Essa é uma pergunta que parece simples, mas revela um problema muito maior: a tendência de confundir moralidade com saúde.
Durante décadas, muitas pessoas acreditaram que o HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) eram consequência de um determinado “estilo de vida” ou de uma suposta falta de valores. Essa ideia alimentou preconceitos, afastou pessoas dos serviços de saúde e, ironicamente, dificultou a prevenção.
A ciência mostra algo diferente: vírus, bactérias e outros agentes infecciosos não distinguem pessoas conservadoras, religiosas, casadas, solteiras ou com muitos parceiros. Eles apenas aproveitam oportunidades de transmissão.
O que significa, afinal, “promiscuidade”?
A palavra promiscuidade tem origem no latim promiscuus, derivado da junção de pro (“à frente”, “em comum”) e miscere (“misturar”). Originalmente, significava algo “misturado”, “sem distinção” ou “compartilhado indiscriminadamente”. Apenas ao longo da história, especialmente sob forte influência de normas religiosas e sociais, o termo passou a ser associado ao comportamento sexual.
Nos dias atuais, “promiscuidade” costuma ser usada para descrever alguém que mantém relações com múltiplos parceiros ou parceiras, geralmente de forma casual. No entanto, não existe uma definição médica ou científica universal para essa palavra. O que uma pessoa considera promíscuo pode ser visto por outra apenas como uma forma diferente de viver a própria sexualidade.
Isso acontece porque a ideia de promiscuidade é profundamente influenciada pela cultura, pela religião, pela época histórica e pelos valores individuais. Em outras palavras, trata-se muito mais de um julgamento moral do que de um conceito científico.
Na saúde pública, esse rótulo tem pouca utilidade. Médicos, epidemiologistas e pesquisadores não classificam pacientes como “promíscuos” ou “conservadores” para avaliar risco de infecção. O que realmente importa são os comportamentos adotados e as estratégias de prevenção utilizadas.
O problema do julgamento moral
Quando associamos uma IST à ideia de “promiscuidade”, criamos uma falsa sensação de segurança em quem acredita estar fora desse estereótipo.
Alguém pode pensar:
- “Sou casado, então não preciso fazer exames.”
- “Tenho apenas um parceiro, então estou protegido.”
- “Sou uma pessoa conservadora, isso nunca acontecerá comigo.”
- “Só pessoas que têm muitos parceiros pegam HIV.”
Nenhuma dessas afirmações é verdadeira.
Essas crenças podem fazer com que pessoas deixem de realizar testes, ignorem sintomas ou acreditem que estão automaticamente protegidas por seu estilo de vida.
Casamento não é método de prevenção
Uma das maiores ilusões sobre ISTs é acreditar que casamento ou namoro, por si só, oferecem proteção.
Casamento não impede a transmissão do HIV, da sífilis, da gonorreia ou de qualquer outra IST.
Uma pessoa pode adquirir uma infecção antes do relacionamento, desconhecer seu diagnóstico ou até mesmo se expor posteriormente. Além disso, muitas ISTs podem permanecer assintomáticas por meses ou anos.
A verdadeira prevenção depende de informação, testagem, diálogo e acesso aos serviços de saúde — não do estado civil.
O número de parceiros não conta toda a história
Ter um número maior de parceiros pode aumentar estatisticamente a chance de exposição a uma infecção. Porém, isso é apenas uma parte da equação.
Imagine duas pessoas:
- A primeira teve vinte parceiros ao longo do ano, utiliza preservativo quando indicado, faz exames regularmente, conhece estratégias como PrEP e PEP e busca atendimento sempre que necessário.
- A segunda teve apenas um parceiro, nunca realizou testes, nunca conversou sobre prevenção e acredita que a confiança elimina qualquer risco.
Quem está mais protegido?
Na prática, a resposta depende dos comportamentos adotados, não da quantidade de parceiros.
Falar sobre relações não incentiva ninguém a ter relações
Existe um mito antigo segundo o qual conversar sobre sexualidade estimularia crianças, adolescentes ou adultos a iniciarem a vida sexual mais cedo.
As evidências científicas mostram justamente o contrário: educação em saúde aumenta o conhecimento, reduz comportamentos de risco e fortalece decisões conscientes.
Ensinar alguém sobre HIV não faz essa pessoa adquirir HIV.
Ensinar sobre preservativos não incentiva relações.
Ensinar sobre prevenção prepara indivíduos para protegerem a si mesmos e aos outros quando precisarem tomar decisões.
O silêncio nunca preveniu epidemias.
O preconceito também transmite consequências
Quando uma doença é associada a culpa ou vergonha, muitas pessoas deixam de procurar ajuda.
O medo do julgamento pode levar alguém a:
- evitar fazer exames;
- esconder sintomas;
- atrasar o início do tratamento;
- não contar ao parceiro sobre um diagnóstico;
- sofrer em silêncio.
O resultado é mais sofrimento individual e maior dificuldade para controlar a disseminação das infecções.
Então quem realmente corre mais risco?
Do ponto de vista científico, a resposta é clara:
Corre mais risco quem se expõe a situações de transmissão sem utilizar medidas adequadas de prevenção, independentemente de ser considerado conservador ou “promíscuo”.
Isso inclui não conhecer o próprio estado sorológico, não realizar testagens periódicas, não utilizar estratégias preventivas quando indicadas e não buscar atendimento em saúde.
Por outro lado, pessoas bem informadas, que fazem exames regularmente e adotam medidas preventivas tendem a reduzir significativamente seu risco.
Uma reflexão que vale para todos
Durante muito tempo, a sociedade tentou dividir as pessoas entre “certas” e “erradas”, “de família” e “promíscuas”, “conservadoras” e “liberais”.
Mas vírus não fazem julgamentos morais.
Eles não perguntam quantos parceiros alguém teve.
Não perguntam se a pessoa é casada.
Não perguntam sua religião, orientação política ou posição social.
Eles apenas encontram oportunidades de transmissão.
Talvez, portanto, a pergunta mais importante não seja:
“Essa pessoa é promíscua?”
Mas sim:
- Ela tem acesso à informação de qualidade?
- Ela sabe como se prevenir?
- Ela realiza exames periodicamente?
- Ela consegue conversar sobre prevenção sem medo ou vergonha?
- Ela tem acesso aos serviços de saúde?
No fim das contas, o conhecimento protege muito mais do que os rótulos.
Referências teóricas
- BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Atualizado periodicamente. Documento que orienta diagnóstico, tratamento e prevenção das ISTs no país.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Prevenção Combinada do HIV. Define que a prevenção deve integrar estratégias biomédicas, comportamentais e estruturais, reconhecendo que nenhuma medida isolada é suficiente.
- SCHAURICH, D.; COELHO, D. F.; MOTTA, M. G. C. A vulnerabilidade no viver humano ao HIV/AIDS. Revista Latino-Americana de Enfermagem, 2006. O artigo discute como fatores sociais, culturais e comportamentais influenciam o risco de infecção, indo além de julgamentos morais.
- AYRES, J. R. C. M. et al. O conceito de vulnerabilidade e as práticas de saúde: novas perspectivas e desafios. Fundamenta uma das principais abordagens brasileiras sobre prevenção, mostrando que o risco depende também do acesso à informação, aos serviços e às condições sociais.
- PAIVA, V. et al. Pesquisas brasileiras sobre prevenção do HIV demonstram que educação, diálogo e redução do estigma são componentes essenciais para diminuir a transmissão e ampliar o acesso ao cuidado.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Sexually Transmitted Infections (STIs): Fact Sheets and Guidelines. Ressalta que qualquer pessoa sexualmente ativa pode adquirir uma IST e destaca a importância da prevenção, testagem e tratamento.
- UNAIDS. Global AIDS Update e documentos sobre prevenção combinada e redução do estigma, reforçando que o enfrentamento do HIV depende de informação baseada em evidências e do combate à discriminação.
- Para a etimologia da palavra “promiscuidade”: o termo deriva do latim promiscuus (“misturado”, “sem distinção”), relacionado ao verbo miscere (“misturar”), tendo adquirido posteriormente conotações morais ligadas ao comportamento sexual em diferentes contextos históricos e culturais.

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