As relações abusivas às quais viver com HIV pode te deixar mais exposto

Quando o diagnóstico vira instrumento de chantagem, o cuidado parece um favor e o medo faz você acreditar que não pode reclamar.

“Você deveria agradecer por eu estar com você.”

Imagine ouvir isso de alguém que diz te amar. Agora imagine que essa frase venha acompanhada de uma referência ao seu diagnóstico de HIV. A mensagem é cruel: você deveria aceitar menos respeito porque a outra pessoa supostamente está fazendo um sacrifício para permanecer ao seu lado.

Mas essa sensação de estar em dívida pode aparecer fora de um namoro também. Na família, no consultório, no plano de saúde, na relação com o poder público e até em espaços de acolhimento e representação.

Para algumas pessoas, viver com HIV significa aprender a se tratar e, ao mesmo tempo, enfrentar situações em que sua necessidade de cuidado é usada para diminuir sua liberdade.

Não é o diagnóstico que torna o abuso inevitável. É o que pessoas e instituições podem fazer com o preconceito, o medo e a dependência que existem ao redor dele.

Quando você se sente refém do governo

Quem precisa de tratamento contínuo depende de uma rede que funcione: medicamento, acompanhamento, exames e profissionais preparados.

No Brasil, o acesso universal e gratuito à terapia antirretroviral é garantido pela Lei nº 9.313/1996. Receber tratamento é um direito, independentemente de quem esteja no governo. [1]

Mesmo assim, diante de um atendimento humilhante, alguém pode pensar: “Melhor ficar quieto. Eu preciso voltar aqui.”

É nessa situação que a sensação de estar refém aparece. Você precisa do serviço, mas sente que reclamar pode colocar seu atendimento em risco.

Precisar do SUS não configura, por si só, uma relação abusiva. O problema surge quando essa necessidade encontra humilhação, discriminação ou obstáculos injustificados, e a pessoa sente que não tem espaço para se defender.

Há também uma reflexão política: sempre que o acesso à saúde é apresentado como um presente de um governante, corre-se o risco de transformar cidadania em dívida de gratidão.

Você pode defender o SUS, reconhecer o trabalho de seus profissionais e cobrar melhorias. Uma coisa não cancela a outra.

Receber medicação não obriga ninguém a aceitar maus-tratos nem a oferecer lealdade política.

Quando você se sente refém do sistema privado

Para quem utiliza atendimento particular ou plano de saúde, o medo pode assumir outra forma: “Se eu perder esse atendimento, como vou continuar meu acompanhamento?”

Uma pessoa pode sentir que precisa suportar uma consulta desrespeitosa porque teme não encontrar outro profissional. Pode ter receio de questionar uma negativa ou de mudar de serviço e enfrentar novas dificuldades.

Isso não acontece com todo mundo e não é exclusivo de quem vive com HIV. Mas, quando a necessidade de cuidado se soma ao medo da discriminação, a liberdade de escolha pode parecer menor.

É preciso separar regras de cobertura de práticas abusivas. Segundo a ANS, uma operadora não pode recusar a contratação simplesmente porque a pessoa tem uma doença. Existem regras específicas para doenças preexistentes, que não autorizam exclusão indiscriminada. [2]

Uma exigência prevista nas regras não é automaticamente abuso. Já o constrangimento e o tratamento discriminatório não se tornam aceitáveis porque acontecem em um serviço pago.

Pagar por atendimento também não deveria significar pagar com silêncio.

Quando pertencer parece exigir concordância

Os movimentos sociais têm um papel fundamental na conquista e na defesa dos direitos de quem vive com HIV. Reconhecer essa história também significa preservar espaço para a diversidade de quem faz parte dela.

Viver com o mesmo vírus não significa pensar da mesma forma sobre tudo. Cada pessoa tem sua trajetória, suas experiências e seu tempo para se posicionar.

Ainda assim, em alguns espaços, pode surgir uma expectativa silenciosa: se você vive com HIV, deveria concordar com determinadas posições, apoiar as mesmas pessoas ou se manifestar da maneira esperada.

É legítimo debater e discordar. A preocupação aparece quando a concordância vira condição para receber respeito ou acolhimento, e a divergência passa a ser respondida com humilhação, intimidação ou ameaça de exposição. Nessas circunstâncias, podem surgir dinâmicas de controle, inclusive em ambientes criados para oferecer apoio.

Não se trata de chamar todo conflito de abuso. Trata-se de lembrar que representar uma população não significa falar por cada pessoa em todas as suas escolhas.

Você pode reconhecer uma luta, defender direitos e, ao mesmo tempo, manter sua autonomia. O pertencimento não deveria cobrar o abandono da própria voz.

O diagnóstico pode virar uma arma dentro do relacionamento

No namoro ou no casamento, o abuso pode aparecer em frases como:

“Se você terminar comigo, eu conto para todo mundo.”

“Ninguém mais vai querer ficar com você.”

“Depois de tudo que eu faço por você, é assim que você me agradece?”

São exemplos de como o diagnóstico pode ser usado para ameaçar, humilhar ou produzir uma dívida emocional.

O controle também pode envolver esconder medicamentos, dificultar consultas, vigiar conversas ou tentar afastar a pessoa de quem oferece apoio.

A questão não é um parceiro saber que você vive com HIV. É usar essa informação para controlar sua vida.

A Organização Mundial da Saúde reconhece esse problema em suas orientações para mulheres vivendo com HIV: o apoio à revelação do diagnóstico deve considerar o medo e o risco de violência pelo parceiro, com atenção à segurança. [3]

Falar sobre o diagnóstico exige acolhimento. Transformar essa informação em ameaça é uma forma de violência.

O que os estudos mostram?

Uma revisão sistemática com análise conjunta de 49 artigos e 42.280 participantes, publicada inicialmente na internet em 2022, estimou que cerca de quatro em cada dez pessoas vivendo com HIV haviam sofrido alguma forma de violência por parceiro íntimo ao longo da vida. Aproximadamente uma em cada cinco havia passado por isso no último ano. [4]

Esse dado precisa ser explicado: a pesquisa reuniu estudos de diferentes contextos e métodos. Não é uma estimativa específica do Brasil e não demonstra que o diagnóstico tenha causado a violência, nem que ela tenha começado depois dele.

Também não permite afirmar, sozinho, quantas vezes o HIV aumenta o risco em comparação com pessoas que não vivem com o vírus.

No Brasil, o Índice de Estigma de 2019 ouviu 1.784 pessoas em sete capitais. Entre as entrevistadas, 64,1% relataram alguma experiência de estigma ou discriminação por viver com HIV ou aids, e 15,3% relataram discriminação por profissionais de saúde. [5]

São dados sobre discriminação entre participantes daquele levantamento, não uma medida nacional de relacionamentos abusivos. Ainda assim, ajudam a mostrar o ambiente de desrespeito que pode atravessar essas vidas.

Por que pode ficar mais difícil sair?

Pense em alguém que já ouviu que viver com HIV a torna menos desejável. Depois de rejeições e comentários cruéis, essa pessoa conhece alguém que diz: “Eu aceito você.”

A princípio, parece acolhimento. O problema aparece quando esse “aceitar” vira uma cobrança permanente.

A pessoa pode começar a pensar: “Talvez eu não encontre mais ninguém.” Ou: “Se eu sair, vou ter que contar tudo de novo.”

Essa é uma possibilidade de compreender a vulnerabilidade, não uma regra sobre quem vive com HIV. O medo da rejeição pode se somar à dependência financeira, à falta de moradia, ao isolamento ou à ameaça de exposição.

Por isso, a pergunta não deveria ser “por que você aceita?”. A pergunta deveria ser: “O que está dificultando sua saída e de que apoio você precisa?”

A responsabilidade pela violência continua sendo de quem a pratica.

Nem toda violência deixa uma marca no corpo

Ser lembrado do diagnóstico para perder uma discussão. Ser tratado como alguém que precisa aceitar qualquer companhia. Ter sua intimidade exposta para provocar vergonha.

Essas situações merecem atenção mesmo quando não existe agressão física.

Nos serviços de saúde, a proteção da intimidade também é uma obrigação. A Lei nº 14.289/2022 estabelece deveres de sigilo sobre o HIV em diferentes contextos e exige que serviços públicos, privados e operadoras protejam essas informações, observadas as exceções legais. [6]

Precisar de cuidado não elimina seu direito à privacidade.

Você pode precisar de ajuda e continuar tendo autonomia

Reconhecer uma relação abusiva nem sempre leva a uma saída imediata. Pode ser necessário organizar dinheiro, moradia, apoio e segurança.

Se houver ameaça, procure apoio de alguém confiável e de profissionais que possam ajudar a construir um plano seguro, sem se colocar em risco para confrontar a pessoa. Quando for seguro, guardar mensagens e registros pode ajudar a explicar o que está acontecendo.

Diante de problemas no atendimento público, é possível registrar uma manifestação na Ouvidoria do SUS, pelo 136. [7] Em questões com planos de saúde, os canais da ANS podem orientar sobre reclamações. [2]

A terapia pode ajudar a reconhecer a culpa, o medo e os limites que foram sendo apagados. Redes de apoio e comunidades também podem oferecer pertencimento. Esses recursos devem ampliar suas possibilidades de escolha.

No Posithividades, você pode conhecer a comunidade no WhatsApp, o aplicativo Posithividades Pro e o atendimento de terapia online. São possibilidades de apoio, sem substituir os serviços de proteção em situações de violência.

Você não deve gratidão por alguém se relacionar com você. Não deve silêncio por receber tratamento. E não precisa aceitar humilhação para provar que merece cuidado.

Viver com HIV não diminui seu direito ao respeito. Seu diagnóstico não pode ser usado como uma autorização para controlar sua vida.

Referências

  1. Ministério da Saúde. Publicação sobre a garantia de acesso universal à terapia antirretroviral pela Lei nº 9.313/1996. Acessar⁠.
  2. Agência Nacional de Saúde Suplementar. Saiba antes de contratar um plano. Orientações sobre contratação, cobertura e doenças preexistentes. Acessar⁠.
  3. Organização Mundial da Saúde. Consolidated Guideline on Sexual and Reproductive Health and Rights of Women Living with HIV. Genebra: OMS, 2017. Recomendações sobre violência, segurança e revelação do diagnóstico. Acessar⁠.
  4. Cheng LJ, Cheng JY, Yen KY, Lau ST, Lau Y. Global Prevalence and Factors Related to Intimate Partner Violence Amongst People Living with Human Immunodeficiency Virus/Acquired Immunodeficiency Syndrome: A Systematic Review, Meta-Analysis, and Meta-Regression. Trauma, Violence, & Abuse. 2023;24(4):2466–2485. Publicação online em 6 de maio de 2022. DOI: 10.1177/15248380221097436. Acessar⁠.
  5. UNAIDS Brasil. Estudo revela como o estigma e a discriminação impactam pessoas vivendo com HIV e aids no Brasil. 2019. Resultados do Índice de Estigma, com 1.784 participantes em sete capitais. Acessar⁠.
  6. Brasil. Lei nº 14.289, de 3 de janeiro de 2022. Estabelece a obrigatoriedade de preservação do sigilo sobre o diagnóstico de HIV e outras infecções nos contextos previstos na legislação. Acessar⁠.
  7. Ministério da Saúde. Ouvidoria-Geral do SUS. Informações sobre manifestações e atendimento pelo 136. Acessar⁠.