Estudar também é uma forma de autocuidado de pessoas vivendo com HIV

Quando falamos em autocuidado para pessoas vivendo com HIV, normalmente pensamos em tomar os medicamentos corretamente, fazer os exames de rotina, praticar atividade física, cuidar da alimentação e da saúde mental.

Tudo isso é fundamental.

Mas existe uma forma de cuidado que muitas vezes passa despercebida: continuar aprendendo.

Estudar não serve apenas para conseguir um diploma ou melhorar as oportunidades de trabalho. Também é uma maneira de fortalecer a autonomia, compreender melhor a própria saúde, desenvolver o pensamento crítico e construir novos projetos para a vida.

Em outras palavras, estudar também é uma forma de autocuidado.

O conhecimento também faz parte do tratamento

Receber o diagnóstico de HIV significa conviver com novas informações durante toda a vida. É preciso entender exames, conhecer o tratamento, acompanhar consultas, reconhecer possíveis efeitos adversos, compreender o significado de uma carga viral indetectável e aprender a diferenciar informações confiáveis de notícias falsas.

Para isso, existe um conceito chamado letramento em saúde, que é a capacidade de encontrar, compreender e utilizar informações para tomar decisões relacionadas à própria saúde.

Diversos estudos mostram que pessoas com maior letramento em saúde costumam compreender melhor o tratamento e apresentam melhores condições para manter o acompanhamento médico e a adesão aos medicamentos.

Isso não acontece porque elas são “melhores pacientes”, mas porque tiveram mais oportunidades de aprender, fazer perguntas e entender aquilo que está acontecendo com seu próprio corpo.

Escolaridade também influencia o cuidado

Diversas pesquisas mostram que a baixa escolaridade está frequentemente associada a maiores dificuldades de adesão ao tratamento do HIV.

Isso não significa que quem estudou menos irá abandonar o tratamento.

Significa que, muitas vezes, essas pessoas tiveram menos acesso à informação de qualidade, encontraram mais barreiras para compreender orientações médicas ou enfrentaram desigualdades sociais que dificultam o cuidado com a própria saúde.

Por isso, ampliar o acesso à educação também é uma forma de promover saúde.

Quanto mais conhecimento uma pessoa conquista, mais autonomia ela desenvolve para cuidar de si, conhecer seus direitos, conversar com os profissionais de saúde e participar das decisões sobre o próprio tratamento.

Estudar também fortalece a saúde mental

Voltar a estudar pode significar muito mais do que aprender um novo conteúdo.

Pode representar recuperar sonhos interrompidos, fortalecer a autoestima, ampliar a convivência com outras pessoas e perceber que o diagnóstico de HIV não define o futuro de ninguém.

Aprender estimula o cérebro, desenvolve novas habilidades, aumenta a confiança e cria novas possibilidades profissionais e pessoais.

Cada novo conhecimento é um investimento em si mesmo.

Nunca é tarde para aprender

Talvez você tenha parado de estudar por causa do trabalho, das dificuldades financeiras, da discriminação, da saúde ou simplesmente porque a vida seguiu outro caminho.

Mas sempre é possível recomeçar.

Você pode voltar a estudar pela Educação de Jovens e Adultos (EJA), fazer um curso técnico, iniciar uma faculdade ou participar de cursos profissionalizantes.

Também pode começar de maneira simples.

Faça cursos online. Assista a aulas gratuitas no YouTube. Ouça podcasts enquanto caminha ou vai ao trabalho. Leia livros, reportagens e artigos. Aprenda sobre tecnologia, saúde, educação financeira, idiomas, empreendedorismo ou qualquer assunto que desperte sua curiosidade.

Hoje existem milhares de cursos gratuitos e de baixo custo disponíveis na internet.

Você não precisa estudar horas todos os dias.

Se conseguir dedicar quinze ou vinte minutos por dia, já estará construindo um novo hábito.

O mais importante não é a velocidade.

É nunca deixar de aprender.

Aprender também é um ato de resistência

Durante muitos anos, pessoas vivendo com HIV foram levadas a acreditar que não teriam futuro.

A ciência mostrou exatamente o contrário.

Hoje sabemos que quem faz o tratamento pode viver com qualidade de vida, realizar projetos, construir relacionamentos, trabalhar, estudar e envelhecer.

Por isso, continuar aprendendo também é uma forma de enfrentar o estigma.

Cada livro lido, cada curso concluído, cada habilidade desenvolvida e cada conhecimento adquirido reforçam que a sua história continua sendo escrita.

Cuidar de si também é investir em conhecimento

Tomar a medicação é autocuidado.

Cuidar da saúde mental é autocuidado.

Fazer atividade física é autocuidado.

Mas investir no próprio conhecimento também é.

Porque aprender amplia oportunidades, fortalece a autonomia, combate a desinformação e ajuda você a tomar decisões mais conscientes sobre a própria vida.

Nunca pense que é tarde para aprender.

Enquanto existe curiosidade, existe crescimento.

E enquanto existe aprendizado, também existe autocuidado.

Referências

  1. Reynolds R, et al. Health Literacy and Health Outcomes in Persons Living with HIV Disease: A Systematic Review. AIDS and Behavior. 2019.
  2. Zuge SS, Paula CC, Padoin SMM. Aspects related to health literacy, self-care and compliance with treatment of people living with HIV. Revista da Escola de Enfermagem da USP.
  3. Damiani G, et al. The role of education in adherence to Highly Active Antiretroviral Therapy: A systematic review. European Journal of Public Health.
  4. Organização Mundial da Saúde (OMS). Health Promotion and Health Literacy.
  5. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos.