção de maneira confiável.
O Ministério da Saúde orienta a testagem de acordo com o tipo de exposição, o teste utilizado e o período transcorrido.
Quando existe uma exposição recente, um profissional de saúde pode orientar quando testar e se será necessária repetição do exame.
Tive uma possível exposição há poucas horas. Devo esperar os sintomas?
Não.
Essa talvez seja uma das informações mais importantes desta matéria.
Se ocorreu uma possível exposição ao HIV, existe uma estratégia de prevenção chamada PEP, Profilaxia Pós-Exposição.
A PEP utiliza medicamentos antirretrovirais para reduzir o risco de infecção após uma exposição.
Ela deve ser iniciada o mais rápido possível e, no máximo, em até 72 horas após a exposição.
O tratamento dura 28 dias.
Portanto, não espere aparecer febre, manchas, ínguas ou qualquer outro sintoma para procurar atendimento.
Se houve uma exposição potencial, procure um serviço de saúde para avaliar a indicação da PEP.
E se a pessoa com HIV estiver indetectável?
Aqui existe outra informação fundamental.
Uma pessoa vivendo com HIV que está em tratamento e mantém a carga viral indetectável não transmite o HIV por via sexual.
É o princípio conhecido internacionalmente como:
I = I
Indetectável = Intransmissível.
No Brasil, o Ministério da Saúde também reconhece essa evidência científica.
Portanto, uma relação sexual com uma pessoa vivendo com HIV que mantém a carga viral indetectável não deve ser interpretada automaticamente como uma exposição de risco ao HIV.
Ansiedade também pode fazer você perceber sintomas
Existe ainda um fenômeno muito comum depois de uma situação considerada de risco.
A pessoa começa a observar o próprio corpo constantemente.
Uma pequena dor que normalmente seria ignorada passa a chamar atenção.
Uma afta vira motivo de preocupação.
Uma noite de suor parece uma confirmação.
Uma dor de garganta gera horas de pesquisa.
Isso não significa que os sintomas sejam imaginários.
Eles podem ser reais.
O problema é tentar determinar a causa desses sintomas exclusivamente pela preocupação com o HIV.
Quanto mais a pessoa procura, mais sintomas encontra. E quanto mais sintomas encontra, maior pode ficar a ansiedade.
O caminho para interromper esse ciclo não é continuar comparando o corpo com listas da internet.
É fazer a testagem adequada.
Pare de tentar diagnosticar HIV pelos sintomas
Se você chegou até aqui procurando saber se uma febre, uma mancha, uma íngua ou uma dor de garganta significa HIV, guarde uma informação:
o corpo não consegue responder essa pergunta sozinho.
Os sintomas da infecção aguda pelo HIV podem se parecer com os de diversas outras infecções.
Algumas pessoas apresentam sintomas.
Outras não apresentam.
Algumas apresentam apenas manifestações leves.
Por isso, a medicina não diagnostica HIV contando sintomas.
Diagnostica com testes.
Se a exposição aconteceu há menos de 72 horas, procure atendimento imediatamente para avaliar PEP.
Se já passou desse período, procure orientação sobre o momento adequado para realizar a testagem.
E se o resultado for positivo, também existe algo importante que precisa ser dito: atualmente, o HIV possui tratamento altamente eficaz. Com diagnóstico, acompanhamento e tratamento adequados, pessoas vivendo com HIV podem ter qualidade e expectativa de vida próximas às da população geral.
Além disso, ao atingir e manter a carga viral indetectável, não há transmissão sexual do HIV.
Informação não substitui o teste.
Mas informação de qualidade pode ajudar você a saber qual é o próximo passo.
Referências teóricas e científicas
BRASIL. Ministério da Saúde. HIV/Aids. Portal do Ministério da Saúde. Informações sobre HIV, aids, diagnóstico, prevenção e tratamento.
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/aids-hiv
BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pós-Exposição (PEP) de risco à infecção pelo HIV, IST e hepatites virais. Brasília: Ministério da Saúde.
BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos. Brasília: Ministério da Saúde.
BRASIL. Ministério da Saúde. Tratamento como prevenção e Indetectável = Intransmissível (I=I). Informações oficiais sobre carga viral indetectável e prevenção da transmissão sexual do HIV.
Centers for Disease Control and Prevention (CDC). About HIV. Informações sobre fases da infecção, manifestações iniciais, transmissão, diagnóstico e tratamento.
https://www.cdc.gov/hiv/about/
Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Getting Tested for HIV. Informações sobre tipos de testes, período de janela e diagnóstico.
https://www.cdc.gov/hiv/testing/
National Institutes of Health (NIH). The Stages of HIV Infection. HIVinfo. Informações sobre infecção aguda, fase crônica e evolução da infecção pelo HIV.
https://hivinfo.nih.gov/understanding-hiv/fact-sheets/stages-hiv-infection
World Health Organization (WHO). HIV and AIDS. Fact Sheet. Informações epidemiológicas, prevenção, diagnóstico e tratamento do HIV.
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/hiv-aids
SAX, P. E. et al. Acute and early HIV infection: Clinical manifestations and diagnosis. UpToDate. Revisão sobre apresentação clínica e diagnóstico da infecção aguda pelo HIV.
COHEN, M. S. et al. Antiretroviral Therapy for the Prevention of HIV-1 Transmission. New England Journal of Medicine, 2016; 375:830-839. HPTN 052.
RODGER, A. J. et al. Risk of HIV transmission through condomless sex in serodifferent gay couples with suppressive ART (PARTNER2). The Lancet, 2019; 393:2428-2438.

Você precisa estar logado para comentar.
Entrar para comentar