Desde quando existem gays?

A resposta pode surpreender: os “gays” talvez não existissem na Antiguidade, mas pessoas que se relacionavam com outras do mesmo sexo, sim.

Parece estranho? Vamos entender.

Se voltássemos à Grécia Antiga e perguntássemos a alguém: “Você é gay?”, provavelmente essa pessoa não entenderia a pergunta. Não porque não existissem relações entre pessoas do mesmo sexo, mas porque a palavra e a identidade “gay” ou “homossexual” simplesmente não existiam.

O nascimento da palavra “homossexual”

O termo “homossexual” foi criado em 1869 pelo escritor e ativista austro-húngaro Karl-Maria Kertbeny. Ele utilizou a palavra em panfletos políticos para defender a descriminalização das relações consensuais entre homens no Império Austro-Húngaro.

Antes disso, eram usados termos como “sodomia”, que descreviam atos específicos e frequentemente tinham conotação religiosa ou criminal.

Nas décadas seguintes, especialmente na década de 1890, o termo passou a ser incorporado por médicos, psiquiatras e estudiosos da sexualidade. Em 1892, seu uso já estava amplamente difundido em obras científicas europeias, ajudando a consolidar a ideia de “homossexual” como uma categoria de identidade e objeto de estudo.

Em outras palavras: o comportamento existia muito antes; o nome e a classificação são modernos.

Foucault: quando nasceu o “homossexual”?

O filósofo francês Michel Foucault, em História da Sexualidade, Volume I – A Vontade de Saber (1976), argumenta que o século XIX marcou uma mudança importante.

Até então, falava-se principalmente de práticas. Depois, passou-se a falar de um “tipo de pessoa”.

Sua frase mais famosa resume essa transformação:

“O sodomita era um reincidente; o homossexual tornou-se uma espécie.”

Ou seja, segundo Foucault, a medicina e a psiquiatria passaram a transformar determinados comportamentos em uma identidade permanente.

Platão e

O Banquete

Muito antes de existir a palavra “homossexual”, o filósofo Platão, em O Banquete (cerca de 380 a.C.), já discutia o amor e o desejo entre seres humanos.

Na obra, diferentes personagens apresentam discursos sobre o amor. Um dos mais conhecidos é o mito contado por Aristófanes, segundo o qual os seres humanos buscam sua “outra metade”, incluindo combinações entre homem e homem, mulher e mulher e homem e mulher.

Embora seja um texto filosófico e não um relato histórico, ele demonstra que essas experiências já faziam parte das reflexões da Antiguidade.

Grécia Antiga e a confusão com a pederastia

Quando se fala em relações entre homens na Grécia Antiga, muitas pessoas imediatamente pensam na pederastia.

A pederastia era uma prática presente em algumas cidades gregas envolvendo um homem adulto e um adolescente do sexo masculino dentro de um contexto cultural específico daquela sociedade.

É essencial compreender que isso não define a homossexualidade moderna. Orientação sexual e práticas culturais antigas são conceitos diferentes.

Confundir ambos leva a interpretações equivocadas da história.

Existiam gays no Egito Antigo e em Roma?

Existiam pessoas que mantinham relações afetivas ou sexuais com outras do mesmo sexo.

No Egito Antigo, representações como as de Niankhkhnum e Khnumhotep despertam debates entre historiadores sobre a natureza de sua relação.

Na Roma Antiga, há registros de relações entre homens em diferentes contextos sociais. Entretanto, os romanos não classificavam as pessoas como “heterossexuais” ou “homossexuais” da forma que fazemos hoje.

Mais uma vez: os comportamentos existiam; as categorias modernas ainda não.

Freud: a sexualidade humana não cabe em caixas rígidas

Em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), Sigmund Freud propôs que a sexualidade humana é complexa e possui diversas possibilidades de expressão.

Décadas depois, em uma carta escrita em 1935, Freud afirmou que a homossexualidade não era uma doença nem uma vergonha moral, posição considerada bastante avançada para sua época.

Alfred Kinsey mostrou que a sexualidade pode ser um espectro

Em 1948, o pesquisador Alfred Kinsey publicou Sexual Behavior in the Human Male, seguido por Sexual Behavior in the Human Female em 1953.

Nessas obras, apresentou a famosa Escala de Kinsey, que vai de 0 a 6:

  • 0 – atração exclusivamente por pessoas do sexo oposto;
  • 1 a 5 – diferentes graus de atração por ambos os sexos;
  • 6 – atração exclusivamente por pessoas do mesmo sexo.

A principal contribuição de Kinsey foi mostrar que muitas experiências humanas não se encaixam perfeitamente em categorias rígidas, sugerindo que a sexualidade pode ser compreendida como um continuum ou espectro.

Então, desde quando existem gays?

Se estivermos falando de pessoas que sentem atração por outras do mesmo sexo, elas provavelmente existem desde que existem seres humanos.

Mas, se estivermos falando da identidade chamada “homossexual” ou “gay”, trata-se de uma construção histórica relativamente recente, desenvolvida a partir do final do século XIX.

Por isso, talvez a pergunta mais correta não seja:

“Desde quando existem gays?”

E sim:

“Desde quando passamos a usar essa palavra para descrever pessoas que sempre existiram?”

Referências

  • FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade, Volume I: A Vontade de Saber (1976).
  • FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905).
  • PLATÃO. O Banquete.
  • KERTBENY, Karl-Maria. Panfletos e escritos sobre a reforma do direito penal (1869), nos quais introduziu o termo “homossexual”.
  • KINSEY, Alfred C.; POMEROY, Wardell B.; MARTIN, Clyde E. Sexual Behavior in the Human Male (1948).
  • KINSEY, Alfred C. et al. Sexual Behavior in the Human Female (1953).
  • DOVER, Kenneth J. Greek Homosexuality (1978).
  • HALPERIN, David M. One Hundred Years of Homosexuality and Other Essays on Greek Love (1990).