“Foi misoginia.”
“Foi misandria.”
“Foi homofobia.”
“Foi transfobia.”
“Foi cisfobia.”
“Foi sorofobia.”
Essas palavras existem porque precisamos dar nome a preconceitos e violências reais. Nomear aquilo que acontece conosco pode ser inclusive uma forma de compreender que determinadas experiências não são apenas individuais.
Mas existe uma pergunta desconfortável que também precisamos fazer:
Será que tudo que nos incomoda é preconceito?
Às vezes, somos realmente discriminados.
Em outras, fomos contrariados, rejeitados, criticados ou simplesmente encontramos alguém que não gosta de nós.
E distinguir uma coisa da outra não diminui a existência do preconceito. Pelo contrário: ajuda a entender exatamente onde ele está.
Primeiro, precisamos saber do que estamos falando
Antes de chamar alguma situação de preconceito, precisamos compreender os conceitos.
Misoginia
É a hostilidade, desprezo, aversão ou inferiorização direcionada às mulheres por serem mulheres.
Pode aparecer de maneira explícita, mas também através de estereótipos, práticas discriminatórias e formas de sexismo.
Portanto, uma mulher sofrer uma agressão não significa automaticamente que sofreu misoginia.
A pergunta necessária é:
o fato de ela ser mulher foi determinante para a agressão?
Misandria
É um termo utilizado para descrever aversão, desprezo ou hostilidade direcionada aos homens enquanto homens.
Assim como no exemplo anterior, uma crítica a um homem não se transforma automaticamente em misandria.
Um homem pode estar errado.
Pode ser desagradável.
Pode ser criticado.
A questão é identificar quando sua condição de homem se transforma na justificativa para generalizações, inferiorização ou hostilidade.
Homofobia
Refere-se a atitudes negativas, preconceito, discriminação ou hostilidade relacionados à homossexualidade ou às pessoas homossexuais.
Discordar de um homem gay não é necessariamente homofobia.
Dizer que ele está errado não é necessariamente homofobia.
Transformar sua orientação sexual em justificativa para inferiorizá-lo, excluí-lo ou generalizar seu comportamento para todos os gays entra em outro território.
Bifobia
É o preconceito, estigma ou discriminação contra pessoas bissexuais.
Pode inclusive aparecer dentro da própria população LGBT, através de ideias como a de que pessoas bissexuais seriam “confusas”, “indecisas” ou inevitavelmente infiéis.
Pertencer a uma minoria sexual não impede alguém de reproduzir preconceito contra outra.
Transfobia
É o preconceito, discriminação, hostilidade ou violência direcionados a pessoas trans por sua identidade ou expressão de gênero.
Ela também possui dimensões sociais e institucionais documentadas, como barreiras no trabalho, saúde, educação e outros espaços.
Mas uma pessoa trans também pode ser criticada por algo que fez.
Criticar o comportamento de uma pessoa trans não é automaticamente transfobia.
A pergunta continua sendo: ela está sendo atacada pelo comportamento ou porque é trans?
Cisfobia
“Cisfobia” é um termo utilizado, sobretudo em discussões sociais e na internet, para descrever aversão, hostilidade ou preconceito contra pessoas cisgênero por serem cis.
É importante, entretanto, fazer uma distinção.
O termo não possui na literatura acadêmica o mesmo desenvolvimento nem o mesmo consenso que conceitos como transfobia, e hostilidade interpessoal contra pessoas cis não deve ser automaticamente equiparada às dimensões históricas e estruturais documentadas da transfobia.
Isso não significa que uma pessoa cis não possa ser hostilizada por sua identidade.
Significa apenas que fenômenos diferentes não precisam ser considerados idênticos para serem discutidos.
Sorofobia ou serofobia
É o preconceito, estigma, discriminação ou hostilidade relacionados ao HIV ou às pessoas vivendo com HIV.
Pode aparecer no trabalho, nos serviços de saúde, na família e principalmente nas relações afetivas e sexuais.
“Não me relaciono com quem tem HIV.”
“Quem vive com HIV foi irresponsável.”
“Tenho medo de beber no mesmo copo.”
“Se tem HIV, deveria avisar todo mundo.”
Aqui não estamos simplesmente diante de uma discordância. Podemos estar diante de crenças construídas historicamente pelo estigma associado ao HIV.
Mas existe uma parte particularmente desconfortável dessa discussão:
sofrer sorofobia não impede uma pessoa vivendo com HIV de reproduzir outros preconceitos.
Eu sofro preconceito. Logo, tudo é preconceito?
Aqui a discussão começa a ficar mais difícil.
Imagine alguém que passou anos sofrendo rejeição por viver com HIV.
Foi rejeitado em aplicativos.
Ouviu piadas.
Teve medo de contar seu diagnóstico.
Foi tratado como perigoso.
Essa pessoa possui razões concretas para estar alerta ao preconceito.
Mas imagine que, depois de tantas experiências, ela passe a interpretar qualquer rejeição como sorofobia.
Alguém não quis continuar conversando?
“É porque tenho HIV.”
Não respondeu a mensagem?
“Descobriu meu diagnóstico.”
Terminou o relacionamento?
“É sorofobia.”
Fez uma crítica?
“Está me atacando porque vivo com HIV.”
Pode ser.
Mas também pode não ser.
Pessoas vivendo com HIV também podem ser rejeitadas simplesmente porque o outro não se interessou.
Também podemos ser inconvenientes.
Também podemos errar.
Também podemos machucar alguém.
Também podemos receber uma crítica justa.
O HIV não explica tudo que acontece conosco.
Quando uma ferida começa a interpretar o mundo
Existe uma diferença entre reconhecer uma violência e passar a esperar violência em toda relação.
Experiências repetidas de estigmatização podem produzir expectativas de rejeição. Pesquisas sobre rejection sensitivity mostram justamente como experiências de rejeição podem levar pessoas a esperar, perceber rapidamente e reagir intensamente a sinais de novas rejeições.
Isso não significa que o preconceito esteja “na cabeça” da vítima.
O preconceito pode ter produzido justamente essa vigilância.
Mas existe uma pergunta importante:
quando estou identificando uma violência real e quando uma ferida antiga está ajudando a interpretar uma situação nova?
As duas possibilidades podem existir.
E onde entra o narcisismo?
Narcisismo aqui não significa simplesmente “gostar demais de si mesmo”.
Na tradição psicanalítica, o conceito é muito mais complexo e envolve a relação do sujeito consigo, com seu investimento no próprio eu e com aquilo que ameaça sua imagem e sua posição.
Em O Mal-Estar na Civilização, Freud também recupera uma expressão especialmente interessante: o narcisismo das pequenas diferenças.
Grupos próximos podem enfatizar diferenças relativamente pequenas e utilizá-las como fronteiras para hostilidade.
Mulher contra homem.
Homem contra mulher.
Gay contra hétero.
Trans contra cis.
Cis contra trans.
Pessoa vivendo com HIV contra pessoa que não vive com HIV.
E gradualmente surge:
“o meu grupo” e “o grupo deles”.
Quando isso acontece, podemos parar de avaliar aquilo que uma pessoa fez e começar a enxergar apenas aquilo que ela é.
Talvez eu não esteja sendo atacado
Essa talvez seja uma das frases mais difíceis de aceitar:
nem tudo é sobre mim.
Às vezes alguém discorda da minha opinião porque minha opinião é discutível.
Às vezes alguém não quer se relacionar comigo porque não sentiu desejo.
Às vezes uma pessoa critica meu comportamento porque eu realmente fui inconveniente.
Às vezes alguém não gosta de mim.
E nenhuma dessas situações precisa necessariamente ser explicada pela minha condição de homem, mulher, gay, hétero, trans, cis ou pessoa vivendo com HIV.
Existe algo narcísico na fantasia de que nossa identidade explica todas as reações das outras pessoas.
Às vezes o outro não está atacando aquilo que eu sou. Está reagindo àquilo que eu fiz.
Paulo Freire: o oprimido não nasce imune à opressão
Aqui Paulo Freire nos oferece uma reflexão importante.
Existe uma frase muito compartilhada atribuída a ele: “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.
Essa frase, dessa maneira, não aparece literalmente em Pedagogia do Oprimido.
O pensamento de Freire é mais complexo.
Ele discute como pessoas submetidas à opressão podem internalizar a lógica do opressor. A libertação, portanto, não deveria significar simplesmente inverter posições.
Isso produz uma reflexão extremamente atual.
Uma mulher que sofreu misoginia pode reproduzir homofobia.
Um homem gay que sofreu homofobia pode reproduzir misoginia.
Uma pessoa trans que sofreu transfobia pode hostilizar pessoas cis.
Uma pessoa cis pode reproduzir transfobia.
Uma pessoa vivendo com HIV que sofreu sorofobia pode reproduzir racismo, misoginia, homofobia ou transfobia.
Sofrer não nos torna automaticamente incapazes de fazer outra pessoa sofrer.
O perigo de transformar sofrimento em autoridade moral
Talvez exista uma armadilha ainda maior:
“Eu fui oprimido, portanto estou sempre certo.”
Não.
Uma história de sofrimento merece ser escutada.
Uma experiência de discriminação precisa ser levada a sério.
Mas nenhuma identidade transforma uma pessoa em autoridade moral absoluta.
Se alguém pertencente a um grupo discriminado pratica uma violência, apontar essa violência não apaga a discriminação que esse grupo sofre.
É possível sustentar duas verdades simultaneamente:
uma pessoa pode ser vítima em determinada relação e agressora em outra.
Nem toda agressão contra uma mulher é misoginia
Pense em uma situação concreta.
Uma mulher manifesta preconceito contra pessoas vivendo com HIV.
Uma pessoa vivendo com HIV reage agressivamente contra ela.
A reação pode estar errada.
Pode ser ofensiva.
Pode ser desproporcional.
Mas isso significa automaticamente misoginia?
Não.
Precisamos perguntar:
ela foi atacada porque é mulher ou porque manifestou determinado comportamento?
Se a agressão utiliza sua condição de mulher para inferiorizá-la, sexualizá-la, desumanizá-la ou reproduzir estereótipos contra mulheres, podemos encontrar elementos misóginos.
Mas se a motivação é outra, chamar automaticamente a situação de misoginia pode impedir justamente a compreensão do que aconteceu.
Uma agressão não precisa receber o nome de misoginia para continuar sendo uma agressão.
O mesmo vale para todos nós
Uma pessoa trans pode agir mal sem que apontar isso seja transfobia.
Um homem pode agir mal sem que criticá-lo seja misandria.
Uma mulher pode agir mal sem que criticá-la seja misoginia.
Um gay pode agir mal sem que criticá-lo seja homofobia.
Uma pessoa vivendo com HIV pode agir mal sem que criticá-la seja sorofobia.
Isso parece óbvio.
Mas quando nossa identidade foi muitas vezes utilizada contra nós, separar “estão criticando quem eu sou” de “estão criticando algo que eu fiz” pode se tornar muito mais difícil.
A pergunta talvez esteja errada
Passamos muito tempo perguntando:
Quem é o opressor?
Quem é o oprimido?
Talvez precisemos acrescentar:
O que aconteceu nessa situação específica?
A identidade da pessoa foi utilizada para inferiorizá-la?
Existe generalização sobre um grupo?
Existe uma estrutura social atuando?
Existe preconceito?
Ou existe simplesmente um conflito entre duas pessoas?
Reconhecer isso não enfraquece nossas lutas.
Pode torná-las mais precisas.
Porque se tudo é misoginia, podemos perder a capacidade de reconhecer a misoginia.
Se tudo é transfobia, podemos banalizar a transfobia.
Se toda rejeição a alguém vivendo com HIV é sorofobia, podemos deixar de enxergar quando a sorofobia realmente está acontecendo.
E se toda crítica que recebemos é preconceito, criamos uma posição muito confortável:
nunca precisamos olhar para nós mesmos.
Talvez seja aí que esteja a provocação mais importante.
Antes de perguntar:
“Qual preconceito essa pessoa tem contra mim?”
às vezes precisamos conseguir perguntar:
“Existe preconceito aqui ou existe alguma coisa em mim que eu também preciso olhar?”
Combater preconceito exige olhar para o outro.
Mas também exige coragem para olhar para o próprio narcisismo.
Referências
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Paz e Terra.
FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização (1930).
FREUD, Sigmund. Sobre o Narcisismo: uma introdução (1914).
TAJFEL, Henri; TURNER, John C. Trabalhos fundamentais sobre Teoria da Identidade Social e relações intergrupais.
HEWSTONE, Miles; RUBIN, Mark; WILLIS, Hazel. Intergroup Bias. Annual Review of Psychology, 2002.
RIEK, Blake M.; MANIA, Eric W.; GAERTNER, Samuel L. Intergroup Threat and Outgroup Attitudes: A Meta-Analytic Review. Personality and Social Psychology Review, 2006.
GLICK, Peter; FISKE, Susan T. The Ambivalent Sexism Inventory: Differentiating Hostile and Benevolent Sexism. Journal of Personality and Social Psychology, 1996.
DOWNEY, Geraldine; FELDMAN, Scott I. Implications of Rejection Sensitivity for Intimate Relationships. Journal of Personality and Social Psychology, 1996.
TURAN, Bulent et al. How Does Stigma Affect People Living with HIV? The Mediating Roles of Internalized and Anticipated HIV Stigma in the Effects of Perceived Community Stigma on Health and Psychosocial Outcomes. AIDS and Behavior, 2017.
UNAIDS. Materiais e relatórios sobre estigma e discriminação relacionados ao HIV.

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