Por que mulheres que ficam com outras mulheres nem sempre são lésbicas?

Durante muito tempo, a sociedade acreditou que qualquer mulher que tivesse relações afetivas ou sexuais com outra mulher deveria ser automaticamente considerada lésbica. No entanto, pesquisas em psicologia, sociologia, antropologia e estudos de gênero mostram que a realidade é mais complexa do que essa associação direta.

A ideia de que comportamento sexual e identidade sexual são exatamente a mesma coisa é relativamente recente na história da humanidade. Hoje, a ciência compreende que desejo, comportamento e identidade são dimensões relacionadas, mas não necessariamente idênticas.

Nem sempre existiram lésbicas, héteros e bissexuais

Pode parecer estranho, mas as categorias que utilizamos atualmente para falar sobre sexualidade não existiram durante a maior parte da história humana.

Até o final do século XIX, as pessoas não eram classificadas principalmente pela identidade sexual que possuíam. O foco estava nos comportamentos considerados aceitáveis ou inadequados pela moral da época.

Foi apenas entre o final dos anos 1800 e o início dos anos 1900 que médicos, juristas e cientistas passaram a criar categorias para classificar indivíduos de acordo com seus desejos e práticas afetivas e sexuais. Nesse contexto surgiram conceitos como “heterossexual”, “homossexual” e, posteriormente, as demais identidades que utilizamos hoje.

Antes disso, uma mulher poderia estabelecer relações íntimas com outra mulher sem que isso necessariamente definisse quem ela era.

A sexualidade feminina foi historicamente invisibilizada

Quando analisamos a história da sexualidade, encontramos uma diferença importante entre a forma como homens e mulheres foram observados pela sociedade.

Durante séculos, o desejo feminino foi frequentemente ignorado ou tratado como secundário. Muitas culturas enxergavam as mulheres principalmente através de papéis ligados ao casamento, à maternidade e à família, enquanto seus desejos pessoais recebiam pouca atenção.

Como consequência, relações entre mulheres muitas vezes não eram sequer reconhecidas como relações amorosas ou sexuais legítimas. Em diversos períodos históricos, acreditava-se que duas mulheres não poderiam manter uma relação sexual “verdadeira” sem a presença de um homem, revelando o quanto a sexualidade feminina era interpretada a partir de referências masculinas.

Essa invisibilização ajuda a explicar por que a experiência das mulheres nem sempre foi compreendida da mesma forma que a dos homens.

A aparente aceitação das relações entre mulheres

Muitas pessoas observam que, em determinados contextos, duas mulheres se beijando parecem provocar menos reações negativas do que dois homens fazendo a mesma coisa.

À primeira vista, isso pode parecer um sinal de maior aceitação social. Entretanto, pesquisadores dos estudos de gênero argumentam que essa diferença frequentemente está associada ao machismo e à objetificação da sexualidade feminina.

Em uma cultura onde o olhar masculino ocupa posição central, a intimidade entre mulheres muitas vezes foi transformada em fantasia ou entretenimento para homens, em vez de ser reconhecida como expressão legítima de afeto, desejo ou relacionamento.

Por outro lado, relações entre homens desafiam de forma mais direta expectativas tradicionais sobre masculinidade, o que historicamente produziu formas mais explícitas de rejeição e preconceito.

Isso significa que a aparente tolerância direcionada às relações entre mulheres nem sempre representa reconhecimento genuíno de suas experiências e identidades.

Michel Foucault e a construção das identidades sexuais

O filósofo francês Michel Foucault analisou como a sociedade moderna passou a transformar comportamentos em identidades.

Segundo Foucault, durante muito tempo determinadas práticas eram vistas apenas como atos. Com o surgimento das ciências modernas da sexualidade, esses comportamentos passaram a ser interpretados como características centrais da personalidade.

Em uma de suas análises mais conhecidas, Foucault afirma que o “sodomita” era compreendido como alguém que realizava determinado ato, enquanto o “homossexual” passou a ser entendido como um tipo específico de pessoa.

Essa mudança alterou profundamente a maneira como passamos a compreender a sexualidade e as identidades afetivas.

Desejo, comportamento e identidade não são a mesma coisa

Atualmente, pesquisadores costumam diferenciar três dimensões da sexualidade:

Comportamento

Refere-se às experiências e práticas vividas por uma pessoa.

Atração

Refere-se ao desejo, interesse afetivo ou interesse sexual por alguém.

Identidade

Refere-se à forma como a própria pessoa compreende e nomeia sua sexualidade.

Embora essas dimensões estejam relacionadas, elas não são necessariamente idênticas.

Por exemplo, uma mulher pode sentir atração por homens e mulheres e se identificar como bissexual. Outra pode ter vivido experiências com mulheres em determinado período da vida sem se identificar como lésbica. Algumas pessoas levam anos para compreender sua própria sexualidade, enquanto outras preferem não utilizar rótulos específicos.

A sexualidade humana nem sempre segue trajetórias lineares ou facilmente classificáveis.

A sexualidade feminina e a diversidade das experiências

Pesquisas contemporâneas apontam que a experiência afetiva e sexual das mulheres pode apresentar diferentes formas de expressão ao longo da vida.

Isso não significa que orientações sexuais sejam irrelevantes ou inexistentes. Pelo contrário. Significa apenas que a experiência humana é mais ampla do que definições baseadas exclusivamente em comportamentos isolados.

Uma única experiência não necessariamente determina uma identidade. Da mesma forma, a identidade de uma pessoa não pode ser definida por observadores externos sem considerar sua própria compreensão sobre si mesma.

O que a ciência entende hoje?

A compreensão contemporânea da sexualidade reconhece que desejo, comportamento e identidade são aspectos relacionados, mas distintos.

Por isso, afirmar que toda mulher que fica com outra mulher é automaticamente lésbica simplifica excessivamente uma realidade que envolve fatores psicológicos, sociais, culturais e históricos.

Mais do que enquadrar pessoas em categorias rígidas, a psicologia, a sociologia e os estudos de gênero procuram compreender como cada indivíduo constrói sua própria identidade ao longo da vida.

Reconhecer essa complexidade não significa negar a existência das orientações sexuais. Significa compreender que a experiência humana é diversa e que nem sempre um único comportamento é suficiente para definir quem alguém é.

Referências teóricas

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Graal.

FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade.

RICH, Adrienne. Heterossexualidade Compulsória e Existência Lésbica.

KATZ, Jonathan Ned. The Invention of Heterosexuality.

AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION (APA). Sexual Orientation and Homosexuality.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Sexual Health, Human Rights and the Law.

RUBIN, Gayle. Thinking Sex: Notes for a Radical Theory of the Politics of Sexuality.