Por que algumas pessoas se irritam quando um homem fica com outros homens, mas não se considera gay?

Introdução

Poucos debates sobre sexualidade despertam tantas reações quanto este: um homem afirma que fica com outros homens, mas não se considera gay. Rapidamente surgem comentários dizendo que ele está “em negação”, que “é gay e não aceita” ou que “está apagando a bissexualidade”.

Mas será que essa conclusão é sustentada pelas teorias contemporâneas sobre sexualidade? Ou estamos confundindo comportamento, desejo e identidade?

A resposta exige um olhar multidisciplinar que envolve psicologia, psicanálise, sociologia e filosofia.

O erro de confundir comportamento com identidade

Grande parte do conflito nasce da suposição de que uma prática determina automaticamente uma identidade.

Na literatura científica, costuma-se diferenciar três dimensões:

  • Comportamento sexual: com quem a pessoa se relaciona.
  • Atração ou desejo: por quem sente interesse afetivo ou erótico.
  • Identidade sexual: como a própria pessoa escolhe se definir.

Essas dimensões frequentemente coincidem, mas não são equivalentes. Uma pessoa pode apresentar comportamentos que não correspondem à identidade que reivindica para si.

Por isso, afirmar que alguém “é gay” apenas porque teve relações com homens representa uma simplificação de fenômenos humanos muito mais complexos.

Foucault: a identidade sexual é uma construção histórica

Michel Foucault, em História da Sexualidade, propõe uma ideia provocativa: durante séculos, a sociedade não classificava pessoas pela sua orientação da maneira como fazemos hoje.

Segundo ele, no século XIX ocorreu uma transformação importante. Determinados comportamentos passaram a ser interpretados como características essenciais do indivíduo. O que antes era visto como um ato tornou-se uma identidade.

Em uma de suas passagens mais conhecidas, Foucault argumenta que o homossexual moderno deixou de ser apenas alguém que praticava certos atos e passou a ser concebido como um “tipo de pessoa”, quase uma categoria permanente.

Essa perspectiva ajuda a entender por que tantas pessoas insistem em enquadrar indivíduos em rótulos fixos. Se alguém mantém relações com homens, espera-se que adote uma identidade correspondente. Quando isso não acontece, gera desconforto porque rompe uma convenção social amplamente difundida.

Freud: o desejo humano não é linear

Sigmund Freud também oferece uma contribuição relevante.

Na psicanálise clássica, Freud defendia que a sexualidade humana possui múltiplas possibilidades e que o desenvolvimento psíquico do desejo é complexo. Em diferentes momentos de sua obra, sugeriu que os seres humanos carregam potencialidades diversas que não podem ser reduzidas a classificações rígidas.

Embora muitos conceitos freudianos sejam hoje debatidos ou reinterpretados, sua principal contribuição permanece atual: o desejo humano raramente cabe em categorias simples e absolutas.

Kinsey: um espectro em vez de dois extremos

Na década de 1940, Alfred Kinsey revolucionou os estudos sobre sexualidade ao propor uma escala contínua de orientação.

Em vez de dividir a população apenas entre heterossexuais e homossexuais, Kinsey sugeriu um continuum no qual diferentes graus de atração e comportamento poderiam coexistir.

Essa proposta mostrou que muitas pessoas apresentam experiências que não se encaixam perfeitamente em categorias binárias. Ao mesmo tempo, Kinsey nunca afirmou que todos são bissexuais; apenas demonstrou que a diversidade sexual é maior do que os modelos tradicionais sugeriam.

Por que algumas pessoas falam em “apagamento da bissexualidade”?

A crítica não surge do nada.

Historicamente, pessoas bissexuais enfrentaram invisibilidade tanto em contextos heterossexuais quanto dentro da própria comunidade LGBTQIA+. Durante décadas, ouviram que estavam “confusas”, “em cima do muro” ou “passariam por uma fase”.

Como consequência, muitos ativistas defendem que reconhecer a identidade bissexual é uma forma de combater esse apagamento histórico.

Nesse contexto, quando um homem relata relações com homens, mas rejeita o rótulo “bissexual”, algumas pessoas interpretam essa escolha como uma recusa em validar uma identidade frequentemente marginalizada.

Contudo, essa interpretação entra em tensão com outro princípio igualmente importante.

O direito à autodefinição

Nas ciências humanas contemporâneas, identidade é entendida como um processo subjetivo e socialmente construído.

Isso significa que nenhuma autoridade externa pode determinar, de forma absoluta, como um indivíduo deve se identificar. Os rótulos servem para organizar experiências, facilitar comunicação e promover reconhecimento social, mas não podem substituir a experiência vivida pela própria pessoa.

Assim, alguém pode ter comportamentos com homens e ainda preferir não se considerar gay ou bissexual. Outro indivíduo, vivendo experiências semelhantes, pode identificar-se como bissexual com plena convicção.

A irritação revela mais sobre normas sociais do que sobre a pessoa

Quando alguém insiste que outra pessoa “deveria assumir um rótulo”, muitas vezes está expressando uma expectativa social de coerência entre comportamento e identidade.

Sob a ótica foucaultiana, trata-se do desejo de enquadrar indivíduos em categorias estáveis. Sob a perspectiva psicanalítica, pode refletir a dificuldade de lidar com a ambiguidade do desejo humano. Já sob uma visão sociopolítica, pode representar a preocupação legítima com o reconhecimento histórico de identidades invisibilizadas.

Essas interpretações não são mutuamente excludentes. Pelo contrário, ajudam a explicar por que um tema aparentemente simples desperta emoções tão intensas.

Considerações finais

A pergunta “se um homem fica com outros homens, ele é gay?” talvez esteja formulada de maneira inadequada.

Uma questão mais produtiva seria: quem tem autoridade para definir a identidade de uma pessoa?

As principais correntes contemporâneas apontam que comportamento, desejo e identidade são dimensões relacionadas, mas distintas. Respeitar essa complexidade não significa negar a existência da bissexualidade nem relativizar identidades consolidadas. Significa reconhecer que a experiência humana frequentemente escapa às categorias rígidas.

Referências teóricas

  • FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade, Volume I: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Graal.
  • FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.
  • KINSEY, Alfred C.; POMEROY, Wardell B.; MARTIN, Clyde E. Sexual Behavior in the Human Male. Philadelphia: W.B. Saunders, 1948.
  • KINSEY, Alfred C.; POMEROY, Wardell B.; MARTIN, Clyde E.; GEBHARD, Paul H. Sexual Behavior in the Human Female. Philadelphia: W.B. Saunders, 1953.
  • APA – American Psychological Association. Materiais técnicos sobre orientação sexual, identidade e diversidade humana.
  • WHO – Organização Mundial da Saúde. Documentos sobre saúde sexual e diversidade.