Desde Quando Existem Lésbicas? A História do Amor Entre Mulheres Muito Antes da Palavra “Lésbica”

Quando alguém pergunta “desde quando existem lésbicas?”, a resposta depende do que se entende por “lésbica”.

Se a pergunta for sobre mulheres que sentiram desejo, afeto ou construíram relações amorosas com outras mulheres, a resposta é simples: provavelmente desde que existem seres humanos.

Se a pergunta for sobre a identidade social chamada “lésbica”, então a resposta é diferente. Essa é uma construção relativamente recente, desenvolvida principalmente entre os séculos XIX e XX, quando médicos, juristas e cientistas começaram a classificar pessoas de acordo com sua orientação sexual. Essa distinção é um dos principais consensos da historiografia contemporânea sobre sexualidade.  

O maior problema é a falta de registros

Ao estudar relações entre mulheres na Antiguidade, historiadores enfrentam uma dificuldade importante: quase toda a documentação disponível foi escrita por homens.

As sociedades antigas registravam guerras, política, religião e genealogias masculinas. A vida íntima das mulheres raramente era considerada digna de registro.

Por isso, a ausência de documentos não significa ausência de relações afetivas entre mulheres. Significa, sobretudo, que essas experiências foram muito menos documentadas.

A historiadora Judith Bennett chama esse fenômeno de um dos maiores desafios para reconstruir a história das mulheres que amaram outras mulheres. Em vez de procurar apenas “provas definitivas”, a pesquisa histórica precisa interpretar contextos sociais, literatura, leis e práticas culturais.  

Safo de Lesbos: o primeiro grande registro literário

A figura mais conhecida dessa história é Safo, poeta grega que viveu aproximadamente entre 630 e 570 a.C., na ilha de Lesbos.

Safo escreveu dezenas de poemas dedicados à beleza, ao desejo e ao amor por outras mulheres.

Embora apenas fragmentos de sua obra tenham sobrevivido, eles representam o registro literário mais importante da Antiguidade sobre o desejo feminino entre mulheres.

É justamente por causa dela que surgiram os termos:

  • lésbica (de Lesbos);
  • sáfico (de Safo).

Entretanto, muitos pesquisadores alertam que seria incorreto afirmar que Safo “era lésbica” no sentido moderno da palavra. Ela viveu em uma sociedade cuja compreensão sobre sexualidade era completamente diferente da atual. Ainda assim, existe amplo consenso de que sua poesia celebra o desejo entre mulheres.  

Relações entre mulheres existiam antes de Safo?

Muito provavelmente, sim.

A arqueologia e a antropologia indicam que vínculos afetivos e sexuais entre mulheres provavelmente sempre fizeram parte da diversidade humana.

O problema é que praticamente não existem documentos produzidos pelas próprias mulheres antes do período clássico grego.

Por isso, Safo não representa o “início” dessas relações.

Ela representa o primeiro grande testemunho literário preservado.

Egito Antigo

Ao contrário do que ocorre com relações entre homens, o Egito Antigo oferece poucos registros explícitos envolvendo duas mulheres.

Pesquisadores encontraram algumas imagens, inscrições e textos cuja interpretação permanece controversa.

Até hoje não existe consenso de que qualquer um desses documentos descreva claramente um casal feminino.

Por isso, historiadores evitam afirmar que há provas inequívocas de relações homoafetivas entre mulheres no Egito.

A ausência de evidências, entretanto, não é considerada evidência de ausência.

Grécia Antiga

Foi na Grécia que surgiram os registros mais ricos.

Além dos poemas de Safo, filósofos e dramaturgos demonstravam conhecer a existência de relações entre mulheres.

Entretanto, essas relações raramente eram o centro das discussões.

Grande parte da cultura grega valorizava muito mais as relações masculinas, especialmente em Atenas, o que explica a escassez de documentos sobre mulheres.

Sandra Boehringer, uma das principais especialistas no tema, afirma que a história da homoafetividade feminina na Antiguidade é marcada justamente pelos “silêncios” das fontes históricas.  

Roma Antiga

Os romanos também conheciam relações entre mulheres.

Alguns autores satirizavam mulheres consideradas excessivamente masculinas ou que preferiam outras mulheres.

Esses textos geralmente eram escritos por homens e carregados de preconceitos.

Por isso, historiadores utilizam essas fontes com bastante cautela.

Mesmo assim, elas demonstram que esse tipo de relação era conhecido na sociedade romana.

Idade Média

Durante a expansão do cristianismo europeu, a maior parte dos registros passou a ser produzida por instituições religiosas.

Nesse período, relações entre mulheres aparecem principalmente em:

  • penitenciais;
  • textos jurídicos;
  • documentos inquisitoriais.

Quase sempre esses documentos descrevem tais práticas como pecado.

Curiosamente, alguns historiadores observam que, em muitos períodos medievais, as relações entre mulheres receberam menos atenção das autoridades do que as relações entre homens, justamente porque muitos líderes religiosos sequer acreditavam que relações sem penetração constituíssem “sexo” propriamente dito.

Essa invisibilidade contribuiu para que muitos casos nunca fossem registrados.

Quando surgiu a palavra “lésbica”?

Embora tenha origem na ilha de Lesbos, o uso moderno da palavra é bastante recente.

Foi principalmente durante o século XIX que médicos, psiquiatras e sexólogos começaram a utilizar termos específicos para classificar diferentes orientações sexuais.

Esse processo ocorreu paralelamente ao surgimento da palavra “homossexual”, criada em 1869 por Karl-Maria Kertbeny.

A partir desse momento, pessoas passaram a ser classificadas não apenas por seus comportamentos, mas também por uma identidade sexual permanente.

Michel Foucault descreveu essa transformação como uma mudança histórica profunda: antes se condenavam determinados atos; depois passou-se a definir certos indivíduos como pertencentes a uma categoria específica. Essa análise permanece uma das mais influentes nos estudos sobre a história da sexualidade.  

O que dizem os pesquisadores atualmente?

Hoje existe amplo consenso entre historiadores de que não devemos aplicar automaticamente categorias modernas — como “lésbica”, “gay”, “heterossexual” ou “bissexual” — às sociedades antigas.

Isso não significa negar que mulheres amavam mulheres no passado.

Significa reconhecer que essas experiências eram compreendidas de formas diferentes conforme a cultura e a época.

A pergunta mais adequada, portanto, talvez não seja:

“Desde quando existem lésbicas?”

Mas sim:

“Desde quando usamos essa palavra para descrever mulheres que sempre existiram?”

Essa distinção permite compreender tanto a continuidade das experiências humanas quanto as mudanças históricas na maneira como as sociedades interpretam o amor, o desejo e a identidade.

Referências acadêmicas recomendadas

  • Bernadette J. Brooten. Love Between Women: Early Christian Responses to Female Homoeroticism. University of Chicago Press.
  • Sandra Boehringer. Female Homosexuality in Ancient Greece and Rome. Routledge.  
  • Lillian Faderman. Surpassing the Love of Men: Romantic Friendship and Love Between Women from the Renaissance to the Present.
  • Lillian Faderman. Odd Girls and Twilight Lovers. Columbia University Press.
  • Judith M. Bennett. “Lesbian-like and the Social History of Lesbianisms”. Journal of the History of Sexuality.  
  • Michel Foucault. História da Sexualidade, Volume I: A Vontade de Saber.
  • David M. Halperin. One Hundred Years of Homosexuality and Other Essays on Greek Love.