Entenda como o desenvolvimento do cérebro, a pressão social e o acesso à prevenção influenciam a vulnerabilidade de adolescentes e jovens ao HIV.
“Hoje tem tanta informação. Só se infecta quem não se cuida.”
Essa frase aparece com frequência quando o assunto é HIV entre adolescentes e jovens. Ela parece oferecer uma explicação simples, mas deixa de fora fatores importantes sobre desenvolvimento humano, relações afetivas e acesso à saúde.
Ter informação, conseguir conversar sobre proteção e encontrar um serviço que acolha são coisas diferentes. Além disso, compreender uma orientação e conseguir aplicá-la sob emoção ou pressão social são capacidades que não se desenvolvem necessariamente no mesmo ritmo.
Por isso, falar sobre HIV em jovens exige ir além do rótulo de irresponsabilidade. Precisamos entender em quais condições essas pessoas vivem, decidem e conseguem se proteger.
O que os dados mostram sobre HIV em jovens?
O Boletim Epidemiológico de HIV e Aids 2025 informa que, entre 1991 e setembro de 2025, foram registrados 175.803 casos de infecção pelo HIV entre pessoas de 15 a 24 anos, correspondendo a 25,7% dos registros dessa série histórica. Esse percentual não se refere exclusivamente a um ano.
Já em 2024, a faixa de 20 a 29 anos respondeu por 40,6% dos novos diagnósticos, conforme informação divulgada pelo Ministério da Saúde. Os dois dados utilizam períodos e faixas etárias diferentes.
Também é necessário distinguir diagnóstico de infecção. Uma pessoa pode descobrir o HIV algum tempo depois de ter se infectado. Portanto, o número de diagnósticos não revela exatamente quando todas essas infecções aconteceram.
Esses dados mostram a importância de oferecer prevenção aos jovens, mas não autorizam afirmar que pessoas de 15 a 24 anos sejam, em qualquer lugar ou situação, as que mais se infectam.
A pergunta central é: o que aumenta a vulnerabilidade nessa fase e como oferecer uma proteção que funcione na vida real?
O que o córtex pré-frontal tem a ver com isso?
O córtex pré-frontal fica na parte da frente do cérebro e participa de funções como planejamento, controle de respostas impulsivas e avaliação de consequências.
Ele não trabalha sozinho. Nossas decisões envolvem redes que também participam das emoções, da memória, da aprendizagem e da percepção de recompensa.
Durante a adolescência e o início da vida adulta, essas redes continuam passando por mudanças. O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos destaca que o desenvolvimento cerebral se estende pela terceira década de vida, com maturação mais tardia de regiões como o córtex pré-frontal.
Isso não significa que o cérebro esteja “desligado” antes dos 25 anos. Também não existe um aniversário em que todas as pessoas passam a ter o mesmo autocontrole ou a tomar decisões semelhantes.
Uma pessoa de 15 anos e outra de 24 também não devem ser tratadas como se tivessem as mesmas experiências, capacidades e recursos.
Respeitar o desenvolvimento cerebral significa oferecer apoio adequado à fase da vida e preservar a autonomia de quem está crescendo.
Saber o que fazer não garante conseguir fazer em qualquer situação
Um estudo publicado em 2019 por Grace Icenogle e colaboradores avaliou 5.227 participantes, de 10 a 30 anos, em 11 países.
Nas medidas utilizadas, a capacidade cognitiva chegou a níveis semelhantes aos dos adultos por volta dos 16 anos. Já a maturidade psicossocial, que envolvia aspectos como autocontrole e resistência à influência dos outros, atingiu níveis adultos mais tarde, após os 18 anos.
O resultado ajuda a compreender uma diferença: raciocinar com tempo e tranquilidade não é a mesma tarefa que decidir em uma situação emocionalmente intensa.
Como exemplo ilustrativo, alguém pode explicar a importância do preservativo e, durante um encontro, ter dificuldade para conversar sobre seu uso por medo de rejeição. Pode conhecer a existência de um teste e sentir vergonha de procurar atendimento.
Isso não demonstra, por si só, falta de informação ou de caráter.
O estudo também tem limites. Ele comparou pessoas de diferentes idades em um momento específico e não investigou infecção pelo HIV. Portanto, ajuda a compreender aspectos das decisões, mas não permite descobrir por que uma pessoa específica se infectou.
A pressão social pode mudar a maneira de decidir
Em um experimento publicado em 2011, Jason Chein e colaboradores avaliaram decisões em um jogo de direção enquanto observavam a atividade cerebral dos participantes.
Entre os adolescentes, ser observado por amigos aumentou a atividade em regiões relacionadas à recompensa e favoreceu escolhas mais arriscadas naquela tarefa.
O estudo não investigou relações íntimas nem transmissão do HIV. Sua contribuição é mostrar que o contexto social pode modificar a maneira de avaliar uma decisão.
Aplicar esse resultado à prevenção exige cautela. Uma interpretação possível é que informar sobre riscos precisa vir acompanhado de apoio para lidar com situações concretas: conversar com uma parceria, estabelecer limites, buscar um teste ou pedir orientação.
A pergunta, portanto, não pode ser apenas “essa pessoa conhece a prevenção?”. Também precisamos perguntar: “ela encontra condições para colocá-la em prática?”.
O cérebro não explica tudo
Uma matéria bem fundamentada precisa apresentar também os resultados que impedem explicações simples demais.
Uma pesquisa publicada em 2018 analisou imagens cerebrais e frequência de uso de preservativo em 169 adolescentes recrutados em programas ligados ao sistema de justiça nos Estados Unidos.
Os pesquisadores encontraram associações envolvendo estruturas socioemocionais e desenvolvimento puberal. Entretanto, não encontraram associação significativa entre o uso de preservativo e as medidas das áreas pré-frontais de controle avaliadas.
Isso não prova que o córtex pré-frontal seja irrelevante. Mas impede afirmar que jovens se infectam simplesmente porque essa região “ainda não está pronta”.
Uma revisão publicada em 2017 por Dan Romer, Valerie Reyna e Theodore Satterthwaite também questiona explicações que retratam adolescentes principalmente como pessoas dominadas por impulsos. Os autores destacam diferenças entre tipos de risco e a importância da experiência e da aprendizagem.
A adolescência também é uma fase de descoberta, adaptação e construção de autonomia. Transformar essas características em defeitos pode reforçar os mesmos estereótipos que precisamos superar.
Não existe uma juventude com as mesmas condições de proteção
Duas pessoas da mesma idade podem ter possibilidades muito diferentes de cuidado.
Uma encontra informação, transporte, privacidade e profissionais preparados. Outra enfrenta dependência financeira, violência ou medo de discriminação ao procurar atendimento.
O UNAIDS reconhece que desigualdade econômica, violência e relações de poder desiguais aumentam a vulnerabilidade ao HIV e dificultam o acesso à prevenção. No Brasil, o Ministério da Saúde também destaca a necessidade de enfrentar estigma e discriminação no atendimento aos jovens.
Por isso, oferecer um preservativo é importante, mas precisamos compreender se a pessoa consegue negociar seu uso. Explicar a existência da PrEP também precisa ser acompanhado de acesso ao serviço e orientação adequada.
A vulnerabilidade não pode ser deduzida somente da idade, da orientação ou da identidade de alguém. É necessário compreender suas práticas, parcerias e possibilidades reais de cuidado.
Jovens também procuram e utilizam prevenção
O projeto brasileiro PrEP1519 oferece um contraponto ao discurso de que adolescentes não querem se cuidar.
Em uma análise publicada em 2023, entre 1.193 adolescentes elegíveis para iniciar PrEP no mesmo dia, 1.054, ou 88,3%, começaram na primeira visita.
A pesquisa envolveu adolescentes homens que fazem relações com homens e mulheres trans, em três capitais brasileiras. Esses resultados não representam todos os jovens do país, mas demonstram que houve grande adesão ao início da prevenção naquele contexto.
Outra publicação do projeto concluiu que a PrEP foi segura e viável no contexto estudado, identificando também desafios de adesão e a necessidade de atenção às vulnerabilidades desse público.
Oferecer uma estratégia de prevenção não elimina todas as dificuldades. Ainda assim, esses resultados mostram que adolescentes podem participar ativamente do próprio cuidado quando encontram uma oportunidade concreta.
Como oferecer uma prevenção que respeite essa fase?
A interpretação prática desse conjunto de evidências é que precisamos combinar informação com condições para agir.
Isso envolve:
- Conversar sobre prevenção sem humilhar ou ameaçar.
- Ensinar habilidades de comunicação, negociação e consentimento.
- Oferecer atendimento acolhedor, com privacidade.
- Facilitar o acesso a preservativos, testagem, PrEP e orientação sobre PEP.
- Incluir os próprios jovens na construção das ações de prevenção.
No Brasil, o protocolo de 2025 prevê PrEP oral para pessoas a partir de 15 anos, com pelo menos 35 kg, conforme avaliação individual e critérios clínicos. O documento também reconhece a necessidade de remover barreiras de acesso.
A prevenção precisa incluir informação correta sobre o tratamento: uma pessoa que mantém carga viral indetectável de forma sustentada não transmite o HIV nas relações. Conhecer essa informação também ajuda a enfrentar o estigma.
O objetivo deve ser oferecer cuidado adequado agora, com participação e autonomia, sem esperar que alguém “amadureça” para merecer proteção.
Um diagnóstico não é uma avaliação de caráter
A frase “ele sabia o que estava fazendo” não descreve toda a situação em que uma pessoa viveu, decidiu ou tentou se proteger.
Podemos incentivar escolhas de cuidado e reconhecer a responsabilidade dos serviços, das famílias e da sociedade em criar condições para essas escolhas.
Compreender o desenvolvimento dos jovens não exige infantilizá-los. Exige ouvir suas dificuldades, reconhecer suas capacidades e oferecer apoio compatível com sua realidade.
Para quem já recebeu um diagnóstico, transformar a própria história em uma sequência de culpas não oferece tratamento nem acolhimento. A prioridade é ter acesso ao cuidado e apoio para seguir a vida.
Respeitar o cérebro e a realidade dos jovens é levar suas necessidades a sério. Cobrar proteção exige também torná-la possível.
Referências
- Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025.
- Ministério da Saúde. Consulta pública sobre guia para oferta de profilaxias do HIV a jovens. 2026.
- Icenogle G. e colaboradores. Capacidade cognitiva e maturidade psicossocial em diferentes idades. Law and Human Behavior, 2019. Acessar estudo.
- National Institute of Mental Health. The Teen Brain: 7 Things to Know. Revisão de 2023.
- Chein J. e colaboradores. Influência dos pares, recompensa e decisões de risco. Developmental Science, 2011. Acessar estudo.
- Feldstein Ewing SW. e colaboradores. Comportamento de proteção e volume cerebral na adolescência. Annals of Behavioral Medicine, 2018. Acessar estudo.
- Romer D., Reyna VF. e Satterthwaite TD. Desenvolvimento cerebral e estereótipos sobre risco na adolescência. Developmental Cognitive Neuroscience, 2017. Acessar revisão.
- UNAIDS. Desigualdade de gênero e vulnerabilidade ao HIV.
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para PrEP Oral. 2025.
- Soares F. e colaboradores. Início da PrEP entre adolescentes no Brasil. Journal of Adolescent Health, 2023. Acessar estudo.
- Dourado I. e colaboradores. Adesão, segurança e viabilidade da PrEP no projeto PrEP1519. Journal of Adolescent Health, 2023. Acessar estudo.
HIV_jovens_cerebro_e_prevencao.md

Você precisa estar logado para comentar.
Entrar para comentar