Enquanto o HIV é amplamente conhecido pela população, existe outro retrovírus humano que também merece atenção: o HTLV. Apesar de afetar milhões de pessoas em todo o mundo, essa infecção ainda é pouco conhecida e muitas pessoas vivendo com HTLV nunca recebem o diagnóstico.
No Brasil, estima-se que entre 800 mil e 2,5 milhões de pessoas vivam com HTLV, embora a maioria não saiba que está infectada. Por isso, especialistas consideram o HTLV uma infecção negligenciada, que ainda recebe pouca visibilidade nas campanhas de saúde pública.
O que é o HTLV?
HTLV é a sigla para Vírus Linfotrópico de Células T Humanas (Human T-cell Lymphotropic Virus).
Assim como o HIV, ele pertence à família dos retrovírus. Por isso, muitas vezes é chamado de “primo” do HIV. No entanto, são vírus diferentes e apresentam comportamentos muito diferentes no organismo.
É importante entender que:
- O HTLV não causa AIDS.
- O HIV não causa as complicações relacionadas ao HTLV.
- Uma pessoa vivendo com HTLV não necessariamente vive com HIV.
- Uma pessoa pode viver apenas com HTLV, apenas com HIV ou com as duas infecções ao mesmo tempo.
Existem quatro tipos conhecidos do vírus (HTLV-1, HTLV-2, HTLV-3 e HTLV-4), mas os dois primeiros são os mais importantes para a saúde humana. O HTLV-1 é o principal responsável pelas complicações associadas ao vírus, enquanto o HTLV-2 parece estar relacionado a um risco menor de desenvolver manifestações clínicas.
Como o HTLV é transmitido?
As formas de transmissão são muito semelhantes às do HIV.
O vírus pode ser transmitido por:
- Relações sexuais sem preservativo.
- Compartilhamento de seringas e agulhas.
- Da mãe para o bebê, principalmente durante a amamentação.
- Transfusões de sangue contaminado (situação extremamente rara atualmente, já que todo o sangue doado é testado no Brasil).
O HTLV não é transmitido por:
- beijo;
- abraço;
- aperto de mão;
- saliva;
- suor;
- compartilhamento de copos ou talheres;
- uso do mesmo banheiro.
Ou seja, o convívio social é totalmente seguro.
Toda pessoa vivendo com HTLV desenvolve sintomas?
Não.
Essa é uma das informações mais importantes sobre o vírus.
Entre 90% e 95% das pessoas vivendo com HTLV nunca desenvolverão sintomas relacionados à infecção durante toda a vida.
Muitas descobrem o diagnóstico por acaso, durante a doação de sangue, no pré-natal ou após investigação médica por outros motivos.
Quais complicações o HTLV pode causar?
Embora a maioria permaneça sem sintomas, uma pequena parcela das pessoas vivendo com HTLV pode desenvolver complicações importantes.
Leucemia/Linfoma de Células T do Adulto (ATLL)
É um tipo raro e agressivo de câncer que afeta os linfócitos T, células importantes do sistema imunológico.
Essa complicação costuma surgir décadas após a infecção e ocorre apenas em uma pequena porcentagem das pessoas vivendo com HTLV-1.
Mielopatia Associada ao HTLV (HAM/TSP)
Também conhecida como Paraparesia Espástica Tropical, é uma complicação neurológica causada pela inflamação da medula espinhal.
Os sintomas podem incluir:
- dificuldade para caminhar;
- rigidez nas pernas;
- fraqueza muscular;
- alterações urinárias;
- perda de equilíbrio;
- dor crônica.
Os sintomas geralmente aparecem lentamente e podem evoluir ao longo dos anos.
Outras complicações associadas
O HTLV também pode estar relacionado a:
- inflamações nos olhos (uveíte);
- dermatites;
- maior risco de infecção por Strongyloides stercoralis (estrongiloidíase);
- inflamações pulmonares;
- artrites;
- outras complicações inflamatórias.
Existe tratamento?
Até o momento, não existe um medicamento capaz de eliminar o HTLV do organismo.
Quando surgem complicações relacionadas ao vírus, o tratamento é direcionado para controlar os sintomas, reduzir a progressão das alterações e melhorar a qualidade de vida.
Dependendo da situação, podem ser utilizados:
- fisioterapia;
- medicamentos para controle da dor;
- medicamentos para reduzir inflamações;
- tratamento oncológico;
- acompanhamento com neurologistas, hematologistas, infectologistas e outros especialistas.
Pesquisas em andamento
Embora ainda não exista um medicamento aprovado para tratar especificamente o HTLV, pesquisadores têm estudado alguns antirretrovirais utilizados no tratamento do HIV, como o dolutegravir e o raltegravir.
Estudos em laboratório e em pequenos estudos clínicos sugerem que esses medicamentos podem interferir na atividade da enzima integrase do HTLV. No entanto, até o momento não há evidências suficientes para recomendar seu uso na prática clínica, e eles não fazem parte das diretrizes brasileiras ou internacionais para o tratamento da infecção pelo HTLV.
Novas pesquisas ainda são necessárias para confirmar sua eficácia e segurança.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é realizado por exames de sangue que identificam anticorpos contra o HTLV.
Quando o teste inicial é reagente, exames confirmatórios identificam se a pessoa vive com HTLV-1 ou HTLV-2.
No Brasil, o exame já faz parte da triagem obrigatória dos bancos de sangue e também foi incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) para o pré-natal. A recomendação do Ministério da Saúde é que a testagem seja realizada preferencialmente na primeira consulta da gestação, permitindo identificar precocemente pessoas vivendo com HTLV e reduzir o risco de transmissão para o bebê.
É possível prevenir?
Sim.
As principais medidas de prevenção incluem:
- usar preservativo nas relações sexuais;
- não compartilhar seringas ou agulhas;
- realizar a testagem durante a gestação;
- seguir as orientações da equipe de saúde sobre amamentação quando a mãe vive com HTLV.
Essas medidas reduzem significativamente o risco de transmissão.
HTLV e HIV: quais são as diferenças?
Embora pertençam à mesma família de vírus, HTLV e HIV têm comportamentos bastante diferentes.
| Pessoas vivendo com HIV | Pessoas vivendo com HTLV |
| O HIV pode comprometer o sistema imunológico quando não tratado. | O HTLV infecta principalmente os linfócitos T e pode causar complicações em uma pequena parcela das pessoas. |
| Existe tratamento antirretroviral altamente eficaz, que permite uma vida longa e saudável. | Ainda não existe um tratamento capaz de eliminar o vírus do organismo. |
| Sem tratamento, a infecção pode evoluir para a AIDS. | A maioria das pessoas vivendo com HTLV nunca desenvolverá sintomas. |
| É uma infecção amplamente conhecida pela população. | Ainda é considerada uma infecção negligenciada. |
Por que falar sobre o HTLV é importante?
O desconhecimento sobre o HTLV faz com que muitas pessoas descubram a infecção apenas anos depois da transmissão ou nunca recebam o diagnóstico.
Quanto mais cedo uma pessoa sabe que vive com HTLV, maiores são as oportunidades de receber acompanhamento adequado, reduzir o risco de transmissão e identificar precocemente possíveis complicações.
Embora a maioria das pessoas vivendo com HTLV nunca desenvolva sintomas, ampliar o acesso à informação e à testagem é fundamental para que essa infecção deixe de ser negligenciada.
Conclusão
Assim como aconteceu com o HIV há algumas décadas, o HTLV ainda é cercado por desinformação. Conhecer suas formas de transmissão, entender que a maioria das pessoas vivendo com HTLV nunca desenvolverá sintomas e ampliar o acesso ao diagnóstico são passos fundamentais para reduzir o estigma e garantir mais qualidade de vida para quem vive com essa infecção.
Informação de qualidade continua sendo uma das ferramentas mais importantes para a prevenção, o cuidado e o combate ao preconceito.
Referências
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecção pelo HTLV.
- Ministério da Saúde. Nota Técnica sobre prevenção da transmissão vertical do HTLV e incorporação da testagem no pré-natal.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Human T-lymphotropic virus type 1 (HTLV-1).
- Gessain A, Cassar O. Epidemiological Aspects and World Distribution of HTLV-1 Infection. Frontiers in Microbiology.
- Bangham CRM, Araujo A, Yamano Y, Taylor GP. HTLV-1-associated disease. The Lancet.
- International Retrovirology Association (IRVA). Diretrizes e documentos científicos sobre HTLV.

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