A história das palavras que mudaram a forma como entendemos a sexualidade e a identidade de gênero
Você já imaginou um mundo onde ninguém se apresentava como gay, lésbica, bissexual, trans ou heterossexual?
Pode parecer estranho, mas durante milhares de anos essas palavras simplesmente não existiam. Isso não significa que essas pessoas não existissem. Significa apenas que a sociedade ainda não havia criado esses nomes.
Ao longo da história, homens se apaixonaram por homens, mulheres amaram mulheres, pessoas viveram o gênero de maneiras diferentes das esperadas pela sociedade e outras nunca sentiram atração sexual. A diversidade humana sempre esteve presente. O que mudou foi a forma como ela passou a ser compreendida e descrita.
Hoje, usamos a sigla LGBTQIAPN+ para representar parte dessa diversidade. Mas essa sigla é muito recente. Cada uma dessas letras possui uma história própria e surgiu em momentos diferentes. Algumas palavras nasceram na medicina, outras no direito, outras na filosofia e muitas foram criadas ou ressignificadas pelos próprios movimentos sociais.
Conhecer essa história é entender que as pessoas vieram antes das palavras.
Antes de tudo: quando ninguém era “gay” ou “hétero”
Na Grécia Antiga, em Roma e em muitas outras civilizações, ninguém perguntava se uma pessoa era homossexual ou heterossexual.
Essas categorias simplesmente não existiam.
As sociedades da época observavam outros aspectos, como idade, posição social, casamento, cidadania e o papel exercido dentro da relação.
Na Grécia, por exemplo, existiam poemas, histórias e obras de arte retratando relações entre pessoas do mesmo sexo. A poetisa Safo, da ilha de Lesbos, escreveu diversos poemas dedicados ao amor entre mulheres por volta do século VII a.C. Ela jamais se chamou de “lésbica”. Essa palavra só surgiria muitos séculos depois.
Na Idade Média, principalmente sob forte influência da Igreja Católica, também não existiam identidades como conhecemos hoje.
Falava-se em “pecados”, “atos proibidos” ou “sodomia”. A sociedade julgava determinados comportamentos, mas ainda não classificava as pessoas como pertencentes a uma orientação sexual específica.
Essa mudança só começaria a acontecer no século XIX.
1869 — Surge a palavra “homossexual”
O primeiro grande marco da história moderna aconteceu em 1869.
Naquele ano, o escritor e jornalista austro-húngaro Karl-Maria Kertbeny publicou textos criticando leis que criminalizavam relações entre pessoas do mesmo sexo.
Para substituir palavras ofensivas como “sodomita”, ele criou um novo termo:
Homossexual.
Foi uma mudança enorme.
Pela primeira vez surgia uma palavra científica que descrevia uma característica da pessoa, em vez de apenas condenar um comportamento.
Curiosamente, Kertbeny não pretendia criar um movimento social. Seu objetivo era defender que ninguém deveria ser preso por causa da sua vida privada.
1869 — Surge também “heterossexual”
No mesmo ano, Kertbeny criou outro termo:
Heterossexual.
Hoje parece impossível imaginar um mundo sem essa palavra.
Mas ela também é recente.
Outro fato curioso é que, durante alguns anos, alguns médicos chegaram a considerar a heterossexualidade uma forma de desejo excessivo, pois ela também envolvia prazer além da reprodução.
Somente no século XX o termo passou a representar a orientação sexual considerada predominante na sociedade.
Década de 1880 — Bissexual
A palavra bissexual apareceu primeiro na biologia.
Inicialmente, era utilizada para descrever organismos que possuíam características masculinas e femininas.
Depois, médicos e pesquisadores da sexualidade, como Richard von Krafft-Ebing e Havelock Ellis, passaram a utilizar o termo para pessoas que sentiam atração por mais de um sexo.
Hoje, muitas pessoas bissexuais preferem definir sua orientação como atração por mais de um gênero, reconhecendo que o entendimento sobre gênero evoluiu ao longo do tempo.
Final do século XIX — Lésbica
A origem da palavra é muito mais antiga.
Ela vem da ilha grega de Lesbos, onde viveu a poetisa Safo, entre os séculos VII e VI antes de Cristo.
Seus poemas falavam sobre amor, amizade e desejo entre mulheres.
Durante muitos séculos, a palavra “lésbica” não era usada para definir uma identidade.
Somente no final do século XIX ela passou a representar mulheres que sentem atração afetiva ou sexual por outras mulheres.
1905 — Freud muda a forma de enxergar a sexualidade
Quando o médico austríaco Sigmund Freud publicou Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, causou enorme polêmica.
Freud defendia que a sexualidade fazia parte do desenvolvimento humano desde a infância e que ela era muito mais complexa do que apenas reprodução.
Embora várias de suas teorias sejam discutidas e revisadas até hoje, sua obra ajudou a transformar a sexualidade em um tema de estudo científico.
1914 — Pansexualidade
A palavra pansexualidade surgiu inicialmente com outro significado.
Na psicanálise, “pansexualismo” era a ideia de que praticamente toda a vida humana era influenciada pela sexualidade.
Décadas depois, especialmente entre os anos 1970 e 2000, a palavra ganhou um novo significado.
Hoje, pansexual é utilizada para pessoas cuja atração não depende do gênero da outra pessoa.
1915–1917 — Intersexo
Até o início do século XX, era comum a medicina utilizar a palavra “hermafrodita”.
Com o avanço da ciência, percebeu-se que essa expressão era inadequada para descrever pessoas que nascem com variações naturais em cromossomos, hormônios, gônadas ou órgãos sexuais.
Assim, o termo intersexo passou a ser adotado e, atualmente, é considerado o mais apropriado.
1948 — Alfred Kinsey apresenta o espectro
O pesquisador norte-americano Alfred Kinsey entrevistou milhares de pessoas sobre sua vida afetiva e sexual.
Os resultados surpreenderam o mundo.
Em vez de dividir as pessoas apenas entre heterossexuais e homossexuais, Kinsey propôs uma escala de 0 a 6, mostrando que a atração pode existir em diferentes intensidades.
Sua famosa Escala de Kinsey ajudou a mostrar que a sexualidade humana pode ser mais diversa do que categorias rígidas sugerem.
Décadas de 1950 e 1960 — Gay
A palavra gay já existia havia séculos em inglês.
Ela significava “alegre”, “feliz” ou “despreocupado”.
Após a Segunda Guerra Mundial, homens homossexuais começaram a utilizá-la para se identificar.
Depois da Revolta de Stonewall, em 1969, o termo tornou-se um símbolo internacional de orgulho e luta por direitos.
1949 — Transsexual
O médico norte-americano David Oliver Cauldwell utilizou pela primeira vez a palavra transsexual para descrever pessoas cuja identidade de gênero não correspondia ao sexo atribuído ao nascimento.
Na época, o entendimento científico era bastante diferente do atual.
1965 — Transgênero
Em 1965, o psiquiatra John F. Oliven utilizou o termo “transgender”.
Com o passar dos anos, “transgênero” tornou-se um conceito mais amplo do que “transsexual”, incluindo diferentes experiências relacionadas à identidade de gênero.
Hoje, muitas pessoas utilizam apenas a palavra “trans” como um termo guarda-chuva.
Décadas de 1960 e 1970 — Travesti
A palavra “travesti” vem do italiano travestire, que significa “vestir-se de outra forma”.
Durante muito tempo foi usada para artistas de teatro.
No Brasil e em outros países da América Latina, entre as décadas de 1960 e 1970, passou a representar uma identidade de gênero própria.
Hoje, muitas travestis brasileiras reconhecem essa palavra como parte de sua identidade, cultura e história.
Final da década de 1980 — Queer
Durante muitos anos, queer era um insulto em inglês, equivalente a “estranho” ou “esquisito”.
No final dos anos 1980, ativistas decidiram transformar o insulto em motivo de orgulho.
Esse processo ficou conhecido como ressignificação.
Hoje, queer pode representar pessoas que preferem não se enquadrar em categorias tradicionais de orientação sexual ou identidade de gênero.
Década de 1990 — Não binário
Os estudos sobre gênero cresceram muito durante a década de 1990.
Nesse contexto, consolidou-se a expressão não binário para pessoas que não se identificam exclusivamente como homem ou mulher.
Algumas pessoas podem se identificar parcialmente com um gênero, alternar entre diferentes identidades ou não se reconhecer em nenhuma delas.
Anos 2000 — Assexual
Embora a palavra já existisse anteriormente em outros contextos, foi nos anos 2000 que ganhou força como orientação sexual.
Pessoas assexuais podem sentir pouco ou nenhum interesse por relações sexuais, embora isso não impeça que tenham relacionamentos afetivos, amizades ou famílias.
2006 — Demissexual
O termo surgiu dentro da comunidade assexual, especialmente na AVEN (Asexual Visibility and Education Network).
Ele descreve pessoas que geralmente só sentem atração sexual depois de desenvolver um forte vínculo afetivo com alguém.
Anos 2000–2010 — Omnissexual
A palavra começou a ser utilizada para descrever pessoas que podem sentir atração por pessoas de qualquer gênero, reconhecendo essas diferenças de gênero como parte da atração.
Embora pareça semelhante à pansexualidade, algumas pessoas fazem distinções entre esses conceitos, enquanto outras os utilizam de forma bastante próxima.
E a sigla LGBTQIAPN+?
Ela também mudou com o tempo.
Nas décadas de 1980 e 1990 era comum encontrar a sigla GLS, que significava “Gays, Lésbicas e Simpatizantes”.
Com o crescimento dos movimentos sociais e o reconhecimento de outras identidades, novas letras foram sendo incorporadas.
Hoje, uma das formas mais utilizadas no Brasil é:
L – Lésbicas
G – Gays
B – Bissexuais
T – Pessoas Trans (transexuais, transgêneros e travestis)
Q – Queer
I – Intersexo
A – Assexuais, arromânticos e agênero (dependendo do contexto)
P – Pansexuais
N – Não binários
+ – Outras orientações sexuais, identidades de gênero e expressões de gênero que não estão representadas pelas letras anteriores.
A sigla continua evoluindo porque a linguagem acompanha a sociedade.
Conclusão
Existe uma ideia muito importante que atravessa toda essa história.
As pessoas não passaram a existir quando surgiram essas palavras.
Elas sempre existiram.
O que mudou foi a forma como médicos, filósofos, pesquisadores, governos e os próprios movimentos sociais passaram a compreender e nomear essa diversidade.
Conhecer essa história nos ajuda a entender que a linguagem evolui, a ciência revisa conceitos e as sociedades mudam suas formas de enxergar o mundo. Mais do que decorar datas, compreender essa cronologia é reconhecer que a experiência humana é muito mais antiga do que os nomes que usamos para descrevê-la.
Referências teóricas
- Freud, S. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. 1905.
- Kertbeny, K.-M. Escritos sobre a descriminalização das relações entre pessoas do mesmo sexo. 1869.
- Krafft-Ebing, R. von. Psychopathia Sexualis. 1886.
- Ellis, H. Studies in the Psychology of Sex. 1897–1928.
- Sexual Behavior in the Human Male. Alfred C. Kinsey et al., 1948.
- Sexual Behavior in the Human Female. Alfred C. Kinsey et al., 1953.
- História da Sexualidade – Volume I: A Vontade de Saber. Michel Foucault, 1976.
- The Invention of Heterosexuality. Jonathan Ned Katz, 1995.
- Gender Trouble. Judith Butler, 1990.
- American Psychological Association. Materiais sobre orientação sexual, identidade de gênero e diversidade.
- World Health Organization. Classificação Internacional de Doenças (CID-11) e documentos sobre saúde sexual.
- World Professional Association for Transgender Health. Standards of Care for the Health of Transgender and Gender Diverse People (SOC-8).

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