Eu achava que nunca iria me infectar pelo HIV.

A utopia de achar que “isso nunca vai acontecer comigo”

Quando descobri que vivia com HIV, uma das primeiras coisas que pensei foi:

“Mas isso nunca ia acontecer comigo.”

Hoje percebo que eu não era o único.

Milhares de pessoas dizem exatamente a mesma frase quando recebem o diagnóstico.

Mas por que tantas pessoas acreditam nisso?

O que significa utopia?

A palavra utopia surgiu há mais de 500 anos e significa, de forma simples, um lugar perfeito que não existe de verdade.

Com o tempo, a palavra passou a ser usada para qualquer ideia bonita, desejada, mas que não corresponde à realidade.

Achar que coisas difíceis nunca vão acontecer conosco pode ser uma espécie de utopia. É como construir uma bolha onde acreditamos que estamos protegidos de tudo.

Nosso cérebro gosta de nos fazer sentir seguros

Imagine uma criança atravessando uma ponte. Se ela tivesse medo de que a ponte fosse cair a cada passo, talvez nunca conseguisse atravessar.

Nosso cérebro faz algo parecido.

Ele tenta nos proteger da ansiedade.

Às vezes isso ajuda.

Outras vezes, faz com que a gente ignore riscos importantes.

Por isso muitas pessoas pensam:

“Comigo não.”

“Isso acontece com os outros.”

“Eu conheço alguém que teve HIV, mas comigo nunca aconteceria.”

O que Freud dizia sobre isso?

O médico e psicanalista Sigmund Freud acreditava que nossa mente possui mecanismos de defesa.

Esses mecanismos existem para diminuir o sofrimento quando uma ideia é difícil de aceitar.

Um deles é chamado de negação.

A negação acontece quando afastamos da nossa consciência algo que provoca medo ou desconforto.

Não significa que a pessoa esteja mentindo.

Ela realmente tem dificuldade para aceitar que aquela situação possa fazer parte da própria vida.

É como uma criança que fecha os olhos durante um filme assustador achando que, se ela não olhar, o monstro desapareceu.

O problema é que fechar os olhos não muda a realidade.

A Psicologia descobriu outra coisa importante

Décadas depois de Freud, pesquisadores perceberam outro fenômeno muito comum.

O psicólogo Neil Weinstein chamou isso de viés do otimismo.

Esse nome parece complicado, mas a ideia é muito simples.

Nosso cérebro costuma acreditar que as coisas boas têm mais chance de acontecer conosco, enquanto as coisas ruins acontecerão com outras pessoas.

Por isso alguém pode pensar:

“Eu nunca vou sofrer um acidente.”

“Eu nunca vou ter um infarto.”

“Eu nunca vou me infectar pelo HIV.”

Mesmo sabendo que essas situações podem acontecer.

Diversos estudos mostram que esse viés aparece em muitos assuntos relacionados à saúde, inclusive na percepção do risco de infecção pelo HIV. (Controle do Câncer)

Isso significa que as pessoas são irresponsáveis?

Não.

Na maioria das vezes, elas apenas estão fazendo o que todo cérebro humano costuma fazer.

O problema aparece quando essa sensação de segurança faz alguém deixar de fazer o teste, não conhecer a PrEP, não usar métodos de prevenção ou acreditar que informação não é necessária.

A falsa sensação de proteção pode acabar aumentando o risco.

O HIV não escolhe pessoas

Durante muitos anos, a sociedade criou a ideia de que o HIV era um problema de determinados grupos.

Isso fez muita gente pensar:

“Como eu não faço parte desse grupo, estou seguro.”

Hoje sabemos que isso não é verdade.

O HIV não escolhe orientação sexual, profissão, religião, idade ou estado civil.

O vírus depende de uma situação de exposição, não da identidade da pessoa.

O que realmente protege?

Não é acreditar que “nunca vai acontecer comigo”.

O que protege é conhecer a realidade.

É fazer o teste quando necessário.

É conhecer a PrEP, a PEP, o preservativo e outras formas de prevenção.

É saber que pessoas vivendo com HIV que mantêm carga viral indetectável não transmitem o vírus por via sexual (I=I).

A informação protege muito mais do que a ilusão.

O que aprendi

Hoje eu não penso mais que sou invulnerável.

Também não vivo com medo.

Aprendi que reconhecer nossa vulnerabilidade não nos torna fracos.

Nos torna mais conscientes.

Talvez a maior utopia seja acreditar que estamos fora da realidade humana.

Todos nós podemos passar por situações difíceis.

A diferença está em como nos preparamos para elas.

E conhecimento sempre será uma das formas mais importantes de proteção.

Referências teóricas

  • Freud, S. (1926). Inibições, Sintomas e Ansiedade — descreve os mecanismos de defesa, incluindo a negação, como formas de reduzir a angústia.
  • Freud, S. (1915). O Inconsciente — apresenta a ideia de que nem tudo o que influencia nosso comportamento está consciente.
  • Weinstein, N. D. (1980). Unrealistic Optimism About Future Life Events — estudo clássico que descreveu o viés do otimismo.
  • Helweg-Larsen, M.; Shepperd, J. A. (2001). Do Moderators of the Optimistic Bias Affect Personal Risk Estimates? — revisão sobre o viés do otimismo.
  • Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos (NCI). Optimistic Bias — mostra que esse viés é observado em diversas doenças, incluindo a infecção pelo HIV. (Controle do Câncer)
  • Walker & Avant (2024). Optimistic Bias: Concept Analysis — revisão atual sobre o conceito de viés do otimismo na saúde. (rcphn.org)