Dados da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia mostram que homens representam quase três em cada quatro diagnósticos registrados entre janeiro de 2023 e agosto de 2025. O cenário expõe desafios na prevenção, testagem, acesso à PrEP e combate ao estigma.
Os homens estão no centro de um dado que chama atenção na epidemia de HIV na Bahia.
Entre janeiro de 2023 e 2 de agosto de 2025, foram registrados 11.187 diagnósticos de HIV e aids no estado.
Desse total, 8.005 — aproximadamente 72% — ocorreram entre pessoas do gênero masculino. Outros 3.164 (28%) foram registrados no gênero feminino e 18 tiveram gênero ignorado.
Na prática, isso significa que, a cada quatro diagnósticos registrados no período, aproximadamente três ocorreram entre homens.
Mas por quê?
A resposta é mais complexa do que comportamento sexual ou uso de preservativo. Os números expõem uma combinação de vulnerabilidades, desigualdades no acesso à prevenção, características da epidemia, estigma e dificuldades históricas para aproximar determinados grupos masculinos dos serviços de saúde.
Não é uma mudança que aconteceu agora
Os dados mais recentes seguem uma tendência observada há vários anos na Bahia.
Entre 2014 e 2023, o estado registrou 24.835 casos de HIV e 11.774 casos de aids.
Quando analisados os casos de HIV/aids por sexo biológico durante esse período, 69% ocorreram entre homens e 31% entre mulheres.
Mais importante: em dez anos, a SESAB identificou crescimento de 65% na detecção entre pessoas do sexo masculino, enquanto entre mulheres o crescimento foi de aproximadamente 10%.
Portanto, a concentração dos diagnósticos entre homens não é um fenômeno pontual.
Ela vem sendo construída ao longo dos anos.
O cenário da Bahia acompanha uma tendência nacional
A maior participação masculina nos diagnósticos também aparece quando observamos o Brasil.
Em 2023, 70,7% dos casos de infecção pelo HIV notificados no país ocorreram entre pessoas do sexo masculino.
Entre os casos registrados naquele ano, 53,6% estavam entre homens que fazem sexo com homens (HSH).
Dados nacionais mais recentes continuam mostrando uma concentração crescente da epidemia entre homens.
Em 2024, o Brasil chegou a uma razão de aproximadamente 28 homens vivendo com HIV ou aids para cada dez mulheres.
Isso demonstra que entender a epidemia entre homens é uma questão fundamental para a resposta brasileira ao HIV.
Homens gays, bissexuais e HSH continuam particularmente vulneráveis
Dentro da categoria “homens” existem populações diferentes e com vulnerabilidades distintas.
Homens gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens continuam sendo uma população desproporcionalmente afetada pelo HIV.
Mas é importante deixar algo muito claro:
ser gay ou bissexual não causa HIV.
A maior vulnerabilidade está relacionada a uma combinação de fatores epidemiológicos, sociais e estruturais.
Quando a prevalência do HIV é maior dentro de determinada rede sexual, por exemplo, a probabilidade estatística de exposição também pode ser maior.
Somam-se a isso fatores como estigma, discriminação, dificuldades de acesso aos serviços de saúde, conhecimento insuficiente sobre prevenção e barreiras para utilização contínua das tecnologias disponíveis.
E homens heterossexuais não podem ser esquecidos.
A ideia equivocada de que HIV seria uma questão restrita à população LGBT+ também pode fazer com que homens heterossexuais não percebam sua própria vulnerabilidade e não busquem testagem ou prevenção.
O primeiro déficit: prevenção ainda não chega a todos
Nunca tivemos tantas ferramentas disponíveis para prevenir o HIV.
Hoje existem preservativos, PrEP, PEP, testagem regular, autoteste e tratamento como prevenção.
A PrEP permite que uma pessoa HIV negativa utilize medicamentos para reduzir drasticamente a possibilidade de adquirir HIV.
A PEP pode ser utilizada depois de uma possível exposição e deve ser iniciada o mais rapidamente possível, no máximo em 72 horas.
Mesmo assim, disponibilizar uma tecnologia não significa automaticamente que todas as pessoas que poderiam se beneficiar dela conseguem acessá-la.
O próprio Ministério da Saúde reconhece entre os desafios da PrEP e PEP a necessidade de ampliar o acesso, melhorar a adesão e reduzir desigualdades no acesso às profilaxias.
Portanto, uma das perguntas que os números da Bahia levantam é:
a prevenção está chegando aos homens que mais precisam dela?
O segundo déficit: homens ainda procuram menos os serviços de saúde
Existe também uma questão cultural importante.
Historicamente, políticas e serviços de saúde encontram dificuldades para manter parte da população masculina vinculada aos cuidados preventivos.
Muitos homens chegam ao serviço quando existe um problema concreto, mas prevenção exige exatamente o contrário: procurar assistência antes que alguma coisa aconteça.
No HIV isso significa conversar sobre sexualidade, avaliar vulnerabilidades, fazer testes regularmente, conhecer PrEP e PEP e procurar rapidamente um serviço depois de uma possível exposição.
Por isso, esperar que todos os homens espontaneamente procurem uma unidade de saúde pode não ser suficiente.
A prevenção também precisa ir até onde essas pessoas estão.
O terceiro déficit: informação não significa necessariamente conhecimento
HIV é um assunto conhecido pela população brasileira há mais de quatro décadas.
Mas conhecer a palavra HIV é muito diferente de compreender como a prevenção funciona atualmente.
Muitas pessoas ainda associam prevenção exclusivamente ao preservativo.
Outras desconhecem a PrEP.
Não sabem quando procurar PEP.
Não fazem testagem regularmente.
E muitas ainda desconhecem uma das informações mais importantes da resposta contemporânea ao HIV:
Indetectável = Intransmissível (I=I).
Uma pessoa vivendo com HIV que realiza o tratamento e mantém carga viral indetectável não transmite HIV por via sexual.
Essa informação transforma não apenas a prevenção, mas também a maneira como enxergamos as pessoas vivendo com HIV.
O quarto déficit: o estigma ainda afasta pessoas
Fazer um teste de HIV ainda pode despertar medo.
Não apenas medo do resultado, mas medo do julgamento.
“E se alguém me vir entrando nesse serviço?”
“E se der positivo?”
“O que vão pensar de mim?”
“Vou conseguir me relacionar novamente?”
Décadas depois do início da epidemia, o estigma continua funcionando como uma barreira.
E quanto maior o medo relacionado ao diagnóstico, maior pode ser a resistência para realizar o teste.
Combater o HIV também significa tornar a testagem algo normal dentro do cuidado com a saúde sexual.
Jovens adultos também merecem atenção
Existe outro dado importante no levantamento da Bahia.
Dos 11.187 diagnósticos registrados entre janeiro de 2023 e agosto de 2025, 5.212 ocorreram entre pessoas de 20 a 34 anos.
Isso representa aproximadamente 47% de todos os registros do período.
Outros 3.664 ocorreram entre pessoas de 35 a 49 anos.
Portanto, a maior concentração não está entre adolescentes, como chegou a circular falsamente nas redes sociais em 2025.
Ela está principalmente entre adultos jovens.
Esse perfil reforça a necessidade de estratégias de prevenção capazes de dialogar com sexualidade, aplicativos de relacionamento, diferentes formas de relacionamento e novas maneiras de estabelecer vínculos sexuais e afetivos.
Mais diagnósticos não significam automaticamente mais novas infecções
Existe um cuidado fundamental ao interpretar esses números.
Um diagnóstico registrado hoje não significa necessariamente que a pessoa adquiriu HIV hoje.
Uma pessoa pode viver durante anos com HIV sem saber.
Quando ampliamos a testagem, podemos encontrar infecções que anteriormente não haviam sido diagnosticadas.
Na Bahia, a própria SESAB destaca que fatores como a descentralização dos testes rápidos para a Atenção Básica, a obrigatoriedade da notificação dos casos confirmados de HIV e a ampliação do tratamento podem ter influenciado o crescimento observado nos registros.
Por isso, não é correto transformar o aumento de diagnósticos automaticamente em uma “explosão de novas infecções”.
Existe também uma notícia positiva
Enquanto a taxa de detecção de HIV aumentou na Bahia, a taxa de aids apresentou comportamento diferente.
Em 2014, a taxa de detecção de HIV era de 10,5 por 100 mil habitantes.
Em 2023, chegou a 22,2 por 100 mil.
Já a taxa de detecção de aids passou de 9,1 para 8,4 por 100 mil habitantes no mesmo período.
Essa diferença ajuda a mostrar por que HIV e aids nunca devem ser tratados como sinônimos.
HIV é o vírus.
A aids é uma manifestação avançada da infecção que pode ocorrer principalmente quando não há diagnóstico e tratamento adequados.
Atualmente, uma pessoa diagnosticada precocemente e que realiza corretamente o tratamento pode viver por décadas sem desenvolver aids.
Diagnosticar é importante. Manter no cuidado é fundamental.
Não adianta apenas encontrar a pessoa.
Depois do diagnóstico existe outro desafio: garantir que ela permaneça vinculada ao cuidado.
Isso envolve acesso ao tratamento antirretroviral, acompanhamento médico, realização de exames, adesão ao tratamento, saúde mental e enfrentamento do estigma.
O tratamento do HIV está disponível gratuitamente pelo SUS.
Quando a pessoa mantém sua carga viral indetectável, além de proteger sua própria saúde, ela deixa de transmitir HIV sexualmente.
Portanto, tratamento também é prevenção.
O que a Bahia precisa fazer?
Os 72% não deveriam ser utilizados para responsabilizar homens pela epidemia.
Eles deveriam servir para orientar políticas públicas.
Se quase três em cada quatro diagnósticos registrados recentemente ocorreram entre homens, precisamos entender onde esses homens estão e quais barreiras ainda os separam da prevenção.
Isso passa por ampliar o acesso à PrEP, facilitar a testagem, divulgar a PEP, normalizar o autoteste, aproximar a prevenção dos espaços frequentados por jovens adultos e combater o preconceito contra pessoas vivendo com HIV.
Também exige estratégias específicas para gays, bissexuais e HSH sem abandonar homens heterossexuais e outras populações que podem não se perceber vulneráveis.
O problema não é ser homem. É a prevenção não chegar a todos.
O dado de 72% impressiona.
Mas ele não deveria produzir medo.
Deveria produzir perguntas.
Por que tantos homens continuam sendo diagnosticados?
Quem ainda não conhece a PrEP?
Quem nunca realizou um teste de HIV?
Quem não sabe onde conseguir PEP?
Quem ainda acredita que uma pessoa indetectável transmite HIV?
E quem deixa de procurar um serviço por medo de preconceito?
A Bahia possui ferramentas capazes de prevenir novas infecções, diagnosticar precocemente e oferecer tratamento gratuito.
Talvez o maior desafio agora seja fazer informação, prevenção, diagnóstico e acolhimento chegarem às pessoas antes do HIV.
Referências
SECRETARIA DA SAÚDE DO ESTADO DA BAHIA (SESAB). Boletim Epidemiológico de HIV/Aids na Bahia nº 01 — dezembro de 2024. Dados epidemiológicos de 2014 a 2023.
SECRETARIA DA SAÚDE DO ESTADO DA BAHIA (SESAB). Fake News: Sesab esclarece que não há surto de HIV/Aids entre jovens de 14 a 19 anos na Bahia. Governo do Estado da Bahia, 25 ago. 2025.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Brasília, 2025.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Monitoramento das profilaxias pré e pós-exposição de risco ao HIV — Sumário Executivo. Brasília, 2025.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Painel de Monitoramento da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP). Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis.

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