Sim, se estivermos brincando com a origem da palavra e usando “promíscuo” para falar da mistura que forma o Brasil, sem um julgamento moral.
Somos um país marcado pelo encontro de povos, culturas, línguas e tradições. Essa mistura aparece na comida, na música e nas histórias de tantas famílias.
Mas basta chamar alguém de “promíscuo” para a conversa mudar. Quase ninguém entende isso como uma referência à diversidade. A palavra costuma soar como uma acusação sobre sexo, falta de limites e caráter.
Como uma palavra ligada à mistura passou a carregar uma condenação? E por que essa condenação aparece tão facilmente quando alguém revela que vive com HIV?
A pergunta do título é uma provocação, não uma classificação de cada brasileiro. Para compreender seu sentido, precisamos olhar para a história da palavra e para as regras que as sociedades criaram sobre a intimidade.
A origem é latina: misturado, em comum, sem distinção
“Promíscuo” vem do latim promiscuus, associado ao que está misturado, em comum ou sem distinção. Sua formação está ligada ao verbo miscere, que significa misturar.
A palavra tinha usos mais amplos do que o comportamento sexual. Também podia aparecer em referências a uniões entre grupos sociais, como patrícios e plebeus. Portanto, não seria correto dizer que nunca teve relação com sexualidade, nem que nasceu como a ofensa que conhecemos hoje.
Na história do inglês, promiscuous aparece por volta de 1600 descrevendo misturas sem ordem ou distinção. O sentido específico relacionado a diferentes parceiros sexuais está documentado no século XIX, incluindo um registro de 1857. Essas datas pertencem à história do inglês, não estabelecem quando a mudança ocorreu no português.
Não houve um único dia em que a palavra deixou de ser descritiva e virou ofensiva. Os sentidos foram se acumulando. No português atual, dicionários ainda reúnem ideias de mistura, multiplicidade de parceiros e imoralidade.
O problema aparece quando “ter diferentes parceiros” passa a significar “ser uma pessoa inferior”.
Por que algumas misturas parecem ameaçadoras?
A antropóloga Mary Douglas, em Pureza e perigo, publicado originalmente em 1966, estudou como ideias de pureza, sujeira e desordem ajudam a organizar as sociedades.
Sua análise mostra que aquilo que chamamos de impuro não depende apenas de higiene. Também pode depender das fronteiras que um grupo estabelece sobre o que deve ficar junto ou separado.
Aplicando essa reflexão ao nosso tema, podemos perguntar: quando alguém chama uma relação de “suja”, está falando de saúde ou de uma regra social que considera desobedecida?
No Brasil, celebramos muitas misturas. Mas nossa formação também foi atravessada por escravidão, colonização e violência. Reconhecer a diversidade não significa imaginar que todos os encontros foram livres ou iguais.
A provocação do título serve para pensar nas fronteiras: quem pode se misturar com quem sem receber uma condenação?
A moral religiosa ajudou a definir o sexo aceitável
Em diferentes momentos da história ocidental, instituições religiosas estabeleceram regras sobre casamento, castidade e reprodução.
Uma pesquisa publicada na Revista de História, da USP, analisa como, em Portugal na Época Moderna, discursos religiosos e médicos participaram do controle da sexualidade. A valorização da castidade e a condenação de determinadas expressões do erotismo faziam parte desse cenário.
Isso não significa que todas as religiões ou todos os fiéis pensem da mesma maneira. Significa reconhecer a influência histórica dessas regras.
Quando uma sociedade considera apenas certas relações legítimas, quem vive de outra forma pode ser visto como alguém sem moral.
O julgamento deixa de perguntar se houve respeito e passa a perguntar se a pessoa seguiu o modelo esperado.
No século XIX, o julgamento também ganhou linguagem médica
A religião não foi a única a vigiar a intimidade.
No século XIX, setores da medicina e da psiquiatria passaram a classificar desejos e comportamentos sexuais como normais ou desviantes. Estudos históricos mostram que algumas dessas classificações estavam atravessadas por valores morais e teorias de degeneração. Comportamentos condenados socialmente podiam ser apresentados como sinais de doença ou perigo.
Em sua leitura de Michel Foucault, o antropólogo Sérgio Carrara explica como esse período fortaleceu uma organização da sexualidade centrada no casal heterossexual e reprodutivo, com participação da medicina e do Estado.
Assim, o controle da sexualidade não consistia apenas em mandar ficar em silêncio. Também envolvia examinar, perguntar, registrar e classificar.
Quem podia definir o que era normal também ganhava poder para apontar quem estava fora da norma.
Quem decidiu que poucos parceiros significam mais valor?
Em seu ensaio Pensando o sexo, de 1984, a antropóloga Gayle Rubin analisou como as sociedades criam uma hierarquia entre práticas sexuais.
Certas relações recebem reconhecimento e respeito. Outras são tratadas como inferiores. Na hierarquia que ela descreve, relações dentro do casamento e monogâmicas ocupam posições valorizadas, enquanto outras formas de viver a sexualidade recebem condenação.
Rubin propõe avaliar as relações pelo respeito entre as pessoas e pela ausência de coerção, em vez de condená-las apenas por sua forma.
A reflexão pode ser simples: duas pessoas adultas tiveram quantidades diferentes de parceiros. Só com essa informação, conseguimos saber qual delas é honesta, gentil ou respeitosa?
Não.
O número de parceiros não é um exame de caráter.
O HIV encontrou um julgamento que já existia
Quando a aids foi reconhecida no início dos anos 1980, esses julgamentos sobre sexualidade já estavam presentes.
Naquele período, circulou o termo GRID, abreviação de Gay-Related Immune Deficiency, ou “imunodeficiência relacionada aos gays”. O nome associava aos homens gays uma síndrome ainda em investigação. O reconhecimento de casos em outras populações mostrava que essa associação era inadequada. A denominação AIDS passou a ser utilizada em 1982.
O diagnóstico passou a encontrar preconceitos anteriores: contra a homossexualidade, contra diferentes formas de viver o sexo e contra grupos já marginalizados.
A escritora Susan Sontag, em seus trabalhos sobre a aids no final dos anos 1980, criticou a transformação da infecção e do adoecimento em símbolos de punição. Sua análise mostra como a ideia de castigo acrescentava culpa e vergonha ao sofrimento das pessoas.
A infecção era real. A conclusão de que alguém a merecia era um julgamento social.
O preconceito pode se apresentar como preocupação com a saúde
Sérgio Carrara observa que “promiscuidade” pode funcionar como uma ponte entre antigas condenações morais e discursos atuais sobre saúde. Mesmo quando a linguagem do pecado perde espaço, o julgamento pode continuar sob a ideia de descontrole ou irresponsabilidade.
Isso não significa que toda orientação de prevenção seja moralista. Prevenção é necessária.
A pergunta é outra: estamos explicando situações de exposição e possibilidades de cuidado ou usando a saúde como justificativa para condenar a pessoa?
Richard Parker e Peter Aggleton mostram que o estigma relacionado ao HIV reforça desigualdades que já existem, como as de classe, raça, gênero e sexualidade. Ele não nasce apenas de uma dúvida sobre transmissão. Também participa da desvalorização de determinados grupos.
Uma pessoa com HIV pode ser heterossexual. E pode ter vários parceiros.
O diagnóstico não revela a orientação sexual nem a quantidade de parceiros de alguém. Pessoas heterossexuais também podem adquirir HIV. Uma exposição capaz de transmitir o vírus pode acontecer em uma única relação.
Mas precisamos ir além dessa explicação.
Quem teve muitos parceiros também merece respeito. Ter vários parceiros não deveria ser usado como uma ofensa.
Defender alguém apenas porque adquiriu HIV dentro de um casamento mantém uma divisão: de um lado, quem consideramos merecedor de acolhimento; do outro, quem continuamos julgando.
Se sua compaixão aumenta quando descobre que alguém teve poucos parceiros, vale refletir sobre o que a faz diminuir diante de outra história.
Ninguém precisa apresentar uma vida sexual aprovada pelos outros para receber cuidado.
A pergunta que fica
Você pode escolher a maneira de viver suas próprias relações. Pode preferir um relacionamento monogâmico. Pode estabelecer seus limites.
Mas suas escolhas não precisam virar uma medida do valor das outras pessoas.
A história de “promíscuo” mostra como significados e regras sociais podem se juntar até transformar uma palavra em instrumento de condenação.
Quando esse rótulo acompanha o HIV, uma informação sobre saúde passa a servir como uma suposta prova de culpa.
Se você precisa saber com quantas pessoas alguém se relacionou antes de respeitá-lo, o que isso revela sobre o seu julgamento?
Referências históricas e teóricas
- Harper, Douglas. Promiscuous: origem e história da palavra. Online Etymology Dictionary.
- Douglas, Mary. Pureza e perigo: uma análise dos conceitos de poluição e tabu. Original de 1966. Informações e prévia da obra.
- Vainfas, Ronaldo. Amor, sexo e moral médico-clerical na Época Moderna. Revista de História, 1995.
- Foucault, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Original de 1976. Referência teórica discutida por Carrara.
- Rubin, Gayle. Thinking Sex: Notes for a Radical Theory of the Politics of Sexuality. 1984. Republicado em Deviations: A Gayle Rubin Reader, 2011.
- Carrara, Sérgio. Moralidades, racionalidades e políticas sexuais no Brasil contemporâneo. Mana, 21(2), 323–345, 2015.
- Sontag, Susan. AIDS and Its Metaphors. Ensaio de 1988; livro publicado em 1989.
- Parker, Richard; Aggleton, Peter. HIV and AIDS-related stigma and discrimination: a conceptual framework and implications for action. Social Science & Medicine, 57(1), 13–24, 2003.
- NIH. História dos primeiros anos da aids e do termo GRID.
- HIV.gov. Como o HIV é transmitido.

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