Como conversar com seus pais e avós sobre prevenção do HIV

Você já tentou conversar com seus pais ou avós sobre prevenção do HIV?

Se a resposta for “não”, saiba que você não está sozinho.

Na maioria das famílias esse assunto nunca aparece na mesa do almoço, na sala de casa ou durante uma conversa tranquila. E isso acontece por um motivo: para muitas pessoas que hoje têm mais de 60 anos, falar sobre HIV ainda traz lembranças muito difíceis.

Eles viveram os anos 1980 e 1990.

Naquela época, o HIV era cercado de medo. Os tratamentos ainda não existiam como existem hoje. Muitas pessoas adoeciam rapidamente, muitos artistas morreram, havia muito preconceito e quase ninguém falava sobre prevenção de forma aberta.

Por isso, quando você tocar nesse assunto, lembre-se: talvez seus pais ou avós não estejam evitando a conversa por falta de interesse. Talvez estejam evitando porque cresceram acreditando que HIV era sinônimo de sofrimento.

E a primeira coisa que você pode fazer é reconhecer isso.

Você pode começar dizendo:

“Eu imagino que esse assunto seja diferente para vocês. Muita coisa mudou desde aquela época, e achei importante conversar porque hoje a medicina sabe muito mais sobre o HIV.”

Só essa frase já muda completamente o tom da conversa.

Você não está dando uma bronca.

Você está dividindo uma informação.

A realidade mudou

Hoje, uma pessoa que vive com HIV pode trabalhar, estudar, viajar, construir uma família e envelhecer com qualidade de vida.

E existe uma informação que muitas pessoas da geração dos seus pais e avós nunca receberam:

Quem vive com HIV, faz o tratamento corretamente e mantém a carga viral indetectável não transmite o vírus por via sexual.

No Brasil, essa informação é reconhecida oficialmente pelo Ministério da Saúde por meio da Nota Técnica nº 376/2023, que adota o conceito de Indetectável = Zero (I = 0).

Ou seja:

Quem é indetectável transmite zero risco de HIV por via sexual.

Essa foi uma das maiores descobertas da história do HIV e ajudou milhões de pessoas a viverem com menos medo e menos preconceito.

Mas então ainda precisamos falar sobre prevenção?

Sim.

Porque prevenção é cuidado.

E hoje existem várias formas de prevenção que trabalham juntas.

Os especialistas chamam isso de prevenção combinada.

Pense como um carro.

Ele não tem apenas o cinto de segurança.

Também tem freios, airbags, retrovisores, faróis e pneus.

Cada item aumenta a segurança.

Com a prevenção do HIV acontece a mesma coisa.

O preservativo continua sendo importante

Você pode explicar assim:

“Vocês lembram da camisinha? Ela continua sendo uma ferramenta muito importante.”

Ela ajuda a prevenir o HIV e também outras infecções sexualmente transmissíveis, como sífilis, gonorreia e clamídia.

Ela continua fazendo parte da prevenção.

O gel lubrificante também protege

Essa é uma informação que pouca gente conhece.

Você pode dizer:

“Sabiam que o gel lubrificante também ajuda?”

Quando ele é usado junto com o preservativo, diminui o atrito durante a relação sexual.

Isso reduz as chances de o preservativo romper e também diminui pequenas lesões na pele ou nas mucosas, que podem facilitar a transmissão do HIV e de outras ISTs.

Por isso, o Ministério da Saúde recomenda o uso de lubrificantes à base de água ou silicone junto com o preservativo.

Existe um medicamento para prevenir antes da exposição: a PrEP

Outra novidade é a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição).

Você pode explicar de um jeito simples:

“É um remédio que algumas pessoas tomam antes de uma possível exposição ao HIV para evitar a infecção.”

Quando usada corretamente, a PrEP reduz em mais de 99% o risco de transmissão do HIV por via sexual.

Ela é indicada para pessoas que podem se beneficiar dessa proteção adicional e está disponível gratuitamente pelo SUS.

E existe a PEP

Imagine que aconteceu um imprevisto.

O preservativo rompeu.

Ou aconteceu uma situação em que a pessoa acredita que pode ter sido exposta ao HIV.

Nesses casos existe a PEP (Profilaxia Pós-Exposição).

Você pode explicar assim:

“É como um atendimento de urgência. A pessoa procura um serviço de saúde o mais rápido possível e inicia um tratamento para diminuir muito o risco de infecção.”

A PEP deve ser iniciada em até 72 horas após a exposição, mas quanto antes ela for iniciada, maior é sua eficácia.

Muita gente nunca ouviu falar dessa possibilidade.

Fazer o teste também é prevenção

Outra conversa importante é sobre a testagem.

Você pode dizer:

“Assim como fazemos exames para medir colesterol, glicose ou pressão, também podemos fazer o teste para HIV.”

Fazer o teste não significa que alguém está doente.

Também não significa falta de confiança.

Significa cuidar da própria saúde.

Quando o diagnóstico acontece cedo, a pessoa pode iniciar o tratamento rapidamente, viver bem e, ao alcançar a carga viral indetectável, chegar ao I = 0, interrompendo a transmissão sexual do HIV.

Os números mostram que precisamos conversar mais

Segundo análises do Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, os diagnósticos em pessoas com 60 anos ou mais aumentaram cerca de 416% na última década.

Os pesquisadores explicam que isso acontece porque muitas pessoas idosas:

  • nunca receberam orientações sobre prevenção;
  • não se consideram em risco;
  • sentem vergonha de falar sobre saúde sexual;
  • e, muitas vezes, nem os profissionais de saúde abordam esse assunto durante as consultas.

Por isso, conversar faz diferença.

O mais importante

Você não precisa chegar dizendo:

“Vocês estão fazendo tudo errado.”

Isso provavelmente vai encerrar a conversa.

Em vez disso, experimente:

“Posso compartilhar uma coisa que eu aprendi?”

ou

“Vocês sabiam que hoje existem formas de prevenção que não existiam quando vocês eram jovens?”

Ou ainda:

“Sabiam que hoje uma pessoa vivendo com HIV pode não transmitir o vírus quando faz o tratamento corretamente?”

Essas perguntas despertam curiosidade.

E quando existe curiosidade, existe espaço para aprender.

No fim das contas, conversar sobre HIV não é falar sobre medo.

É falar sobre informação.

É falar sobre respeito.

É falar sobre cuidado.

Porque a prevenção não tem idade.

E quem a gente ama também merece conhecer tudo o que a ciência descobriu nos últimos 40 anos.

Referências teóricas

  • Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025.
  • Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Prevenção Combinada do HIV, IST e Hepatites Virais.
  • Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pré-Exposição (PrEP).
  • Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pós-Exposição (PEP).
  • Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 376/2023 – Indetectável = Zero (I = 0).
  • Rodger AJ et al. PARTNER 1 (2016) e PARTNER 2 (2019).
  • Cohen MS et al. HPTN 052 (2011; seguimento em 2016).
  • Opposites Attract Study Group (2017).
  • UNAIDS. Undetectable = Untransmittable (U=U).
  • CDC. HIV Prevention: PrEP, PEP and Treatment as Prevention.
  • Jornal da USP. Casos de HIV vêm aumentando na população idosa (2024), com análise dos dados do Ministério da Saúde.