A maioria das pessoas acredita que o sofrimento começa no momento em que o exame mostra um resultado positivo para o HIV. Afinal, receber um diagnóstico que muda a forma como você passa a enxergar a própria vida não é algo simples. Mas essa explicação, embora verdadeira, está longe de contar toda a história. O sofrimento não nasce apenas do resultado de um exame. Em muitos casos, ele começou anos ou até décadas antes, quando aquela pessoa ainda era uma criança e começou a aprender, mesmo sem perceber, quem eram “as pessoas que tinham HIV”.
Ninguém nasce com medo do HIV. Ninguém nasce sentindo vergonha de quem vive com HIV. Ninguém nasce acreditando que essas pessoas são irresponsáveis, promíscuas, perigosas ou “diferentes”. Essas ideias são aprendidas. Elas chegam pela televisão, pelas conversas de família, pelas piadas entre amigos, por notícias antigas, por discursos religiosos, pela escola e até por campanhas de prevenção que, durante muitos anos, utilizaram o medo como estratégia de comunicação. Pouco a pouco, vamos formando uma imagem sobre quem vive com HIV.
Essa imagem quase nunca é positiva.
Durante muito tempo, o HIV foi apresentado como algo que acontecia com “os outros”. O outro era quem usava drogas. O outro era quem “não se cuidava”. O outro era quem tinha muitos parceiros. O outro era quem havia feito escolhas erradas. Mesmo pessoas que nunca disseram isso em voz alta cresceram ouvindo essas associações repetidas tantas vezes que elas passaram a parecer naturais.
O problema é que, um dia, esse “outro” pode deixar de existir.
Quando uma pessoa recebe o diagnóstico, ela descobre que agora faz parte exatamente daquele grupo que aprendeu a enxergar de forma negativa. Em poucos minutos, tudo muda de lugar. O HIV, que antes era um assunto distante, passa a morar dentro da própria história.
Talvez seja justamente essa mudança de lugar que explique por que o diagnóstico costuma provocar um sofrimento tão intenso.
O vírus entra no organismo em um determinado momento. O preconceito, muitas vezes, já estava instalado muito antes.
Imagine uma criança que cresce vendo um colega ser ridicularizado todos os dias na escola. Ela aprende rapidamente que ninguém quer ocupar aquele lugar. Anos depois, por qualquer motivo, ela passa a ser a criança ridicularizada. A dor não nasce apenas porque estão rindo dela. A dor também nasce porque ela passou anos aprendendo que aquele era o pior lugar possível para estar.
Com o HIV acontece algo semelhante.
Antes do diagnóstico, muitas pessoas nunca haviam parado para pensar como enxergavam quem vivia com HIV. Mas, depois do diagnóstico, essas antigas ideias voltam com força. É comum ouvir pensamentos como: “ninguém mais vai me amar”, “minha vida acabou”, “agora sou uma pessoa marcada”, “não posso contar para ninguém”, “ninguém vai querer construir uma família comigo”.
Essas frases não aparecem escritas no exame.
Elas aparecem porque o diagnóstico desperta tudo aquilo que foi aprendido ao longo da vida.
É importante compreender isso porque muitas pessoas acreditam que estão sofrendo apenas por causa do vírus. Na realidade, frequentemente sofrem porque carregam uma imagem extremamente negativa sobre o que significa viver com HIV.
O preconceito deixa de estar apenas do lado de fora e passa a morar dentro da própria pessoa.
Na psicologia social, esse fenômeno recebe o nome de estigma internalizado. Ele acontece quando uma pessoa passa a acreditar nas ideias negativas que a sociedade construiu sobre o grupo ao qual ela pertence. Em vez de apenas sofrer preconceito vindo de outras pessoas, ela começa a reproduzir esse preconceito contra si mesma.
É por isso que algumas pessoas escondem o diagnóstico mesmo quando ninguém perguntou.
É por isso que outras terminam relacionamentos antes mesmo que o parceiro saiba do HIV.
É por isso que algumas deixam de procurar novas oportunidades de trabalho, evitam fazer amizades ou passam anos sem viver plenamente a própria vida.
O julgamento mais duro nem sempre vem de fora.
Muitas vezes, ele já está acontecendo dentro da própria cabeça.
Costumo dizer que o HIV frequentemente provoca uma batalha muito particular.
É uma luta de você contra você mesmo.
De um lado está quem você realmente é.
Do outro lado está tudo aquilo que você aprendeu sobre pessoas vivendo com HIV.
Você continua sendo a mesma pessoa que acordou no dia anterior ao diagnóstico. Continua amando sua família. Continua tendo sonhos. Continua sendo um bom profissional, um bom amigo, um bom filho, uma boa mãe ou um bom pai. Continua carregando sua história, seus valores, suas lembranças e seus projetos.
Nada disso desaparece.
O que muda é a forma como você passa a olhar para si.
É como se um espelho fosse coberto por uma camada de preconceitos acumulados durante toda a vida. Você deixa de enxergar quem realmente é e passa a enxergar aquilo que aprendeu que uma pessoa vivendo com HIV deveria ser.
Essa transformação ajuda a explicar por que duas pessoas podem receber exatamente o mesmo diagnóstico e reagirem de maneiras completamente diferentes. O vírus é o mesmo. O tratamento disponível é o mesmo. A expectativa de vida pode ser semelhante. O que muda é a história que cada uma construiu sobre o HIV antes daquele resultado chegar.
Essa reflexão dialoga profundamente com o pensamento do educador brasileiro Paulo Freire. Em sua obra, Freire explica que uma das formas mais profundas de opressão acontece quando o oprimido passa a enxergar a si mesmo com os olhos do opressor. Em vez de apenas sofrer a violência que vem de fora, ele incorpora aquela visão e começa a acreditar que ela é verdadeira.
Essa ideia ajuda a compreender por que tantas pessoas vivendo com HIV sentem vergonha antes mesmo de sofrer qualquer discriminação direta. A sociedade ensinou durante décadas que viver com HIV era motivo para culpa, vergonha e exclusão. Quando o diagnóstico chega, muitas pessoas não apenas lembram dessas mensagens; elas passam a acreditar que agora essas mensagens falam sobre elas.
A psicanálise também oferece uma importante contribuição para compreender esse sofrimento.
Sigmund Freud descreveu que, ao longo da vida, internalizamos regras, proibições, valores e julgamentos presentes na cultura. Essas vozes acabam formando aquilo que ele chamou de supereu, uma instância psíquica que observa, critica e julga constantemente nossas ações. Quando o diagnóstico de HIV acontece, esse juiz interno pode tornar-se extremamente severo. Ele acusa, condena, produz culpa e vergonha, mesmo quando não existe qualquer motivo racional para isso.
Não é o vírus dizendo que você vale menos.
É uma construção social falando através de você.
Essa diferença é fundamental.
Porque aquilo que foi aprendido também pode ser desaprendido.
Durante muito tempo, acreditou-se que viver com HIV significava uma sentença de morte. Hoje sabemos que isso não corresponde à realidade. Pessoas que fazem o tratamento corretamente podem ter excelente qualidade de vida e, quando atingem carga viral indetectável e a mantêm, não transmitem o HIV por via sexual. O conhecimento científico avançou de maneira extraordinária.
Entretanto, o preconceito não evolui na mesma velocidade que a ciência.
Ainda existem pessoas que associam HIV à culpa.
Ainda existem famílias que tratam o assunto como segredo.
Ainda existem profissionais despreparados.
Ainda existem relações afetivas destruídas pelo medo.
Mas existe algo que merece tanta atenção quanto o preconceito social: o preconceito que cada pessoa aprendeu a dirigir contra si mesma.
Talvez essa seja uma das maiores feridas deixadas pelo HIV.
Não porque o vírus produza vergonha.
Mas porque a sociedade ensinou que deveria produzir.
É justamente por isso que informação de qualidade é tão importante. Conhecer as formas de transmissão, compreender o tratamento, saber que pessoas com carga viral indetectável não transmitem o HIV por via sexual e entender que viver com HIV não diminui o valor de ninguém ajuda a desmontar crenças construídas ao longo de décadas.
No entanto, apenas a informação nem sempre é suficiente.
Muitas pessoas sabem racionalmente que não fizeram nada para merecer o HIV. Sabem que continuam sendo as mesmas pessoas. Sabem que podem viver bem. Mesmo assim, continuam sentindo vergonha.
Porque algumas dores não pertencem apenas ao campo do conhecimento.
Pertencem ao campo da história de vida.
Da culpa.
Da identidade.
Dos medos.
É nesse momento que a terapia pode desempenhar um papel importante. Não para ensinar alguém a “aceitar o HIV”, como se o problema fosse apenas o diagnóstico, mas para ajudar a reconhecer quais ideias sobre o HIV foram construídas ao longo da vida e continuam produzindo sofrimento. A terapia oferece um espaço para compreender que o julgamento mais duro, muitas vezes, não vem da família, dos amigos ou da sociedade. Ele vem daquele juiz interno que aprendeu, durante anos, quem merecia respeito e quem deveria ser excluído.
Ao compreender esse processo, muitas pessoas descobrem algo profundamente libertador.
Elas nunca deixaram de ser quem eram.
O HIV não destruiu sua identidade.
O que precisava ser reconstruído não era a pessoa.
Era a maneira como ela havia aprendido a olhar para si mesma.
Talvez seja por isso que tantas pessoas afirmam que o momento mais importante de sua trajetória não foi apenas começar o tratamento medicamentoso. Foi começar a abandonar o preconceito que carregavam dentro de si.
Porque existe uma diferença enorme entre viver com HIV e viver acreditando em tudo o que a sociedade disse sobre quem vive com HIV.
E essa diferença pode mudar completamente uma vida.
Referências teóricas
- Paulo Freire. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
- Sigmund Freud. O Ego e o Id; O Mal-Estar na Civilização.
- Parker, R.; Aggleton, P. HIV and AIDS-related stigma and discrimination: a conceptual framework and implications for action. Social Science & Medicine.
- Ministério da Saúde. Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e IST. Publicações sobre estigma, discriminação e cuidado integral às pessoas vivendo com HIV.
- Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Pesquisas sobre estigma, vulnerabilidade social e saúde mental de pessoas vivendo com HIV.
- Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA). Publicações sobre direitos humanos, estigma e discriminação relacionados ao HIV.
- Seffner, F.; Parker, R. Produções brasileiras sobre estigma, direitos humanos e HIV publicadas em periódicos nacionais de saúde coletiva.
- Artigos publicados na Revista de Saúde Pública, Cadernos de Saúde Pública e Ciência & Saúde Coletiva abordando estigma, discriminação, saúde mental e qualidade de vida de pessoas vivendo com HIV no contexto brasileiro.

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