Nem toda pessoa que sofreu abuso na infância terá dificuldades para construir relacionamentos. No entanto, décadas de pesquisas mostram que experiências traumáticas na infância aumentam significativamente o risco de desafios na vida afetiva, familiar e social. A explicação não está em uma “personalidade defeituosa”, mas nas adaptações que o cérebro e a mente desenvolvem para sobreviver.
O que dizem as pesquisas
As evidências científicas são consistentes ao demonstrar que experiências de abuso e negligência na infância repercutem na forma como as pessoas constroem vínculos afetivos na vida adulta.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada na revista Trauma, Violence, & Abuse, que reuniu 28 estudos, concluiu que pessoas que sofreram maus-tratos na infância apresentam, em média, maior risco de desenvolver dificuldades nos relacionamentos amorosos, menor satisfação conjugal, mais conflitos e maior sofrimento emocional. Os pesquisadores destacam que essa associação é estatisticamente significativa, mas não significa que todas as vítimas desenvolverão esses problemas. O trauma aumenta o risco, mas não determina o destino de ninguém.
Esses achados reforçam uma ideia importante: as dificuldades nos relacionamentos não são sinal de fraqueza ou incapacidade de amar. Em muitos casos, representam estratégias emocionais construídas para sobreviver em ambientes que não ofereceram segurança durante a infância. (PubMed)
O cérebro aprende a sobreviver
Durante a infância, o cérebro está em intensa formação. Quando uma criança cresce em um ambiente seguro, aprende que as pessoas podem ser fonte de proteção, acolhimento e confiança.
Já quando vive situações de abuso físico, psicológico, emocional ou sexual, o cérebro passa a priorizar a sobrevivência. Em vez de perguntar “quem pode me amar?”, ele aprende a perguntar “quem pode me machucar?”.
Esse estado constante de alerta pode permanecer mesmo muitos anos após o fim do abuso.
Pesquisas em neurociência mostram que traumas precoces podem alterar o funcionamento de regiões como a amígdala, responsável pela detecção de ameaças, o hipocampo, relacionado às memórias, e o córtex pré-frontal, importante para o controle emocional e a tomada de decisões.
A confiança deixa de ser algo natural
Grande parte dos abusos infantis acontece dentro do próprio ambiente familiar ou é cometida por pessoas conhecidas da criança.
Isso cria uma contradição extremamente difícil de elaborar: justamente quem deveria oferecer proteção se torna fonte de medo.
Como consequência, muitos adultos passam a acreditar, mesmo sem perceber, que amar significa correr riscos.
Essa crença pode aparecer de diferentes formas:
- dificuldade para confiar nas pessoas;
- medo intenso de abandono;
- necessidade constante de aprovação;
- afastamento emocional para evitar sofrimento;
- dificuldade para acreditar que alguém possa amar sem machucar.
A teoria do apego ajuda a explicar
John Bowlby demonstrou que as primeiras relações da infância influenciam profundamente a maneira como construímos vínculos ao longo da vida.
Quando essas relações são marcadas por violência ou negligência, é mais provável que a pessoa desenvolva padrões inseguros de apego.
Na prática, isso pode significar:
- evitar intimidade;
- sentir medo constante de perder quem ama;
- alternar entre querer proximidade e afastar as pessoas;
- interpretar conflitos comuns como sinais de rejeição definitiva.
Esses comportamentos normalmente representam tentativas de proteção, e não falta de amor.
O trauma muda a forma de interpretar o mundo
O trauma não altera apenas as lembranças. Ele modifica também a forma como o cérebro interpreta situações do cotidiano.
Uma mensagem respondida horas depois pode ser percebida como abandono.
Uma discussão simples pode ser vivida como ameaça.
Um gesto neutro pode ser interpretado como rejeição.
Isso acontece porque o cérebro traumatizado tende a detectar perigos com muito mais rapidez do que cérebros que cresceram em ambientes seguros.
Vergonha e culpa permanecem por muitos anos
Muitas crianças vítimas de abuso crescem acreditando que fizeram algo errado ou que não eram boas o suficiente para serem protegidas.
Mesmo sabendo racionalmente que não tiveram culpa, essas marcas emocionais podem permanecer na vida adulta.
Isso costuma afetar:
- autoestima;
- sensação de pertencimento;
- capacidade de receber carinho;
- crença de que merece ser amado.
A repetição dos relacionamentos
Na psicanálise, existe o conceito da compulsão à repetição, descrito por Sigmund Freud. Experiências traumáticas que não puderam ser elaboradas podem reaparecer, de forma inconsciente, nas relações futuras.
Isso não significa que a pessoa “goste de sofrer”. Significa que o psiquismo tenta dar sentido a experiências que permaneceram sem elaboração.
Por isso, algumas pessoas acabam escolhendo parceiros emocionalmente indisponíveis, controladores ou abusivos, enquanto outras evitam qualquer vínculo profundo por medo de reviver a dor.
Sándor Ferenczi foi um dos primeiros psicanalistas a descrever como o abuso infantil compromete a confiança básica na relação com o outro. Mais recentemente, Susana Toporosi, em Em Carne Viva, aprofunda essa compreensão ao mostrar como o abuso sexual na infância pode deixar marcas profundas na identidade, na construção do desejo e na capacidade de estabelecer vínculos seguros.
A boa notícia: é possível construir novas formas de se relacionar
Embora o trauma deixe marcas importantes, ele não determina o futuro.
Pesquisas mostram que relações seguras, apoio social, experiências repetidas de acolhimento e processos de elaboração do trauma podem transformar padrões emocionais construídos ao longo da infância.
A neuroplasticidade demonstra que o cérebro continua capaz de criar novas conexões durante toda a vida. Já a psicanálise compreende que experiências traumáticas podem adquirir novos significados quando encontram um espaço de escuta e elaboração.
Isso significa que é possível aprender, aos poucos, que intimidade não precisa significar perigo.
Conclusão
As dificuldades de relacionamento observadas em muitas pessoas que sofreram abuso na infância não são sinal de fraqueza nem de incapacidade para amar.
Na maioria das vezes, representam estratégias de sobrevivência desenvolvidas por uma criança que precisou encontrar maneiras de continuar vivendo diante de experiências profundamente dolorosas.
Com tempo, acolhimento e um espaço de escuta qualificada, essas estratégias podem ser ressignificadas. O passado influencia a forma como nos relacionamos, mas não precisa definir quem seremos pelo resto da vida.
Referências científicas e psicanalíticas
- John Bowlby. Attachment and Loss.
- Mary Ainsworth. Estudos sobre teoria do apego.
- Bessel van der Kolk. The Body Keeps the Score.
- Vincent J. Felitti et al. Adverse Childhood Experiences (ACE) Study.
- Martin H. Teicher. Pesquisas sobre neurobiologia do trauma infantil.
- Sigmund Freud. Além do Princípio do Prazer (1920) e textos sobre compulsão à repetição.
- Sándor Ferenczi. Confusão de Línguas entre os Adultos e a Criança (1933).
- Donald W. Winnicott. Estudos sobre desenvolvimento emocional primitivo e ambiente suficientemente bom.
- Susana Toporosi. Em Carne Viva: Abuso Sexual de Crianças e Adolescentes.
- Marie-Pier Vaillancourt-Morel et al. Partner Effects of Childhood Maltreatment: A Systematic Review and Meta-Analysis. Trauma, Violence, & Abuse, 2024.

Você precisa estar logado para comentar.
Entrar para comentar