O Quanto os Traumas da Infância Podem Afetar o Sono na Vida Adulta

Dormir deveria ser um momento de descanso e segurança. Mas, para muitas pessoas, a hora de dormir pode trazer ansiedade, medo, pensamentos acelerados e até pesadelos. Em alguns casos, isso pode estar ligado a experiências difíceis vividas ainda na infância.

Hoje, diversos estudos mostram que traumas infantis podem afetar o sono por muitos anos, chegando até a vida adulta.

O que é considerado um trauma na infância?

Quando falamos em trauma, muitas pessoas pensam apenas em situações muito graves. Mas o trauma pode acontecer de várias formas.

Alguns exemplos são:

  • abuso físico;
  • abuso emocional;
  • abuso sexual;
  • abandono;
  • violência dentro de casa;
  • humilhações constantes;
  • negligência;
  • crescer em um ambiente onde a criança nunca se sentia segura.

O cérebro da criança ainda está em desenvolvimento. Por isso, situações de medo constante podem ensinar o corpo a viver sempre em alerta.

O cérebro aprende a ficar “ligado”

Quando uma criança cresce em um ambiente inseguro, o cérebro entende que precisa estar preparado o tempo todo para se defender.

Mesmo depois de adulta, essa pessoa pode continuar sentindo que precisa “vigiar” tudo ao redor, mesmo quando não existe mais perigo.

Isso pode causar:

  • dificuldade para relaxar;
  • pensamentos acelerados;
  • medo ao dormir;
  • sensação de alerta constante;
  • ansiedade noturna.

É como se o corpo nunca desligasse completamente.

Por que o trauma afeta o sono?

Dormir exige uma sensação de segurança. O cérebro precisa entender que está tudo bem para conseguir descansar profundamente.

Mas pessoas que viveram traumas podem ter dificuldade em sentir essa segurança.

Por isso, muitos adultos que passaram por situações difíceis na infância relatam:

  • insônia;
  • sono leve;
  • acordar várias vezes durante a madrugada;
  • pesadelos;
  • medo de dormir;
  • cansaço mesmo depois de dormir;
  • sensação de que a mente não para.

Alguns estudos mostram que o corpo dessas pessoas também pode produzir mais cortisol, conhecido como hormônio do estresse. Quando ele fica alto por muito tempo, o organismo encontra mais dificuldade para relaxar.

O trauma pode continuar mesmo muitos anos depois

Muitas pessoas acham que, porque o trauma aconteceu há muito tempo, ele “já passou”. Mas o cérebro e o corpo podem guardar essas experiências de formas silenciosas.

Às vezes, a pessoa nem percebe que suas dificuldades para dormir podem estar ligadas ao que viveu na infância.

Ela apenas pensa:

  • “sempre fui ansioso”;
  • “minha mente nunca desliga”;
  • “eu durmo mal desde pequeno”;
  • “não consigo relaxar”.

Mas, em muitos casos, o corpo aprendeu desde cedo que descansar não era totalmente seguro.

O que é hipervigilância?

Hipervigilância é quando o cérebro permanece em estado constante de alerta.

A pessoa pode sentir que precisa prestar atenção em tudo o tempo inteiro, como se algo ruim pudesse acontecer a qualquer momento.

Isso pode dificultar muito o sono, porque o cérebro continua funcionando como se estivesse em perigo, mesmo durante a noite.

Pessoas com hipervigilância podem:

  • acordar facilmente com qualquer barulho;
  • dormir muito leve;
  • sentir tensão no corpo;
  • demorar para pegar no sono;
  • ter sonhos ruins frequentes.

Como a terapia pode ajudar?

Muitas pessoas acreditam que precisam apenas “aprender a dormir”. Mas, em alguns casos, o problema não está apenas no sono. O que precisa de cuidado é a história emocional que o corpo carrega.

A terapia ajuda a pessoa a compreender emoções, medos e experiências que ficaram guardadas por muito tempo.

Quando alguém fala sobre suas dores em um ambiente seguro, o cérebro pode começar a entender que não está mais vivendo naquele perigo do passado.

Com o tempo, isso pode diminuir:

  • a ansiedade noturna;
  • os pensamentos acelerados;
  • o medo de dormir;
  • a tensão constante no corpo.

Além disso, a terapia ajuda a desenvolver novas formas de lidar com emoções, inseguranças e lembranças difíceis.

O olhar da psicanálise sobre o trauma

A psicanálise também trouxe contribuições importantes para compreender como experiências da infância podem continuar afetando a vida adulta.

Segundo a psicanálise, muitas dores emocionais não desaparecem simplesmente porque o tempo passou. Algumas experiências ficam registradas no inconsciente e podem aparecer de diferentes formas ao longo da vida, inclusive através da ansiedade, dos sonhos, dos pesadelos e das dificuldades para dormir.

Sigmund Freud observava que experiências emocionais muito intensas podem permanecer ativas dentro da mente, mesmo quando a pessoa não consegue explicar exatamente o que sente.

Dentro desse olhar, o sofrimento nem sempre aparece de forma clara. Às vezes ele surge no corpo, no medo constante, na sensação de alerta ou na dificuldade de descansar.

A psicanálise entende que falar sobre essas experiências e compreender seus significados pode ajudar a diminuir sofrimentos que ficaram “presos” emocionalmente por muitos anos.

Traumas também podem afetar a saúde emocional

Além do sono, os traumas infantis podem influenciar:

  • ansiedade;
  • depressão;
  • autoestima;
  • relacionamentos;
  • sensação de segurança;
  • dificuldade em confiar nas pessoas.

Quando a pessoa dorme mal por muito tempo, isso também afeta as emoções. O cérebro fica mais cansado, irritado e sobrecarregado.

Por isso, trauma e dificuldades para dormir muitas vezes acabam formando um ciclo.

Existe tratamento?

Sim. E isso é muito importante.

O cérebro pode aprender novas formas de se sentir seguro. Com acompanhamento psicológico e apoio adequado, muitas pessoas conseguem melhorar bastante o sono e a qualidade de vida.

Entre os tratamentos mais utilizados estão:

  • psicoterapia;
  • psicanálise;
  • tratamento para ansiedade e trauma;
  • técnicas de relaxamento;
  • mindfulness;
  • higiene do sono;
  • acompanhamento psiquiátrico quando necessário.

O objetivo do tratamento não é apenas “fazer a pessoa dormir”. É ajudar o corpo e a mente a reconstruírem uma sensação de segurança.

Conclusão

Os estudos mostram que experiências difíceis vividas na infância podem continuar afetando o corpo e a mente por muitos anos, inclusive durante o sono.

A insônia, os pesadelos e a dificuldade para relaxar nem sempre são apenas “problemas para dormir”. Muitas vezes, podem estar ligados a medos e inseguranças que o cérebro aprendeu no passado.

Entender essa relação ajuda a diminuir a culpa que muitas pessoas sentem por não conseguirem descansar. Também mostra a importância do acolhimento, da terapia e do cuidado emocional.

Buscar ajuda psicológica não significa fraqueza. Em muitos casos, é justamente o primeiro passo para que a pessoa finalmente consiga sentir aquilo que talvez tenha faltado durante muito tempo: segurança.


Referências

  • FIGUEIREDO, Â. L.; ARGIMON, I. I. L. Trauma infantil e sua associação com transtornos do humor na vida adulta: uma revisão sistemática. Psicologia em Revista, 2013.
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  • MACARI, M. D. B. Influência do trauma na infância sobre a saúde mental na vida adulta, 2024.
  • Fundação Bial. Traumas na infância podem provocar insônia nos adultos?
  • ZAVARONI, D. M. L. Trauma e infância: considerações sobre a vivência de situações potencialmente traumáticas.
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