Nesses últimos dias, eu vivi.

Mas, na verdade, essa história começou lá em dezembro.

Quando o Posithividades recebeu o patrocínio da HBO, ficou claro para mim que cada recurso que entra precisa virar impacto real. E foi isso que aconteceu.

Esse investimento ajudou a viabilizar os encontros presenciais deste ano. Passamos por Belém, São Paulo, Belo Horizonte, Goiânia e Salvador. E ainda temos outros encontros pela frente: Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e, pela primeira vez, Paraná.

Mas os encontros presenciais pelo Brasil são apenas uma parte dessa história.

Em São Paulo, temos também os piqueniques mensais, criando uma oportunidade para que as pessoas se encontrem com frequência, fortaleçam amizades e construam uma rede que não termina depois de um único evento.

E existem os encontros online do Catavento. Já foram mais de 100 encontros realizados. Durante muito tempo, uma tela foi a única maneira de aproximar pessoas que estavam a centenas ou milhares de quilômetros umas das outras. E continua sendo uma ferramenta fundamental para chegar a quem não consegue estar presencialmente conosco.

Isso não é só sobre realizar eventos.

É sobre fazer pessoas que se conheceram através de uma tela finalmente se encontrarem. É sobre criar vínculos, construir redes, trocar experiências e, principalmente, fazer alguém perceber que não está sozinho.

Salvador fez parte disso.

Essa viagem foi planejada ainda em dezembro e acabou se transformando em algo muito maior do que eu imaginava. Além do nosso encontro presencial do Catavento na Bahia, consegui participar de dois eventos relacionados ao HIV e conciliar tudo isso com o XX Congresso Brasileiro de Sexologia.

Foram dias de muito conhecimento, troca, conexões, trabalho e aprendizado.

Mas nem tudo foi leve.

Teve também um transtorno enorme com o hotel. Reserva cancelada, gastos extras, problemas nos quartos, trocas, estresse e um prejuízo que eu definitivamente não esperava ter em uma viagem planejada com tanta antecedência.

Foi pesado.

Mas eu decidi que aquilo não definiria a minha experiência em Salvador.

Porque, no meio de tudo isso, teve vida.

Teve gente. Teve abraço. Teve congresso. Teve ativismo. Teve trabalho. Teve encontros. Teve música. Teve Anitta. Teve Salvador. E teve eu, sozinho, me permitindo viver uma das experiências mais incríveis que já tive.

E talvez essa viagem também represente muito do que estou tentando construir com o Posithividades.

Um ecossistema que seja cada vez mais autossustentável.

A comunidade ajuda a manter projetos. Os projetos possibilitam novos encontros. As parcerias e os patrocínios são revertidos em ações. E o recurso que entra volta para as pessoas de alguma maneira.

É um ciclo.

O recurso chega, vira projeto, vira encontro, vira acolhimento e pode mudar histórias.

E hoje o Posithividades já não cabe em uma única definição.

Temos a comunidade, que conecta pessoas de diferentes lugares do Brasil. Temos os encontros online, que derrubam as barreiras da distância. Temos os piqueniques mensais em São Paulo, que fazem a convivência acontecer de maneira contínua. Temos os encontros presenciais pelo Brasil, que transformam conexões virtuais em abraços reais.

Temos também o site do Posithividades, que se tornou uma ferramenta de informação e educação. Um espaço para falar sobre HIV, saúde mental, sexualidade, prevenção, direitos e qualidade de vida de uma maneira que as pessoas consigam compreender e levar para suas próprias vidas.

Porque acolhimento também passa pela informação.

Às vezes, alguém não chega até nós por um encontro ou por um grupo. Chega através de uma pesquisa na internet, encontra uma matéria, tira uma dúvida e percebe que existe vida para além do diagnóstico.

E agora estamos levando essa construção para novos lugares.

Estamos construindo o aplicativo Posithividades, ampliando as possibilidades de relacionamento, informação e conexão entre pessoas vivendo com HIV.

Em outubro, teremos também o Posithividades Meeting, criando um espaço em que pessoas vivendo e não vivendo com HIV possam estar juntas, falar sobre saúde, sexualidade e prevenção, mas também simplesmente se divertir, dançar e viver.

E existem projetos que podem parecer pequenos quando vistos isoladamente, mas que dizem muito sobre aquilo em que acredito.

Como colocar uma mulher trans ensinando crochê, gerando renda com seu conhecimento, enquanto outras pessoas aprendem algo novo, trabalham a criatividade, cuidam da saúde mental e constroem vínculos.

Isso também é empreendedorismo.

Isso também é inclusão.

Isso também é saúde.

Quando olho para tudo isso junto — site, comunidade, encontros online, piqueniques, encontros presenciais, aplicativo, Meeting e os novos projetos que continuam surgindo — percebo que nada disso existe isoladamente.

Tudo se conecta.

Empreendedorismo, sustentabilidade, saúde mental, HIV, sexualidade, geração de renda, acolhimento, informação, encontros e qualidade de vida.

E talvez Salvador tenha me feito perceber essa conexão de uma maneira ainda mais forte.

Porque eu trabalho falando sobre saúde mental, acolhimento e qualidade de vida todos os dias. Mas qualidade de vida também significa se permitir viver.

Conhecer lugares. Encontrar pessoas. Dançar. Viajar. Aprender. Se frustrar. Resolver problemas. Criar memórias. Trabalhar por aquilo em que acredita e, ao mesmo tempo, lembrar que existe uma vida acontecendo enquanto fazemos tudo isso.

Essa viagem foi pensada em dezembro.

Meses depois, olhando para tudo o que ela entregou, percebo que foi muito além do que estava no planejamento.

Volto com histórias, ideias, contatos, projetos e ainda mais vontade de construir.

Mas volto, principalmente, com uma certeza:

eu não quero apenas falar sobre viver. Eu quero viver.

E, nesses últimos dias, eu não apenas trabalhei.

Eu vivi.

E vivi muito.