Você conhece um gay homofóbico. Isso não foi uma pergunta.

A frase pode parecer absurda à primeira vista. Afinal, como alguém pode fazer parte de um grupo historicamente discriminado e, ao mesmo tempo, reproduzir esse mesmo preconceito?

A resposta é simples: porque ninguém cresce imune aos valores da sociedade em que vive.

Durante décadas, muitos homens gays ouviram que ser gay era errado. Que homens não podiam demonstrar afeto, chorar, falar de determinada forma ou expressar feminilidade. Essas mensagens, repetidas pela família, pela escola, pela religião, pela mídia e pelas relações sociais, moldam a forma como uma pessoa passa a enxergar a si mesma e aos outros.

Por isso, a homofobia nem sempre vem de pessoas heterossexuais. Ela também pode aparecer entre homens gays, mulheres lésbicas, pessoas bissexuais e outras identidades LGBTQIA+. A literatura científica chama esse fenômeno de homofobia internalizada ou homonegatividade internalizada: quando uma pessoa absorve os preconceitos da sociedade e passa a reproduzi-los contra si mesma ou contra outras pessoas da própria comunidade.

A homofobia não tem apenas uma forma

Hoje, pesquisadores preferem falar em preconceito sexual, estigma sexual ou heterossexismo, pois o problema não é uma “fobia” individual, mas um conjunto de crenças e estruturas sociais que colocam a heterossexualidade como padrão e tudo o que foge dela como inferior.

Essas manifestações podem assumir diferentes formas.

Homofobia interpessoal

É a mais conhecida.

Inclui insultos, piadas, exclusão, humilhação, ameaças, agressões físicas e violência psicológica praticadas entre indivíduos.

Homofobia institucional

Acontece quando escolas, empresas, serviços de saúde, organizações ou outras instituições criam barreiras ou permitem práticas discriminatórias contra pessoas LGBTQIA+.

Nem sempre existe uma regra escrita. Muitas vezes, ela aparece na forma como as pessoas são tratadas.

Homofobia estrutural

Está presente nas normas culturais que colocam a heterossexualidade como a única forma considerada “normal” de viver.

Ela influencia a educação, a religião, a mídia, o mercado de trabalho, as leis e até as relações familiares.

Mesmo sem intenção explícita, essa estrutura reforça desigualdades diariamente.

Homofobia internalizada

É quando a própria pessoa LGBTQIA+ acredita, consciente ou inconscientemente, que existe algo de errado com sua orientação sexual.

Ela pode aparecer por meio da vergonha da própria identidade, da dificuldade em demonstrar afeto, do medo constante da rejeição, da necessidade de esconder quem se é ou até do desprezo por outras pessoas LGBTQIA+.

Diversos estudos mostram que níveis elevados de homofobia internalizada estão associados a maior risco de ansiedade, depressão, isolamento social, uso abusivo de álcool e outras drogas, além de pior qualidade de vida.

Quando a rejeição vem de dentro da própria comunidade

Uma das formas mais silenciosas de homofobia acontece dentro da própria comunidade LGBTQIA+.

É comum encontrar homens gays dizendo frases como:

“Não gosto de gay afeminado.”

“Tenho vergonha desse tipo de gay.”

“Esses gays fazem a comunidade passar vergonha.”

“Só me relaciono com homens discretos.”

À primeira vista, essas frases parecem apenas preferências pessoais.

Mas a Psicologia Social mostra que, muitas vezes, elas refletem preconceitos aprendidos durante toda a vida.

Vivemos em uma sociedade que historicamente valorizou a masculinidade e desvalorizou qualquer característica associada ao feminino nos homens.

Assim, quanto mais um homem corresponde ao ideal de “másculo”, maior tende a ser sua aceitação social. Já aqueles que falam de forma mais delicada, fazem gestos considerados femininos, usam determinadas roupas ou expressam sua identidade livremente costumam sofrer maior discriminação.

Essa lógica também aparece dentro da comunidade.

Alguns homens gays olham com desprezo para quem frequenta saunas, bares LGBTQIA+, boates, festas voltadas ao público gay, apresentações de drag queens ou simplesmente demonstra afeto em público.

Outros demonstram incômodo com homens afeminados, pessoas trans, gays mais velhos, pessoas vivendo com HIV, homens gordos ou negros.

Não porque essas pessoas tenham feito algo errado.

Mas porque representam exatamente aquilo que a sociedade ensinou que deveria ser escondido.

A repulsa nem sempre nasce da pessoa

Quando um homem gay sente vergonha ou repulsa diante de outro homem gay, é importante perguntar: de onde veio esse sentimento?

Ninguém nasce rejeitando homens afeminados.

Ninguém nasce acreditando que demonstrar afeto entre dois homens seja motivo de vergonha.

Essas ideias são aprendidas.

Desde a infância, muitas pessoas escutam frases como:

“Isso é coisa de viado.”

“Homem de verdade não faz isso.”

“Fala igual homem.”

“Anda direito.”

Essas mensagens vão sendo incorporadas ao longo dos anos.

Mesmo depois da aceitação da própria orientação sexual, parte desses valores pode permanecer.

É por isso que alguns homens conseguem aceitar que são gays, mas continuam rejeitando qualquer característica que os aproxime da imagem que aprenderam a desprezar.

O mecanismo psicológico da proteção

Existe um fenômeno bastante estudado na Psicologia Social: pessoas pertencentes a grupos estigmatizados podem tentar reduzir sua vulnerabilidade ao preconceito se aproximando dos padrões valorizados pela maioria.

É um mecanismo geralmente inconsciente.

Ao criticar homens afeminados, ao rejeitar determinados ambientes ou ao dizer “eu não sou esse tipo de gay”, algumas pessoas acreditam que serão mais respeitadas e sofrerão menos discriminação.

Como se dissessem:

“Se eu me diferenciar deles, talvez me aceitem.”

Essa estratégia pode produzir uma sensação temporária de proteção, mas raramente elimina o preconceito.

Ela apenas desloca o alvo.

Em vez de questionar a estrutura que produz a discriminação, a pessoa passa a reproduzir essa mesma lógica dentro do próprio grupo.

O oprimido pode reproduzir a lógica do opressor

O educador brasileiro Paulo Freire discutiu esse fenômeno ao afirmar que pessoas historicamente oprimidas podem internalizar os valores do grupo dominante e, sem perceber, reproduzir os mesmos mecanismos de exclusão.

Na população LGBTQIA+, isso acontece quando alguém acredita que apenas determinados tipos de gays merecem respeito.

O “gay discreto”.

O “gay masculino”.

O “gay que ninguém percebe”.

Enquanto aqueles que rompem esses padrões são vistos como exagerados, inconvenientes ou responsáveis pelo preconceito que sofrem.

O problema é que a homofobia nunca fez essa distinção.

Historicamente, ela atingiu homens gays independentemente de serem discretos ou afeminados, ricos ou pobres, brancos ou negros.

Quando um grupo passa a reproduzir internamente essa hierarquia, acaba fortalecendo exatamente a estrutura que o discrimina.

Superar esse ciclo

Reconhecer a homofobia internalizada não significa culpar homens gays.

Significa compreender que todos fomos educados dentro de uma sociedade marcada pelo preconceito.

O desafio não é fingir que esses mecanismos não existem, mas identificá-los e transformá-los.

Pesquisas mostram que apoio familiar, redes de acolhimento, representatividade positiva, contato com outras pessoas LGBTQIA+, participação comunitária e psicoterapia estão associados à redução da homofobia internalizada e a melhores indicadores de saúde mental.

Quanto maior o sentimento de pertencimento, menor tende a ser a necessidade de se diferenciar para conquistar aceitação.

Conclusão

Nem toda homofobia vem de fora.

Às vezes, ela aparece nas pequenas críticas entre pessoas da própria comunidade, na vergonha de determinados comportamentos, na rejeição da feminilidade, na sorofobia, no racismo, na transfobia ou na tentativa constante de parecer diferente dos “outros gays”.

Reconhecer isso não enfraquece a comunidade LGBTQIA+.

Pelo contrário.

Permite compreender como o preconceito funciona e mostra que combatê-lo também significa deixar de reproduzir, entre nós, a mesma lógica que por tanto tempo foi usada para nos excluir.

Referências teóricas

  • Ilan H. Meyer. Prejudice, Social Stress, and Mental Health in Lesbian, Gay, and Bisexual Populations: Conceptual Issues and Research Evidence. Psychological Bulletin, 2003.
  • Gregory M. Herek. Beyond Homophobia: Thinking About Sexual Prejudice and Stigma in the Twenty-First Century. Sexuality Research & Social Policy, 2004.
  • Erving Goffman. Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity. 1963.
  • Paulo Freire. Pedagogia do Oprimido. 1968.
  • Raewyn Connell. Masculinities. University of California Press, 1995.
  • Conselho Federal de Psicologia. Resolução nº 01/1999 e atualizações sobre orientação sexual e atuação profissional.
  • Costa, A. B., Nardi, H. C., Bandeira, D. R. e colaboradores. Estudos brasileiros sobre homofobia internalizada, estigma e saúde mental da população LGBTQIA+, publicados em periódicos como Psicologia & Sociedade, Ciência & Saúde Coletiva e Revista Latino-Americana de Psicologia.