Homens heterossexuais podem ser passivos?

Poucos temas despertam tanto desconforto quanto a ideia de um homem heterossexual sentir prazer em ser penetrado durante uma relação sexual. Para muitas pessoas, essa prática seria incompatível com a heterossexualidade, como se a posição ocupada durante o sexo fosse capaz de definir automaticamente a identidade de alguém. Mas será que essa associação encontra respaldo na ciência? Ou ela está mais ligada à moral, à cultura e à história do que propriamente à sexualidade?

A sexologia contemporânea faz uma distinção importante entre orientação sexual, comportamento sexual e papel sexual. A orientação sexual refere-se ao padrão predominante de atração afetiva e sexual de uma pessoa. O comportamento sexual corresponde às práticas que ela realiza. Já o papel sexual diz respeito à dinâmica assumida durante uma relação, como ser ativo, passivo ou versátil. Embora essas três dimensões possam se relacionar, elas não são a mesma coisa.

Isso significa que um homem que sente atração exclusivamente por mulheres continua sendo heterossexual, ainda que tenha interesse pela estimulação anal realizada por sua parceira ou descubra prazer nessa região do corpo. Da mesma forma, um homem gay pode preferir ser ativo, passivo ou versátil. Nenhuma dessas posições altera sua orientação sexual.

Apesar disso, a ideia de que “quem é penetrado deixa de ser homem” continua muito presente em diversas sociedades. Essa crença não surgiu da biologia. Ela foi construída historicamente.

Desde a Antiguidade, diferentes culturas atribuíram significados morais ao corpo e ao sexo. Na Grécia e em Roma, por exemplo, o que determinava o status social masculino não era necessariamente o gênero da pessoa com quem se mantinha uma relação sexual, mas o papel desempenhado durante o ato. Esperava-se que o cidadão livre ocupasse a posição considerada dominante. Ser penetrado podia ser interpretado como uma perda de prestígio social, especialmente quando envolvia homens adultos da elite. O julgamento estava muito mais relacionado às relações de poder do que àquilo que hoje entendemos como orientação sexual.

Com o fortalecimento do cristianismo no Ocidente, a sexualidade passou a ser progressivamente enquadrada dentro de uma lógica moral. O sexo deixou de ser apenas uma experiência corporal e passou a ser visto como um espaço sujeito à vigilância ética e religiosa. Durante séculos, práticas sexuais que não estivessem voltadas à reprodução foram classificadas como pecaminosas. A moral cristã influenciou profundamente a construção da ideia de masculinidade, reforçando modelos rígidos de comportamento para homens e mulheres.

Esse contexto histórico ajuda a explicar por que determinadas práticas continuam sendo vistas como incompatíveis com a masculinidade, mesmo quando não existe fundamento científico para essa associação.

Foi justamente essa relação entre sexualidade, moral e poder que Michel Foucault analisou em História da Sexualidade. Ao contrário da ideia de que a sociedade simplesmente reprimiu o sexo, Foucault argumenta que, a partir do século XIX, ocorreu uma intensa produção de discursos sobre a sexualidade. Medicina, psiquiatria, direito, religião e educação passaram a classificar comportamentos, estabelecer normas e criar categorias que organizavam quem seria considerado normal ou desviante.

Segundo Foucault, foi nesse período que práticas passaram a ser transformadas em identidades. Antes disso, existiam atos sexuais; posteriormente, passaram a existir “tipos” de pessoas definidos por esses atos. Assim, o indivíduo deixou de ser alguém que realizava determinado comportamento para tornar-se alguém cuja identidade inteira seria explicada por ele.

Essa mudança teve consequências profundas. Se uma prática passou a definir uma identidade, tornou-se mais fácil controlar corpos, estabelecer normas sociais e produzir estigmas. Sob essa perspectiva, afirmar que um homem é homossexual apenas porque gosta de determinada prática sexual revela muito mais uma construção histórica do que uma verdade científica.

Sigmund Freud também contribuiu para desmontar a ideia de uma sexualidade rígida. Em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, publicado em 1905, ele propôs que o desejo humano possui uma enorme plasticidade. Para Freud, diferentes partes do corpo podem tornar-se fontes legítimas de prazer, e a sexualidade não se limita aos órgãos genitais nem possui uma única finalidade.

Freud descreveu ainda o conceito de bissexualidade psíquica. Segundo ele, todos os indivíduos carregam identificações masculinas e femininas em sua constituição psíquica. Essa ideia frequentemente é mal interpretada. Freud não afirmava que todas as pessoas fossem bissexuais em termos de orientação sexual. Seu argumento era que a mente humana não funciona de maneira totalmente polarizada e que reduzir o desejo a categorias rígidas empobrece a compreensão da sexualidade.

Mesmo que diversas formulações freudianas sejam hoje revisadas pela psicologia contemporânea, sua principal contribuição permanece relevante: o desejo humano é muito mais complexo do que classificações simplistas conseguem explicar.

A própria anatomia masculina reforça essa compreensão. A próstata possui milhares de terminações nervosas e pode proporcionar intenso prazer quando estimulada. Esse prazer decorre da fisiologia do corpo masculino, não da orientação sexual. Em outras palavras, um homem não se torna homossexual porque determinada região do seu corpo produz prazer, assim como ninguém questiona a orientação sexual de uma mulher pelo fato de sentir prazer em diferentes formas de estimulação.

No entanto, muitos homens crescem ouvindo que determinadas práticas ameaçam sua masculinidade. Essa educação produz medo, culpa e vergonha. Não raramente, homens heterossexuais evitam conversar sobre curiosidades ou fantasias por receio de serem rotulados. Em alguns casos, o sofrimento psicológico não nasce do desejo em si, mas da expectativa social de que exista apenas uma maneira “correta” de ser homem.

A psicologia social demonstra que as normas de masculinidade influenciam profundamente a maneira como homens vivem sua sexualidade. A ideia de que o homem deve ser sempre dominante, invulnerável e sexualmente controlador faz parte do que diversos pesquisadores chamam de masculinidade hegemônica. Esse modelo não apenas limita a liberdade sexual, mas também dificulta que muitos homens expressem vulnerabilidade, procurem ajuda psicológica ou conversem abertamente sobre seus desejos.

É importante destacar que reconhecer essa complexidade não significa afirmar que todos os homens heterossexuais desejam experimentar estimulação anal, nem que deveriam fazê-lo. O desejo é profundamente individual. Algumas pessoas têm interesse, outras não, e ambas as experiências são igualmente legítimas. O ponto central é compreender que uma prática sexual consensual entre adultos não determina automaticamente a orientação sexual de ninguém.

A ciência atual aponta que a orientação sexual é definida principalmente pelo padrão consistente de atração afetiva e sexual ao longo da vida, e não pela posição ocupada durante uma relação sexual. Reduzir a identidade de uma pessoa a uma única prática significa ignorar décadas de pesquisas em psicologia, sexologia, neurociência e ciências sociais.

Talvez a pergunta mais importante não seja se homens heterossexuais podem ser passivos, mas por que nossa sociedade ainda insiste em transformar determinadas práticas em marcadores de identidade. Quando deixamos de olhar apenas para a moral e passamos a observar a história, a filosofia e a ciência, percebemos que muitas certezas que pareciam naturais são, na verdade, construções culturais. Compreender essa diferença não elimina valores pessoais ou crenças religiosas, mas permite separar convicções morais das evidências científicas e contribui para uma discussão mais respeitosa, informada e menos baseada no preconceito.

Referências

Freud, S. (1905). Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.

Foucault, M. (1976). História da Sexualidade – Volume I: A Vontade de Saber.

Connell, R. W. (1995). Masculinities.

American Psychological Association. Guidelines for Psychological Practice with Sexual Minority Persons (2021).

World Association for Sexual Health. Declaration of Sexual Rights (2021).

LeVay, S. (2017). Gay, Straight, and the Reason Why: The Science of Sexual Orientation.