Cavalo de Fogo: o que um desenho dos anos 80 pode nos ensinar sobre identidade e viver com HIV?

Para muita gente que cresceu nos anos 1990, basta ouvir “Cavalo de Fogo” para alguma memória aparecer.

Apesar de a animação Wildfire ter sido produzida nos Estados Unidos em 1986, pela Hanna-Barbera, foi através das reprises na televisão brasileira que o desenho entrou na memória de uma geração.

Mas existe uma coisa interessante quando assistimos novamente à história depois de adultos.

Por trás do cavalo mágico, da princesa, do reino e dos vilões, existe uma história profundamente ligada à identidade.

E é justamente aí que podemos construir uma relação interessante com a psicanálise e com a experiência de algumas pessoas que recebem o diagnóstico de HIV.

Não porque Cavalo de Fogo fale sobre HIV.

Não fala.

Mas porque Sara vive algo que, simbolicamente, permite pensar uma pergunta que aparece muitas vezes depois de acontecimentos que modificam profundamente nossa percepção sobre nós mesmos:

Quem sou eu depois de descobrir algo que muda a história que eu contava sobre mim?

Primeiro precisamos voltar ao desenho

Sara é uma adolescente que cresceu no mundo humano, em Montana, acreditando conhecer sua própria história.

Até que descobre que existe muito mais sobre sua origem.

Ela é filha da rainha Sarana e pertence a Dar-Shan, um reino mágico ameaçado por Diabolyn.

Quando ainda era bebê, Sara precisou ser levada para o mundo humano para ser protegida. É o Cavalo de Fogo quem faz essa travessia.

Anos depois, aquilo que parecia pertencer a um passado desconhecido retorna.

Sara precisa descobrir sua origem e compreender que sua vida não começa exatamente onde suas lembranças começam.

Esse é o primeiro ponto importante da nossa leitura.

Sara não deixa de ser Sara quando descobre sua origem

A descoberta não apaga a menina que cresceu em Montana.

Sua infância aconteceu.

Seus vínculos aconteceram.

Suas experiências aconteceram.

Mas agora existe uma informação que modifica a maneira como ela compreende tudo isso.

Ela precisa reorganizar a própria narrativa.

E talvez seja justamente aqui que Cavalo de Fogo permita construir uma analogia com o diagnóstico de HIV.

Para algumas pessoas, receber um diagnóstico produz uma sensação de ruptura:

“Existe quem eu era antes do diagnóstico e quem eu sou agora.”

Biologicamente, evidentemente, aquela pessoa continua sendo ela.

Mas psiquicamente alguma coisa pode ter mudado.

O diagnóstico recebe um significado.

E esse significado não vem apenas da medicina.

Ele vem de tudo aquilo que a pessoa ouviu durante a vida sobre HIV.

O diagnóstico encontra uma história que já existia

Quando alguém recebe um diagnóstico de HIV, não está ouvindo a palavra “HIV” pela primeira vez.

Essa palavra provavelmente já possuía representações.

Morte.

Aids.

Relações.

Culpa.

Medo.

Preconceito.

Rejeição.

Dependendo da geração, essas associações podem ser ainda mais intensas.

Por isso duas pessoas podem receber exatamente o mesmo diagnóstico médico e produzir experiências psíquicas completamente diferentes.

O vírus pode ser o mesmo.

O significado daquele diagnóstico para cada sujeito não é.

É aí que a psicanálise ajuda nossa leitura.

Sigmund Freud mostrou que nossa relação com acontecimentos não depende apenas do acontecimento objetivo, mas também das representações, fantasias, conflitos e experiências anteriores que se associam a ele.

Em outras palavras: um diagnóstico não chega a uma mente vazia.

Ele encontra uma história.

“Eu vivo com HIV” não significa “eu sou o HIV”

Existe uma diferença enorme entre incorporar uma informação à própria identidade e permitir que essa informação ocupe toda a identidade.

Depois do diagnóstico, algumas pessoas começam a reinterpretar praticamente tudo através do HIV.

Antes de conhecer alguém:

“Será que essa pessoa ficaria comigo sabendo?”

Durante uma relação:

“Será que estou colocando essa pessoa em risco?”

Diante de uma rejeição:

“Foi por causa do HIV.”

Ao pensar no futuro:

“Será que ainda posso construir aquela vida que imaginava?”

O diagnóstico deixa de representar uma característica da vida daquela pessoa e começa a organizar sua percepção de si.

A pessoa deixa de pensar:

“Eu vivo com HIV.”

E, psiquicamente, começa a funcionar como se dissesse:

“Eu sou o HIV.”

Mas um sujeito nunca pode ser reduzido a um único significante.

Antes do HIV existia uma história.

Depois do HIV essa história continua.

Existem relações, profissão, desejos, sexualidade, projetos, contradições, medos, sonhos e milhares de outras coisas constituindo aquela pessoa.

O HIV passa a fazer parte dessa história.

Não precisa se tornar a história inteira.

Montana e Dar-Shan: dois mundos

Talvez essa seja uma das imagens mais interessantes de Cavalo de Fogo.

Sara pertence a dois mundos.

Existe Montana, onde ela cresceu.

E existe Dar-Shan, ligado à sua origem e a uma parte de sua história que durante muito tempo permaneceu desconhecida.

Ela poderia tentar permanecer apenas em Montana.

Mas Dar-Shan continuaria existindo.

Essa divisão permite pensar simbolicamente algo que pode acontecer depois do diagnóstico.

Algumas pessoas tentam construir dois mundos.

Em um deles está a vida cotidiana:

trabalho, amigos, família, relações.

No outro está o HIV.

E os dois mundos não podem se encontrar.

“Não quero falar sobre isso.”

“Não quero conhecer outras pessoas que vivem com HIV.”

“Não quero pensar nisso.”

“Se ninguém souber, talvez eu consiga continuar sendo quem eu era.”

A psicanálise nos ajuda a entender que mecanismos de defesa possuem uma função.

Negação, isolamento e outras defesas podem proteger temporariamente o psiquismo diante de algo que naquele momento parece difícil demais para ser elaborado.

Portanto, não se trata de condenar essas respostas.

Às vezes precisamos de tempo.

O problema aparece quando manter os dois mundos separados passa a exigir uma enorme quantidade de energia psíquica.

O objetivo não é destruir nenhum dos mundos

Sara não precisa abandonar Montana para reconhecer Dar-Shan.

Também não precisa fingir que Dar-Shan nunca existiu para continuar vivendo sua vida humana.

Ela precisa encontrar uma maneira de circular entre essas partes da própria história.

É aqui que podemos pensar em elaboração.

Elaborar um diagnóstico não significa gostar de viver com HIV.

Não significa agradecer pelo diagnóstico.

Não significa transformar sofrimento em uma história obrigatória de superação.

Significa conseguir reconhecer:

“Isso aconteceu comigo.”

“Isso faz parte da minha história.”

“Isso produz algumas consequências na minha vida.”

“Mas isso não explica tudo aquilo que eu sou.”

Talvez a integração aconteça justamente quando já não é necessário escolher entre:

“a pessoa que eu era antes do HIV”

e

“a pessoa que passou a viver com HIV”.

As duas pertencem à mesma história.

O medalhão e aquilo que ganha significado

Existe ainda outro símbolo interessante na animação: o medalhão de Sara.

Durante parte da história, ela possui algo ligado à sua origem sem compreender completamente seu significado.

Depois, aquilo passa a fazer sentido dentro de uma narrativa maior.

Podemos usar essa imagem para pensar o processo de simbolização.

Muitas vezes aquilo que aparece inicialmente depois do diagnóstico é apenas angústia.

“Estou com medo.”

Mas medo de quê?

Quando existe espaço para falar, começam a aparecer palavras.

“Tenho medo de morrer.”

“Tenho medo de ser rejeitado.”

“Tenho medo de nunca mais ser desejado.”

“Tenho medo de contar.”

“Tenho medo de transmitir.”

“Tenho vergonha.”

E quando começamos a separar essas coisas, percebemos algo importante:

nem tudo aquilo que estava sendo chamado de medo do HIV era exatamente sobre o vírus.

Pode existir medo de abandono.

Pode existir uma relação difícil com a própria sexualidade.

Pode existir culpa.

Pode existir uma experiência anterior de rejeição.

Pode existir preconceito aprendido na infância.

Pode existir uma associação entre HIV e morte construída décadas antes daquele diagnóstico.

Na análise, aquilo que inicialmente aparece como uma coisa única começa a ganhar palavras, associações e histórias.

Diabolyn também pode estar dentro de nós

Diabolyn representa a ameaça dentro da narrativa de Cavalo de Fogo.

Mas, para nossa analogia, podemos pensar em outro tipo de ameaça: o preconceito que aprendemos e depois reproduzimos contra nós mesmos.

Uma pessoa pode saber racionalmente que está indetectável.

Pode conhecer I=I.

Pode saber que uma pessoa vivendo com HIV em tratamento pode ter qualidade e expectativa de vida.

Pode conhecer todas essas informações.

E ainda assim pensar:

“Sou perigoso.”

“Ninguém vai me querer.”

“Minha vida acabou.”

“Sou diferente das outras pessoas.”

Por quê?

Porque informação racional e elaboração psíquica não são a mesma coisa.

Uma pessoa pode aprender hoje que indetectável é igual a intransmissível e ainda carregar décadas de representações sociais associando HIV à morte, perigo, culpa e promiscuidade.

O preconceito que originalmente estava no outro pode ser internalizado.

E então acontece algo cruel:

o preconceituoso nem precisa mais estar presente.

A própria pessoa passa a reproduzir contra si aquilo que aprendeu socialmente.

É o que chamamos de estigma internalizado.

E quem seria o Cavalo de Fogo nessa história?

Seria fácil dizer que o Cavalo de Fogo representa o terapeuta.

Mas essa interpretação seria limitada.

Talvez ele represente melhor aquilo que possibilita a travessia.

Para algumas pessoas pode ser a psicoterapia ou a análise.

Para outras, informação.

Para outras, conhecer alguém que também vive com HIV.

Pode ser uma comunidade.

Pode ser um profissional de saúde que consiga escutar sem julgamento.

Pode ser descobrir I=I.

Pode ser simplesmente encontrar pela primeira vez alguém vivendo com HIV há muitos anos e perceber:

“Existe vida depois daqui.”

O Cavalo de Fogo não vive a história no lugar de Sara.

Ele permite que ela atravesse.

E talvez um bom processo terapêutico faça justamente isso.

O profissional não deveria dizer ao sujeito qual significado o HIV precisa ter.

Ele deveria ajudá-lo a construir o próprio significado.

Existe ainda uma questão importante: contar ou não contar?

Integrar o HIV à própria identidade não significa necessariamente transformar o diagnóstico em uma identidade pública.

Uma pessoa pode lidar muito bem com seu diagnóstico e decidir preservar essa informação em determinadas relações e espaços.

A questão psicológica é outra.

Existe diferença entre:

“Eu escolho quem terá acesso a essa parte da minha história.”

e

“Preciso esconder isso porque, se descobrirem, ninguém conseguirá enxergar nada além do HIV em mim.”

Uma coisa envolve autonomia.

A outra pode envolver vergonha e medo.

E compreender essa diferença também faz parte da elaboração.

Talvez por isso Cavalo de Fogo tenha marcado tanta gente

Quando somos crianças, vemos uma menina descobrindo que é princesa e viajando para um mundo mágico.

Quando adultos, podemos enxergar outra coisa.

Uma adolescente descobre que sua história é maior do que aquilo que conhecia.

Existe uma origem desconhecida.

Existem conflitos.

Existem dois mundos.

Existe algo que precisa ser enfrentado.

E existe uma identidade que precisa ser reconstruída.

Talvez seja justamente isso que torna possível aproximar Cavalo de Fogo da experiência de algumas pessoas vivendo com HIV.

Não porque receber um diagnóstico seja descobrir um “mundo mágico”.

Muito menos porque o HIV precise produzir algum ensinamento positivo.

Mas porque determinadas descobertas podem romper a narrativa que construímos sobre nós mesmos.

E então surge uma tarefa psíquica:

recontar a própria história sem apagar aquilo que veio antes e sem permitir que aquilo que veio depois ocupe tudo.

Sara não precisa deixar de ser a menina de Montana para reconhecer que também pertence a Dar-Shan.

Da mesma maneira, alguém não precisa abandonar quem era antes do diagnóstico para reconhecer:

“Agora o HIV também faz parte da minha história.”

Talvez elaborar seja justamente conseguir dizer:

Eu continuo sendo eu.

Não o mesmo “eu” de antes, porque nossas experiências nos atravessam e nos transformam.

Mas também não uma pessoa reduzida a um diagnóstico.

O HIV pode ocupar um capítulo.

Pode atravessar vários capítulos.

Mas não precisa se tornar o título do livro inteiro.

Referências teóricas para aprofundar essa leitura

Sigmund Freud — O Eu e o Id (1923).
Ajuda a pensar a constituição do Eu e por que nossa identidade não é uma estrutura simples, fixa ou completamente consciente.

Sigmund Freud — Inibição, sintoma e angústia (1926).
É uma referência importante para discutir angústia, perigo e os mecanismos utilizados pelo Eu diante daquilo que é percebido como ameaça.

Sigmund Freud — Recordar, repetir e elaborar (1914).
Talvez seja uma das referências mais importantes para a analogia proposta nesta matéria. Permite pensar elaboração não como simplesmente “entender” racionalmente alguma coisa, mas como um processo psíquico.

Jacques Lacan — O estádio do espelho como formador da função do eu (1949).
Ajuda a discutir a construção da imagem que fazemos de nós mesmos e a importância do olhar do outro nessa constituição.

Jacques Lacan — Seminário 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964).
Pode sustentar uma discussão mais aprofundada sobre sujeito, inconsciente e a diferença entre o sujeito e os significantes utilizados para representá-lo.

Erving Goffman — Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada (1963).
Não é uma obra psicanalítica, mas é fundamental para esta discussão. Goffman analisa como determinadas características passam socialmente a dominar a percepção que os outros possuem de uma pessoa. É especialmente útil para pensar HIV, identidade e estigma.

Susan Sontag — A doença como metáfora (1978) e Aids e suas metáforas (1989).
Também fora da psicanálise, Sontag é essencial para compreender como sociedades constroem significados morais em torno de determinadas condições de saúde. Sua discussão sobre a aids ajuda a entender por que o HIV nunca chegou ao sujeito apenas como uma informação biomédica: ele já vinha carregado de metáforas, medo e julgamento.

UNAIDS — materiais sobre estigma e discriminação relacionados ao HIV.
Complementam a discussão teórica mostrando como estigma, discriminação e estigma internalizado continuam afetando a qualidade de vida e o acesso à saúde de pessoas vivendo com HIV.

Em uma frase

Talvez a maior lição que podemos retirar de Cavalo de Fogo seja que descobrir uma nova verdade sobre a própria história não precisa destruir quem você era. O desafio é conseguir integrá-la sem deixar que ela defina tudo aquilo que você é.