Fazer sexo com homem faz de você gay? A ciência diz que a sexualidade é mais complicada

HSH, MSM, Kinsey, Freud, Klein e Foucault ajudam a explicar por que comportamento, desejo e identidade sexual não são a mesma coisa — e por que o Posithividades Pro decidiu criar uma nova linguagem para falar sobre isso.

Um homem se identifica como heterossexual.

Ele namora mulheres, sente atração principalmente por mulheres e constrói seus relacionamentos afetivos com mulheres.

Mas também faz sexo com homens.

Ele é gay?

Uma mulher se identifica como heterossexual, relaciona-se afetivamente com homens, mas eventualmente faz sexo com mulheres.

Ela é lésbica?

A resposta mais correta para as duas perguntas é:

não necessariamente.

E é exatamente aqui que começa uma discussão que o Posithividades pretende levar para dentro da comunidade e também para o Posithividades Pro.

Além das identidades tradicionais — gay, lésbica, bissexual, heterossexual, trans e tantas outras — vamos começar a trabalhar também com categorias que descrevem comportamentos.

Entre elas:

HSH — homens que fazem sexo com homens.

MSM — mulheres que fazem sexo com mulheres.

Isso pode incomodar algumas pessoas.

Talvez alguém diga:

“Estão inventando sexualidade agora?”

Não.

Na realidade, estamos fazendo uma distinção que a sexologia, a psicologia, a sociologia e a saúde pública vêm discutindo há décadas:

quem você é, por quem você sente desejo e com quem você faz sexo podem ser três respostas diferentes.

Primeiro: HSH não significa gay

HSH é a sigla utilizada para homens que fazem sexo com homens.

É uma categoria comportamental muito utilizada na epidemiologia e nas políticas de prevenção ao HIV e às outras ISTs.

Ela existe porque perguntar simplesmente:

“Você é gay?”

não identifica necessariamente todos os homens que mantêm relações sexuais com outros homens.

Dentro de HSH pode existir um homem que se identifica como:

  • gay;
  • bissexual;
  • pansexual;
  • heterossexual;
  • ou que simplesmente não utiliza uma identidade sexual específica.

Portanto, um homem pode ser heterossexual em sua identidade e, ao mesmo tempo, estar dentro da categoria HSH quando analisamos seu comportamento sexual.

Parece contraditório?

Somente se acreditarmos que identidade e comportamento precisam necessariamente ser a mesma coisa.

E MSM não significa necessariamente lésbica

A mesma lógica vale para MSM — mulheres que fazem sexo com mulheres.

Uma mulher pode manter relações sexuais com mulheres e se identificar como lésbica.

Mas também pode se identificar como bissexual, pansexual, heterossexual ou de outra maneira.

MSM responde:

“Com quem essa mulher mantém relações sexuais?”

“Lésbica”, por outro lado, responde a uma pergunta sobre orientação e identidade.

São perguntas relacionadas.

Mas não são idênticas.

Freud já mostrava que sexualidade não era uma questão tão simples

No começo do século XX, muito antes das siglas HSH e MSM existirem, Sigmund Freud já estava desmontando uma compreensão extremamente rígida da sexualidade.

Em 1905, ele publicou os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.

Freud não criou HSH.

Também não criou a ideia contemporânea de orientação sexual.

E seria incorreto utilizar suas teorias como se representassem todo o conhecimento científico atual sobre sexualidade.

Mas uma contribuição histórica foi fundamental:

Freud colocou em discussão a ideia de que a sexualidade humana poderia ser explicada apenas pela reprodução ou por uma divisão simples entre comportamentos considerados “normais” e “anormais”.

Para Freud, era necessário observar o objeto do desejo, os objetivos da pulsão, as fantasias e o desenvolvimento da sexualidade.

Ele também discutiu aquilo que chamou de uma disposição bissexual humana, conceito que precisa ser entendido dentro da teoria psicanalítica de sua época e não confundido simplesmente com a identidade bissexual contemporânea.

Ainda assim, a pergunta que começava a aparecer era poderosa:

o desejo humano realmente cabe em categorias perfeitamente fechadas?

Décadas depois, Alfred Kinsey tentaria responder isso com dados.

Kinsey perguntou às pessoas o que elas realmente faziam

Em 1948, Alfred Kinsey, Wardell Pomeroy e Clyde Martin publicaram Sexual Behavior in the Human Male.

Em 1953, Kinsey e seus colaboradores publicaram Sexual Behavior in the Human Female.

Em vez de começar pela identidade declarada das pessoas, os pesquisadores perguntavam sobre histórias, desejos e comportamentos sexuais.

E encontraram algo que desafiava a ideia de duas caixas completamente separadas.

Existiam pessoas exclusivamente heterossexuais.

Existiam pessoas exclusivamente homossexuais.

Mas existia uma enorme quantidade de experiências entre esses dois extremos.

Kinsey criou então sua famosa escala:

0 — exclusivamente heterossexual

1 — predominantemente heterossexual, apenas incidentalmente homossexual

2 — predominantemente heterossexual, mas com experiências homossexuais mais do que incidentais

3 — igualmente heterossexual e homossexual

4 — predominantemente homossexual, mas com experiências heterossexuais mais do que incidentais

5 — predominantemente homossexual, apenas incidentalmente heterossexual

6 — exclusivamente homossexual

Havia ainda a categoria X, utilizada dentro do modelo de Kinsey para ausência de reações ou contatos sociossexuais.

Hoje sabemos que a Escala Kinsey não consegue representar toda a complexidade da sexualidade.

Mas sua contribuição histórica continua importante:

heterossexualidade e homossexualidade não precisavam ser compreendidas apenas como dois compartimentos completamente isolados.

E isso ajuda muito a compreender HSH e MSM.

Um homem pode estar predominantemente orientado para mulheres e ainda ter experiências com homens.

Uma mulher pode estar predominantemente orientada para homens e ter experiências com mulheres.

O comportamento não obriga automaticamente aquela pessoa a trocar de identidade.

Klein percebeu que nem Kinsey dava conta de tudo

Então surge outra figura fundamental dessa história:

Fritz Klein.

Klein percebeu que colocar uma pessoa entre 0 e 6 ainda simplificava demais a sexualidade.

Imagine dois homens classificados como “2” na Escala Kinsey.

Eles necessariamente vivem sua sexualidade da mesma maneira?

Não.

Um pode sentir atração predominantemente por mulheres, fantasiar eventualmente com homens, fazer sexo ocasionalmente com homens e se identificar como heterossexual.

Outro pode sentir atração por homens e mulheres, relacionar-se afetivamente com ambos e se identificar como bissexual.

Colocar os dois no mesmo número não explica essas diferenças.

Klein desenvolveu então o Klein Sexual Orientation Grid, uma grade multidimensional da orientação sexual.

Em vez de olhar uma única variável, Klein observava sete:

atração sexual, comportamento sexual, fantasias sexuais, preferência emocional, preferência social, estilo de vida e autoidentificação.

E ainda avaliava essas dimensões em diferentes momentos:

passado, presente e ideal.

Essa é uma mudança enorme.

Porque agora podemos imaginar uma pessoa respondendo:

Atração sexual: principalmente mulheres.

Comportamento sexual: mulheres e alguns homens.

Fantasia: homens e mulheres.

Preferência emocional: mulheres.

Autoidentificação: heterossexual.

Qual dessas respostas é a “verdadeira”?

Todas.

Elas descrevem dimensões diferentes da mesma pessoa.

E é exatamente por isso que HSH pode existir sem substituir gay, bi ou hétero.

Foucault faz uma pergunta ainda mais desconfortável

Michel Foucault não estava tentando medir orientação sexual.

A pergunta dele era outra:

como determinadas práticas sexuais passaram a definir aquilo que uma pessoa é?

Em História da Sexualidade, Foucault analisa como medicina, psiquiatria, religião, direito e outras instituições passaram a produzir discursos sobre sexualidade.

Relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo existem há milhares de anos.

Mas as categorias modernas pelas quais classificamos essas pessoas são muito mais recentes.

O próprio conceito moderno de “homossexual” aparece no século XIX.

Isso representa uma transformação importante.

Não estamos mais apenas dizendo:

“essa pessoa realizou determinado ato.”

Passamos a dizer:

“esse ato revela que tipo de pessoa ela é.”

A prática começa a produzir uma identidade.

E é justamente aí que HSH e MSM se tornam conceitualmente interessantes.

Eles fazem, de certa maneira, o caminho contrário.

HSH não pergunta:

“Quem esse homem é?”

Pergunta:

“Com quem esse homem faz sexo?”

MSM não pergunta:

“Essa mulher é lésbica?”

Pergunta:

“Essa mulher mantém relações sexuais com mulheres?”

É uma diferença enorme.

“Mas se ele faz sexo com homem, é pelo menos bissexual, não?”

Também não podemos afirmar isso automaticamente.

Orientação sexual envolve padrões de atração e, para muitas pessoas, uma identidade construída a partir deles.

Um comportamento isolado não é suficiente para determinar sozinho a orientação de outra pessoa.

Existem homens que se identificam como heterossexuais e tiveram experiências sexuais com homens.

Existem mulheres que se identificam como heterossexuais e tiveram experiências sexuais com mulheres.

Existem pessoas que experimentam.

Existem pessoas que sentem desejo em determinadas situações.

Existem pessoas cuja identidade muda ao longo da vida.

Existem pessoas cuja identidade permanece exatamente a mesma.

O erro começa quando alguém de fora decide:

“Eu sei melhor do que você qual é a sua sexualidade.”

Podemos descrever um comportamento.

Não precisamos obrigatoriamente transformar esse comportamento em uma identidade.

Foi justamente por isso que a saúde pública precisou criar HSH

Essa discussão se torna particularmente importante quando falamos sobre HIV.

Imagine um homem que se identifica como heterossexual e faz sexo ocasionalmente com outros homens.

Se uma campanha disser:

“Homens gays devem procurar PrEP.”

ele pode pensar:

“Não sou gay. Isso não é para mim.”

Mas a prevenção ao HIV depende da exposição, não do nome que a pessoa utiliza para sua orientação sexual.

Por isso categorias comportamentais ganharam importância epidemiológica.

A pergunta deixa de ser apenas:

“Qual é a sua orientação sexual?”

e passa a incluir:

“Quais são suas práticas sexuais?”

Isso permite que prevenção, testagem e cuidado cheguem a pessoas que poderiam ficar invisíveis dentro de categorias puramente identitárias.

E mulheres que fazem sexo com mulheres também foram invisibilizadas

Durante muito tempo existiu até a ideia equivocada de que mulheres que mantêm relações sexuais exclusivamente ou ocasionalmente com mulheres praticamente não precisavam se preocupar com ISTs.

Isso nunca foi correto.

Dependendo das práticas, existe possibilidade de transmissão de HPV, herpes, sífilis, tricomoníase e outras infecções.

Reconhecer MSM não significa criar uma nova orientação.

Significa reconhecer uma população e seus comportamentos sem obrigá-la automaticamente a assumir determinada identidade.

Então o Posithividades está inventando novas sexualidades?

Não.

HSH já existe na epidemiologia e na saúde pública.

A distinção entre comportamento, atração e identidade também não começou conosco.

Freud discutia a complexidade do desejo há mais de cem anos.

Kinsey mostrou empiricamente um continuum de experiências sexuais.

Klein mostrou que sexualidade possui múltiplas dimensões.

Foucault mostrou como as sociedades transformaram determinadas práticas em categorias de identidade.

O que o Posithividades está fazendo agora é outra coisa:

transformar essa discussão em uma linguagem utilizável dentro da comunidade.

O que muda no Posithividades Pro?

No Posithividades Pro, queremos permitir que as pessoas se apresentem com mais precisão.

Nem todo homem que deseja se conectar com homens necessariamente quer se apresentar como gay.

Nem toda mulher que deseja se conectar com mulheres necessariamente quer se apresentar como lésbica.

Por isso, dentro do aplicativo e da comunidade, começaremos a trabalhar também com categorias como:

HSH — homens que fazem sexo com homens

e

MSM — mulheres que fazem sexo com mulheres.

Não para substituir:

gay,

lésbica,

bissexual,

heterossexual,

pansexual

ou qualquer outra identidade.

Mas para oferecer outra camada de linguagem.

Uma pessoa poderá ter uma identidade e, ao mesmo tempo, reconhecer um comportamento que não cabe perfeitamente nela.

E por que criar bandeiras para essas categorias?

Aqui está a parte realmente nova da proposta.

O Posithividades está criando representações visuais próprias para HSH e MSM.

Essas bandeiras não são símbolos universais.

Não estamos dizendo que foram reconhecidas oficialmente por qualquer instituição.

São Bandeiras Posithividades.

Elas nascem para funcionar dentro do nosso ecossistema, especialmente na comunidade e no Posithividades Pro.

Da mesma forma, estamos criando representações visuais próprias para homens héteros e mulheres hétero, ao lado das bandeiras LGBT+ já existentes.

A intenção é construir um sistema visual no qual mais pessoas consigam encontrar alguma representação para a maneira como vivem sua sexualidade.

“Isso vai incomodar algumas pessoas.”

Provavelmente.

Toda vez que uma nova linguagem aparece, surge a pergunta:

“Pra que inventar outro nome?”

Mas nossa própria linguagem sobre sexualidade foi construída assim.

As palavras que hoje parecem naturais nem sempre existiram.

“Homossexual” tem uma história.

“Gay” tem uma história.

“Bissexual” tem uma história.

As bandeiras que hoje reconhecemos imediatamente também foram criadas por alguém, em determinado momento histórico, e posteriormente adotadas por comunidades.

Nenhum símbolo nasce oficialmente.

Ele é proposto.

Depois as pessoas decidem se ele faz sentido ou não.

Talvez a pergunta não seja “qual é a sua sexualidade?”

Talvez precisemos aprender a fazer várias perguntas.

Por quem você sente atração?

Por quem você se apaixona?

Com quem você fantasia?

Com quem você faz sexo?

Como você se identifica?

Kinsey mostrou que existe um continuum.

Klein mostrou que existem várias dimensões.

Freud ajudou a colocar o desejo em discussão.

Foucault mostrou que nossas categorias têm história.

E a epidemiologia mostrou que comportamento sexual precisa ser observado independentemente da identidade.

Talvez a grande mudança seja justamente esta:

parar de exigir que uma única palavra explique toda a sexualidade de uma pessoa.

HSH não substitui gay.

MSM não substitui lésbica.

Comportamento não apaga identidade.

Identidade não precisa esconder comportamento.

E é essa linguagem que o Posithividades pretende começar a experimentar dentro da comunidade e do Posithividades Pro.

Não estamos tentando colocar mais pessoas em caixas.

Estamos tentando criar caixas menos apertadas.

Referências para aprofundamento

Kinsey AC, Pomeroy WB, Martin CE. Sexual Behavior in the Human Male. 1948.

Kinsey AC, Pomeroy WB, Martin CE, Gebhard PH. Sexual Behavior in the Human Female. 1953.

Klein F, Sepekoff B, Wolf TJ. Sexual Orientation: A Multi-variable Dynamic Process. Journal of Homosexuality. 1985.

Freud S. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. 1905.

Foucault M. História da Sexualidade — Volume 1: A Vontade de Saber. 1976.

UNAIDS. Diretrizes terminológicas sobre populações-chave e homens que fazem sexo com homens.

Organização Mundial da Saúde. Diretrizes sobre HIV, ISTs e populações-chave.

Ministério da Saúde. Publicações sobre HIV, ISTs, populações-chave e homens que fazem sexo com homens.

Posithividades — HIV, saúde mental e sexualidade, baseado em ciência.