Quando o HIV vira uma arma dentro de um relacionamento

“Ninguém mais vai te aceitar.” “Quem vai querer ficar com alguém que vive com HIV?” “Se você me deixar, eu conto para todo mundo.” Frases assim podem transformar o estigma relacionado ao HIV em uma ferramenta de controle dentro de relacionamentos abusivos. E isso pode acontecer com mulheres, homens gays e outras pessoas vivendo com HIV.

Existem violências que deixam marcas no corpo. Outras vão deixando marcas na maneira como uma pessoa passa a enxergar a si mesma.

Quando alguém escuta repetidamente que ninguém mais vai amá-la porque vive com HIV, pode começar a acreditar nisso.

O medo da rejeição, de contar para a família, de perder a casa, de começar um novo relacionamento ou simplesmente de ficar sozinho pode se transformar em uma prisão.

E quem está do outro lado pode perceber exatamente onde está esse medo e utilizá-lo para controlar.

HIV e violência dentro dos relacionamentos

A relação entre HIV e violência por parceiro íntimo é estudada há anos.

Uma revisão sistemática e meta-análise que reuniu 49 estudos, envolvendo mais de 42 mil pessoas vivendo com HIV, estimou que aproximadamente 39% haviam vivenciado alguma forma de violência por parceiro íntimo ao longo da vida.

Os pesquisadores encontraram violência psicológica ou emocional, física e sexual.

Isso não significa que viver com HIV provoque violência.

O que os estudos mostram é uma relação complexa entre violência, desigualdade, vulnerabilidade social, estigma e HIV.

Em alguns casos, a violência já existia antes da infecção pelo HIV. Em outros, o diagnóstico passa a ser utilizado dentro de uma relação que já apresentava controle, agressividade ou dependência.

Entre mulheres vivendo com HIV

Entre mulheres, essa relação aparece de maneira particularmente importante.

Pesquisas brasileiras já encontraram altas prevalências de diferentes formas de violência ao longo da vida entre mulheres vivendo com HIV.

Um estudo realizado no Sul do Brasil encontrou relatos de violência psicológica em 72,7%, violência física em 54,6% e violência sexual em 25,4% das participantes.

Esses números precisam ser interpretados corretamente: o estudo avaliou violências sofridas ao longo da vida e não exclusivamente aquelas cometidas por parceiros.

Outra pesquisa envolvendo mais de 3 mil mulheres atendidas em São Paulo e Porto Alegre encontrou maior ocorrência de violência física e sexual ao longo da vida entre mulheres vivendo com HIV, quando comparadas às mulheres sem HIV incluídas na pesquisa.

Isso não significa que todas as mulheres vivendo com HIV estejam mais vulneráveis da mesma maneira.

Mas significa que profissionais de saúde, familiares, amigos e redes de acolhimento precisam estar atentos a essa interseção.

A violência também pode aumentar a vulnerabilidade ao HIV

Essa relação pode acontecer nos dois sentidos.

Uma grande revisão envolvendo mais de 331 mil mulheres de 16 países encontrou associação entre violência por parceiro íntimo e maior risco de infecção pelo HIV.

Isso pode acontecer porque uma pessoa submetida à violência pode ter menos autonomia para negociar preservativo, recusar relações, conversar sobre testagem ou prevenção e tomar decisões sobre a própria saúde sexual.

Por isso, quando falamos de prevenção ao HIV, não podemos falar apenas de preservativo, PrEP, PEP ou testagem.

Também precisamos falar de autonomia.

E isso não acontece somente com mulheres

Homens gays também podem viver violência dentro de seus relacionamentos.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no American Journal of Public Health, reunindo estudos com homens que se relacionam com homens, encontrou prevalências relevantes de violência por parceiro íntimo, incluindo violência física, sexual e psicológica.

Outras pesquisas também apontam uma relação entre violência por parceiro íntimo, vulnerabilidades relacionadas ao HIV e dificuldades de prevenção entre homens gays e outros HSH.

Existe ainda uma característica que merece atenção dentro das relações LGBTQIA+: preconceitos existentes na sociedade podem ser utilizados pelo próprio parceiro como instrumento de controle.

Ameaçar expor a orientação sexual de alguém para a família, por exemplo, já é uma forma conhecida de violência.

Com uma pessoa vivendo com HIV, pode existir outra ameaça:

“Se você terminar comigo, eu conto que você vive com HIV.”

É uma forma de atingir justamente aquilo que a pessoa talvez tenha levado anos para conseguir falar.

Quando o estigma vira ferramenta de controle

O estigma relacionado ao HIV não existe apenas fora dos relacionamentos.

Ele pode entrar dentro deles.

Pode aparecer quando alguém diz:

“Só eu aceito você assim.”

“Ninguém vai querer você.”

“Você deveria agradecer porque eu fiquei com você.”

“Se você terminar comigo, todo mundo vai saber.”

Essas frases não precisam vir acompanhadas de uma agressão física para causar sofrimento.

Quando utilizadas para humilhar, intimidar, isolar ou impedir alguém de tomar decisões sobre a própria vida, podem fazer parte de uma dinâmica de violência psicológica.

No caso das mulheres, a própria Lei Maria da Penha reconhece ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento e chantagem entre as formas que podem caracterizar violência psicológica.

O medo de contar para a família

Para algumas pessoas vivendo com HIV, sair de um relacionamento abusivo significa enfrentar outro medo:

“Para onde eu vou?”

Talvez a família não saiba sobre o HIV.

Talvez aquela pessoa tenha passado anos escondendo seu diagnóstico.

Talvez voltar para a casa dos pais pareça significar contar tudo.

Mas uma coisa não precisa acontecer junto com a outra.

Uma pessoa pode pedir ajuda sem revelar que vive com HIV.

Pode simplesmente dizer:

“Meu relacionamento não está bem.”

“Estou com medo.”

“Preciso ficar alguns dias com vocês.”

“Preciso de ajuda para sair daqui.”

O diagnóstico pertence à própria pessoa.

Ela pode escolher quando, como e para quem deseja falar sobre ele.

“Se você me deixar, eu vou me matar”

Existe outra situação extremamente delicada dentro de algumas relações abusivas.

Quando alguém tenta terminar e escuta:

“Se você for embora, eu vou me matar.”

Toda manifestação de intenção suicida precisa ser levada a sério.

Mas levar a sério não significa permanecer obrigatoriamente naquele relacionamento.

É possível avisar familiares, amigos, serviços de saúde ou emergência para que aquela pessoa receba ajuda.

Quando a ameaça de suicídio é utilizada repetidamente para impedir que alguém termine uma relação, ela também pode funcionar como instrumento de chantagem emocional e controle.

Uma pessoa pode se preocupar com a vida do parceiro.

Mas não pode ser transformada na única responsável por mantê-lo vivo.

“Mas por que não termina?”

Porque sair de uma relação abusiva pode ser muito mais difícil do que parece para quem está olhando de fora.

Pode existir dependência financeira.

Filhos.

Medo.

Moradia compartilhada.

Isolamento.

Dependência emocional.

Ameaças.

Vergonha.

Ausência de rede de apoio.

E, para algumas pessoas vivendo com HIV, existe ainda o medo da exposição do diagnóstico e da rejeição.

Por isso, talvez a pergunta não devesse ser:

“Por que você ainda não foi embora?”

Talvez devesse ser:

“O que você precisa para conseguir sair com segurança?”

HIV não significa aceitar qualquer relacionamento

Existe uma mentira que o estigma repetiu durante décadas:

que pessoas vivendo com HIV deveriam agradecer quando alguém decide se relacionar com elas.

Não.

Ninguém está fazendo um favor ao amar uma pessoa vivendo com HIV.

Uma pessoa não precisa permanecer em uma relação abusiva porque acredita que será difícil encontrar outra pessoa.

Hoje sabemos que pessoas vivendo com HIV e em tratamento podem ter qualidade de vida, relacionamentos, projetos, relações, filhos e envelhecer.

E pessoas que mantêm carga viral indetectável não transmitem HIV por relações sexuais: Indetectável = Intransmissível (I=I).

O HIV é uma infecção.

Não é uma definição de quem alguém é.

E muito menos uma autorização para outra pessoa controlar sua vida.

Violência psicológica também precisa ser denunciada

Nem toda violência começa com agressão física.

Humilhar é violência.

Ameaçar pode ser violência.

Chantagear pode ser violência.

Isolar pode ser violência.

Controlar pode ser violência.

E usar o HIV para provocar medo, humilhação ou impedir alguém de sair de um relacionamento também precisa ser levado a sério.

Se você está vivendo algo parecido, procure uma pessoa em quem confia.

Converse com sua equipe de saúde.

Procure acompanhamento psicológico.

Construa uma rede de apoio.

E, diante de uma situação de violência, denuncie.

Mulheres podem procurar o Ligue 180, serviço gratuito que funciona 24 horas por dia e oferece orientação sobre direitos e serviços especializados de atendimento à mulher.

Em situações de emergência ou risco imediato, acione a Polícia Militar pelo 190.

Delegacias da Mulher, Defensoria Pública, Ministério Público, serviços de assistência social e serviços de saúde também podem fazer parte dessa rede de proteção.

Para homens gays e outras pessoas LGBTQIA+ que estejam sofrendo violência, também é possível procurar os serviços de segurança pública, saúde e assistência social da sua cidade. Violência dentro de uma relação LGBTQIA+ continua sendo violência.

Pedir ajuda não significa que você precisa resolver toda a sua vida naquele mesmo dia.

Às vezes, o primeiro movimento é simplesmente conseguir contar para alguém:

“Eu não estou bem e preciso de ajuda.”

Você não precisa permanecer porque vive com HIV

Ninguém deveria ouvir que precisa aceitar uma relação abusiva porque vive com HIV.

Ninguém deveria ter seu diagnóstico utilizado como ameaça.

Ninguém deveria ser convencido de que não encontrará outra pessoa.

E ninguém deveria permanecer em um relacionamento por medo de que seu diagnóstico seja revelado.

O HIV pode fazer parte da história de alguém.

Mas não pode ser utilizado por outra pessoa para controlar como o restante dessa história será vivido.

Se alguém usa o HIV para diminuir você, ameaçar você, controlar você ou convencer você de que não existe vida fora daquela relação, isso merece atenção.

Procure apoio.

Construa uma rede de proteção.

E, quando houver violência, denuncie.

Talvez uma pessoa vivendo uma relação abusiva não precise ouvir:

“Por que você não vai embora?”

Ela talvez precise ouvir:

“Eu acredito em você. Como posso ajudar você a ficar em segurança?”

Referências teóricas

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Consolidated guideline on sexual and reproductive health and rights of women living with HIV. Geneva: World Health Organization, 2017.

UNAIDS. Gender-based violence and HIV. Joint United Nations Programme on HIV/AIDS. Materiais técnicos sobre a relação entre desigualdade de gênero, violência, estigma e HIV.

FIOCRUZ / Literatura brasileira sobre violência e HIV. Estudos epidemiológicos realizados com mulheres vivendo com HIV no Brasil apontam elevada ocorrência de violência psicológica, física e sexual e destacam a necessidade de investigar violência dentro do cuidado integral às pessoas vivendo com HIV.

FINNERAN, C.; STEPHENSON, R. Intimate Partner Violence Among Men Who Have Sex With Men: A Systematic Review. Trauma, Violence & Abuse, 2013. Revisão sobre violência por parceiro íntimo entre homens que se relacionam com homens.

BULLER, A. M. et al. Literatura internacional sobre violência por parceiro íntimo, desigualdades de gênero e vulnerabilidade ao HIV. Estudos e revisões sistemáticas demonstram associação entre experiências de violência e HIV.

BRASIL. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 – Lei Maria da Penha. Dispõe sobre mecanismos de prevenção e enfrentamento da violência doméstica e familiar contra a mulher.

BRASIL. Lei nº 14.289, de 3 de janeiro de 2022. Torna obrigatória a preservação do sigilo sobre a condição de pessoas vivendo com HIV, hepatites crônicas, hanseníase e tuberculose nos casos estabelecidos pela legislação.

MINISTÉRIO DAS MULHERES. Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180. Serviço nacional de orientação, acolhimento, registro de denúncias e encaminhamento de mulheres em situação de violência.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. HIV/Aids – Tratamento como prevenção e Indetectável = Intransmissível (I=I). Informações técnicas sobre tratamento do HIV e ausência de transmissão sexual quando a pessoa mantém carga viral indetectável.