Por que algumas pessoas vivendo com HIV abandonam o tratamento mesmo sabendo que ele funciona?

Parar o tratamento nem sempre significa falta de informação. Às vezes, significa cansaço, medo, vergonha, dificuldades práticas ou simplesmente não conseguir lidar mais com tudo aquilo naquele momento. E, para quem interrompeu, existe uma mensagem importante: você pode voltar.

Durante décadas, uma das maiores batalhas contra o HIV foi conseguir medicamentos capazes de controlar o vírus. Hoje, a terapia antirretroviral (TARV) consegue suprimir a replicação do HIV, preservar o sistema imunológico e permitir que pessoas vivendo com HIV tenham qualidade e expectativa de vida cada vez mais próximas às da população geral.

No Brasil, o tratamento é disponibilizado gratuitamente pelo SUS. Quando a carga viral permanece indetectável, além dos benefícios para a própria saúde, não há transmissão sexual do HIV — Indetectável = Intransmissível (I=I). (Serviços e Informações do Brasil)

Então surge uma pergunta aparentemente simples:

Se o tratamento funciona tão bem, por que algumas pessoas param?

A resposta também não é simples.

Abandonar o tratamento não significa necessariamente “não se importar”

Uma revisão sistemática publicada em 2024 analisou estudos sobre os motivos pelos quais pessoas vivendo com HIV se afastam do tratamento.

Os pesquisadores encontraram uma combinação de fatores: efeitos adversos ou dificuldades com os medicamentos, problemas de saúde mental, uso de substâncias, estigma, preocupação com a confidencialidade, falta de apoio familiar ou social, dificuldades financeiras, transporte, trabalho, distância do serviço, longas esperas e experiências negativas com profissionais de saúde.

E muitas vezes não existe apenas um motivo. Vários problemas vão se acumulando até que algum acontecimento — uma viagem, mudança de cidade, perda do emprego, conflito familiar ou outra dificuldade — desencadeia a interrupção. (PubMed Central (PMC))

Ou seja:

nem sempre alguém decide simplesmente “não vou mais me tratar”.

Às vezes, a pessoa vai faltando a uma consulta, depois deixa de buscar a medicação, passa uma semana sem tomar, sente vergonha de voltar e, quando percebe, meses se passaram.

Existe também o cansaço do tratamento

Há um fenômeno estudado na literatura chamado treatment fatigue, ou fadiga do tratamento.

É importante lembrar que estamos falando de uma medicação que precisa fazer parte da vida da pessoa continuamente. Mesmo alguém que entende perfeitamente a importância da TARV pode, em determinado momento, sentir exaustão de ter de pensar no HIV todos os dias.

Uma revisão sistemática identificou elementos como perda de motivação para manter o tratamento e o peso psicológico de seguir continuamente uma rotina terapêutica. (PubMed)

Isso ajuda a derrubar uma ideia bastante injusta:

“Se a pessoa parou de tomar o medicamento, é porque é irresponsável.”

Não necessariamente.

Adesão é um comportamento humano e pode ser afetada por questões emocionais, sociais, econômicas e pelo próprio funcionamento do sistema de saúde.

Uma revisão e meta-análise publicada recentemente, reunindo 85 ensaios randomizados e 16.401 participantes, encontrou melhores resultados quando as intervenções para adesão consideravam tanto as percepções e preocupações das pessoas sobre os medicamentos quanto as dificuldades práticas para tomá-los. (PubMed)

Mandar simplesmente alguém “tomar o remédio direito” pode não resolver o problema.

É preciso descobrir o que está tornando difícil continuar tomando.

O estigma também pode afastar pessoas do tratamento

Essa talvez seja uma das contradições mais dolorosas do HIV.

O tratamento pode fazer com que uma pessoa fique indetectável e não transmita sexualmente o vírus, mas o preconceito contra o diagnóstico ainda pode dificultar o acesso ao próprio tratamento.

Uma grande revisão envolvendo 75 estudos e mais de 26 mil pessoas vivendo com HIV em 32 países encontrou evidências de que o estigma pode prejudicar a adesão por diferentes caminhos, incluindo estigma internalizado, necessidade de esconder o diagnóstico e perda de apoio social. (PubMed Central (PMC))

A UNAIDS também reconhece o estigma e a discriminação como barreiras importantes ao acesso e à permanência nos serviços relacionados ao HIV. (UNAIDS)

Imagine alguém que esconde o diagnóstico dentro de casa.

Buscar medicamentos pode significar inventar uma desculpa.

Tomar o comprimido pode exigir escondê-lo.

Ir ao serviço pode provocar medo de encontrar alguém conhecido.

Falar sobre uma dificuldade com o tratamento pode significar revelar algo que a pessoa ainda não conseguiu contar a ninguém.

O medicamento pode ser gratuito. O caminho emocional até ele, nem sempre.

E existe uma situação sobre a qual quase ninguém fala: a vergonha de voltar

Uma pessoa fica alguns meses sem buscar a medicação.

Ela sabe que deveria voltar.

Mas começa a imaginar:

“O que o médico vai pensar de mim?”

“Vão me dar bronca?”

“Como vou explicar que fiquei todo esse tempo sem tomar?”

“Estraguei meu tratamento?”

“Será que vão me julgar?”

Essa vergonha pode transformar algumas semanas sem tratamento em meses ou anos longe do serviço.

É justamente por isso que a Organização Mundial da Saúde publicou orientações específicas sobre reengajamento ao tratamento do HIV.

A OMS defende uma abordagem centrada na pessoa, procurando entender por que ela se afastou e oferecendo apoio adequado às suas necessidades para que consiga permanecer novamente no cuidado. (Organização Mundial da Saúde)

A lógica deveria ser:

“Que bom que você voltou. Vamos descobrir juntos como continuar daqui para frente.”

E não:

“Por que você fez isso?”

O próprio Brasil está tentando trazer essas pessoas de volta

Isso não é um problema invisível para o sistema de saúde brasileiro.

O Ministério da Saúde mantém o Sistema de Monitoramento Clínico das Pessoas Vivendo com HIV/aids (Simc), que permite aos serviços identificar pessoas que poderiam estar em tratamento e não estão, além de acompanhar situações de carga viral detectável para organizar estratégias de cuidado. (Serviços e Informações do Brasil)

O Ministério já reconheceu publicamente que um dos desafios do país é revincular ao cuidado pessoas que interromperam o tratamento. (Serviços e Informações do Brasil)

Em 2026, essa preocupação ganhou ainda mais importância.

O Circuito Rápido de Aids Avançada, atualmente em processo de expansão nacional, inclui explicitamente entre as pessoas que devem receber atenção aquelas que retornam ao serviço depois de uma interrupção do tratamento e apresentam imunossupressão importante. (Serviços e Informações do Brasil)

Portanto, voltar não é uma situação excepcional.

O sistema de saúde sabe que pessoas interrompem e retornam ao tratamento.

O que acontece quando o tratamento é interrompido?

Os antirretrovirais impedem que o HIV continue se replicando de maneira descontrolada.

Quando o tratamento é interrompido, a supressão viral pode ser perdida e a carga viral voltar a subir. Com o tempo, isso pode comprometer novamente o sistema imunológico e aumentar o risco de problemas relacionados ao HIV.

Dependendo da situação, também existe preocupação com falha virológica e resistência aos medicamentos.

O protocolo brasileiro prevê avaliação da carga viral e, em determinadas situações de falha virológica, testes de genotipagem para investigar resistência e orientar a escolha do tratamento. (Serviços e Informações do Brasil)

Mas isso precisa ser entendido corretamente:

ter interrompido o tratamento não significa automaticamente que os medicamentos deixaram de funcionar para você.

A situação precisa ser avaliada individualmente pelo serviço de saúde.

Por isso, se você está há semanas, meses ou até anos sem tratamento, não tente decidir sozinho qual medicamento tomar ou simplesmente reutilizar comprimidos antigos sem avaliação profissional.

Procure novamente o serviço.

“Mas faz muito tempo. Tenho vergonha de voltar.”

Talvez esta seja a parte mais importante desta matéria.

Se você começou a ler porque interrompeu seu tratamento, saiba:

você não precisa estar indetectável para merecer acolhimento.

Você não precisa inventar uma justificativa perfeita.

Não precisa esperar “segunda-feira”.

Não precisa esperar começar um novo mês.

E não precisa primeiro resolver todos os outros problemas da sua vida.

Você pode simplesmente chegar ao serviço e dizer:

“Eu interrompi meu tratamento e quero voltar.”

Isso já é suficiente para iniciar a conversa.

A equipe poderá avaliar há quanto tempo ocorreu a interrupção, quais medicamentos você utilizava, sua carga viral, situação imunológica, possíveis efeitos adversos, interações e se existe necessidade de exames ou alguma mudança no acompanhamento.

“E se me derem uma bronca?”

Profissionais de saúde podem orientar sobre os riscos de interromper o tratamento. Isso faz parte do cuidado.

Humilhar, constranger ou transformar o retorno em punição não deveria fazer parte dele.

Inclusive, os indicadores de qualidade utilizados pelo Ministério da Saúde avaliam aspectos relacionados ao acolhimento de pessoas com dificuldades no uso da medicação, busca de usuários que interromperam o acompanhamento e questões envolvendo estigma e discriminação nos serviços. (Serviços e Informações do Brasil)

Se alguma experiência ruim com um profissional foi justamente o motivo que fez você se afastar, isso também merece ser dito.

Talvez a pergunta correta não seja “por que você abandonou?”

Talvez seja:

“O que aconteceu na sua vida para que continuar o tratamento tenha ficado tão difícil?”

Pode ter sido depressão.

Pode ter sido efeito adverso.

Pode ter sido álcool ou outras drogas.

Pode ter sido mudança de cidade.

Pode ter sido dificuldade financeira.

Pode ter sido medo de alguém descobrir.

Pode ter sido um relacionamento abusivo.

Pode ter sido uma experiência ruim no serviço.

Pode ter sido simplesmente cansaço.

E entender essa resposta pode ser tão importante quanto entregar novamente uma caixa de medicamentos.

Se você interrompeu o tratamento, volte

Talvez sua carga viral tenha voltado a ficar detectável.

Talvez seja necessário repetir exames.

Talvez sua equipe precise rever seu tratamento.

Mas nenhuma dessas possibilidades melhora adiando o retorno.

Você não precisa esperar adoecer para voltar ao cuidado.

E existe algo especialmente importante nisso tudo:

voltar ao tratamento depois de uma interrupção não é voltar para o começo. É continuar a partir de onde você está hoje.

A ciência já fez sua parte ao transformar o HIV em uma infecção tratável.

Agora os serviços de saúde precisam fazer a deles: garantir que quem se afastou encontre uma porta aberta para voltar.

E nós, enquanto sociedade, precisamos parar de tratar interrupções do tratamento como falha moral.

Porque uma pessoa não precisa de julgamento para voltar ao cuidado.

Precisa de acesso, informação e acolhimento.

Referências principais

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Supporting re-engagement in HIV treatment services, 2024. (Organização Mundial da Saúde)
  • Ehrenkranz P. et al. Revisão sistemática sobre motivos de afastamento do cuidado antirretroviral na era Treat All. (PubMed Central (PMC))
  • Moon Z. et al. Interventions to increase adherence to antiretroviral therapy in people living with HIV – what works? AIDS Care, 2026. Revisão sistemática e meta-análise de 85 ensaios randomizados. (PubMed)
  • Katz I.T. et al. Impact of HIV-related stigma on treatment adherence: systematic review and meta-synthesis. (PubMed Central (PMC))
  • Claborn K.R. et al. A systematic review of treatment fatigue among HIV-infected patients prescribed antiretroviral therapy. (PubMed)
  • Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos – Módulo 1: Tratamento. (Serviços e Informações do Brasil)
  • Ministério da Saúde. Circuito Rápido de Aids Avançada, atualizado em julho de 2026. (Serviços e Informações do Brasil)
  • Ministério da Saúde. Sistema de Monitoramento Clínico das Pessoas Vivendo com HIV/aids (Simc). (Serviços e Informações do Brasil)