HIV e a psicologia do medo: quando o próprio médico mantém o estigma

A ciência sobre o HIV mudou profundamente.

Hoje sabemos que uma pessoa vivendo com HIV, em tratamento e mantendo carga viral abaixo de 200 cópias/mL, não transmite o HIV por via sexual.

É o princípio Indetectável = Intransmissível (I=I).

No Brasil, o Ministério da Saúde utiliza uma mensagem ainda mais direta:

I=I=0.

Indetectável = Intransmissível = zero risco de transmissão sexual enquanto a supressão viral é mantida.

Mesmo assim, pesquisas brasileiras mostram algo preocupante: essa informação nem sempre chega às pessoas vivendo com HIV de maneira clara.

Mais do que isso: estudos mostram que alguns profissionais demonstram preocupação de que, ao compreender I=I, o paciente deixe de utilizar preservativo ou mude suas práticas sexuais.

Isso abre uma discussão que vai muito além da infectologia:

até onde vai a orientação médica e onde começa a tentativa de controlar a sexualidade do paciente através do medo?

Um estudo brasileiro encontrou exatamente esse conflito

Um estudo publicado na revista Physis, realizado com infectologistas de um Serviço de Assistência Especializada de Salvador, Bahia, investigou como esses profissionais compreendiam a carga viral indetectável e a intransmissibilidade do HIV.

O título já revela a complexidade encontrada:

“Modelo matemático pra uma coisa que não é matemática: narrativas de médicos/as infectologistas sobre carga viral indetectável e intransmissibilidade do HIV”.

Nas entrevistas, a comunicação da indetectabilidade apareceu cercada de dúvidas, tensões e preocupações.

Entre elas estava o receio de que a pessoa, ao saber que não transmite sexualmente, pudesse “relaxar” nos cuidados preventivos ou deixar de utilizar preservativo.

Isso produz uma questão ética enorme.

Uma informação sobre a própria condição de saúde pode ser omitida, enfraquecida ou relativizada porque o profissional teme o que o paciente fará sexualmente depois de conhecê-la?

Os próprios autores colocam a discussão no campo do direito à informação.

197 médicos brasileiros: um resultado que chama atenção

Outro estudo brasileiro, publicado em 2023, investigou conhecimentos e atitudes sobre I=I entre 197 médicos de diferentes especialidades.

O resultado merece atenção:

74% concordavam que pessoas em tratamento regular e indetectáveis não transmitem HIV sexualmente.

Porém:

apenas 66% concordavam que pessoas vivendo com HIV deveriam ser informadas disso.

Existe, portanto, uma diferença entre reconhecer a evidência e considerar que ela deve necessariamente ser comunicada ao paciente.

O estudo também encontrou diferenças entre especialidades, com maior conhecimento entre infectologistas do que entre ginecologistas, urologistas e médicos de clínica médica.

Isso mostra que I=I não é apenas uma questão de produzir evidência científica.

Existe também um desafio de formação e comunicação médica.

E muitas pessoas vivendo com HIV ainda desconhecem essa informação

Outro estudo brasileiro, publicado na Acta Paulista de Enfermagem, avaliou 286 pessoas vivendo com HIV atendidas em cinco serviços especializados.

Apenas 15% apresentaram conhecimento sobre a eficácia do tratamento como prevenção.

Esse resultado não permite afirmar que médicos deliberadamente esconderam I=I dessas pessoas.

Existem diversas razões pelas quais uma informação pode não chegar ou não ser compreendida.

Mas o número revela uma lacuna importante.

Se alguém frequenta um serviço especializado em HIV, recebe tratamento e realiza exames de carga viral, existe uma pergunta inevitável:

em algum momento alguém explicou claramente o que significa estar indetectável também para sua vida sexual?

O problema não é recomendar preservativo

Preservativos continuam sendo excelentes ferramentas de prevenção.

Eles ajudam a reduzir a transmissão de diversas outras ISTs e podem evitar gravidez quando aplicável.

Um médico pode perfeitamente dizer:

“Você está indetectável e não transmite HIV sexualmente. O preservativo continua sendo uma estratégia importante para outras ISTs.”

Isso é informação baseada em evidências.

O problema surge quando a comunicação passa a ser:

“Melhor continuar usando porque sempre existe algum risco de transmitir HIV.”

Ou quando existe o pensamento:

“Se eu explicar I=I claramente, talvez ele pare de usar preservativo.”

Nesse momento, existe o risco de a informação científica ser utilizada como instrumento para induzir determinado comportamento.

Informação não deveria depender do comportamento que o médico deseja

Esse fenômeno pode ser compreendido através do conceito de paternalismo médico.

Durante muito tempo, a relação médico-paciente foi organizada em torno da ideia:

“O médico sabe o que é melhor e o paciente deve obedecer.”

A bioética contemporânea deslocou progressivamente essa relação para outro modelo:

autonomia e decisão compartilhada.

O profissional apresenta informações, riscos, benefícios e alternativas.

O paciente participa da decisão.

Para isso acontecer, porém, existe uma condição básica:

a pessoa precisa receber todas as informações relevantes.

Se uma informação é omitida porque o profissional teme aquilo que o paciente fará depois de conhecê-la, a autonomia fica comprometida.

A sexualidade do paciente não pertence ao médico

Uma pessoa adulta e devidamente informada tem direito de decidir como deseja viver sua sexualidade.

Isso não significa ignorar riscos.

Significa apresentar riscos de maneira correta.

O profissional pode conversar sobre:

preservativos;

outras ISTs;

vacinação;

testagem periódica;

PrEP para parceiros quando indicada;

PEP;

saúde sexual;

tratamento;

adesão;

e prevenção combinada.

Depois disso, a decisão sobre usar ou não preservativo pertence às pessoas envolvidas.

O médico pode recomendar preservativo.

Mas não deveria precisar criar ou exagerar um risco de transmissão do HIV para convencer alguém a utilizá-lo.

Quando o parceiro entra no consultório

Existe ainda uma situação especialmente delicada.

Uma pessoa vivendo com HIV pode levar sua parceria sorodiferente à consulta justamente para que ambos entendam melhor I=I.

Esse deveria ser um momento poderoso de educação.

O profissional poderia dizer:

“Seu parceiro está indetectável. Mantendo essa condição, ele não transmite HIV sexualmente.”

Mas existem relatos de pessoas vivendo com HIV que descrevem experiências muito diferentes.

Comentários como:

“Você não tem medo?”

“Você tem coragem de ficar com ele?”

“Mesmo assim eu usaria camisinha.”

ou demonstrações de surpresa diante de uma relação sorodiferente.

Uma frase dessas pode parecer pequena.

Mas quando ela vem de uma autoridade médica, seu peso psicológico é enorme.

A mensagem que pode chegar ao parceiro é:

“Esta pessoa representa um perigo para você.”

E a mensagem que pode chegar à pessoa vivendo com HIV é:

“Mesmo indetectável, você continua sendo perigoso.”

O consultório também pode produzir estigma

O estigma relacionado ao HIV não existe apenas fora dos serviços de saúde.

Pesquisas nacionais e internacionais já documentaram situações de julgamento, medo exagerado de transmissão, quebra de confidencialidade, desconforto profissional e moralização das práticas sexuais de pessoas vivendo com HIV.

Em 2023, o UNICEF Brasil, em parceria com outras organizações, publicou o estudo:

“Nós somos a resposta”.

A pesquisa ouviu adolescentes e jovens vivendo com HIV sobre suas experiências nos serviços de saúde.

Aproximadamente um em cada cinco participantes relatou experiências envolvendo questões como desrespeito à privacidade, desconforto durante o atendimento ou sentimentos de culpa ou vergonha relacionados ao HIV.

Entre as recomendações do documento está algo extremamente relevante:

desenvolver um protocolo de comunicação de I=I para profissionais de saúde, educadores e outros profissionais.

Isso mostra que comunicar I=I corretamente também é uma questão de qualidade do cuidado.

“Você não aprendeu depois do HIV?”

Outra forma de moralização pode aparecer quando uma pessoa vivendo com HIV recebe diagnóstico de outra IST.

Sífilis.

Gonorreia.

Clamídia.

HPV.

Hepatites.

A resposta profissional deveria ser:

diagnosticar;

tratar;

investigar outras ISTs;

orientar;

vacinar quando indicado;

e discutir estratégias de prevenção adequadas à realidade daquela pessoa.

Mas o atendimento pode assumir outro tom:

“Você ainda faz sexo sem camisinha?”

“Depois do HIV você não aprendeu?”

“Você continua se expondo?”

Isso transforma uma consulta de saúde em julgamento moral.

E julgamento não necessariamente produz prevenção.

Pode produzir vergonha.

E vergonha pode afastar pessoas dos serviços de saúde.

O medo da “reinfecção”

Outra informação utilizada algumas vezes para assustar pessoas vivendo com HIV é:

“Você já tem HIV, mas pode pegar outro HIV.”

Aqui precisamos separar ciência de terrorismo.

Existe um fenômeno chamado superinfecção pelo HIV.

Ele acontece quando uma pessoa que já vive com uma cepa do HIV posteriormente adquire outra cepa geneticamente diferente.

Superinfecção existe.

Existem casos documentados.

Portanto, seria incorreto dizer que isso nunca acontece.

Mas também é incorreto apresentar esse fenômeno como se fosse uma ameaça frequente e inevitável para pessoas em tratamento moderno e com supressão viral.

Estudos mostram que a superinfecção por vírus resistentes é rara.

Além disso, parte importante da literatura histórica sobre superinfecção envolve contextos diferentes da realidade atual: pessoas sem tratamento, replicação viral ativa ou períodos anteriores aos esquemas antirretrovirais modernos.

O estudo HOPE ajuda a entender essa discussão

Um cenário particularmente interessante vem dos transplantes.

Nos Estados Unidos, o HOPE Act possibilitou transplantes de órgãos entre pessoas vivendo com HIV.

Ou seja:

um receptor vivendo com HIV pode receber um órgão de um doador que também vive com HIV.

Isso cria uma oportunidade científica importante para estudar superinfecção.

Em uma análise publicada em 2025, pesquisadores avaliaram detalhadamente receptores de rins de doadores vivendo com HIV.

Entre 18 receptores estudados em profundidade, foi confirmado um caso de superinfecção proveniente do doador, sem consequência clínica significativa identificada.

É fundamental não interpretar esse estudo de maneira errada.

Transplante de órgãos não é relação sexual.

Ele não calcula o risco de superinfecção durante o sexo.

Mas demonstra algo importante para nossa discussão:

superinfecção é biologicamente possível, porém precisa ser comunicada dentro de seu contexto e de sua frequência.

Usar um fenômeno raro como uma espécie de fantasma para controlar a sexualidade de pessoas vivendo com HIV não é uma comunicação proporcional do risco.

O medo pode permanecer mesmo depois do vírus se tornar indetectável

Aqui entramos na psicologia.

Imagine uma pessoa que durante anos ouviu:

“Você pode transmitir.”

“Você precisa proteger os outros.”

“Cuidado para não infectar alguém.”

“Seu parceiro está correndo risco.”

Essa pessoa pode começar a construir uma representação psicológica do próprio corpo:

“Meu corpo é perigoso.”

O tratamento começa.

A carga viral cai.

Ela fica indetectável.

A ciência diz que não transmite sexualmente.

Mas emocionalmente o medo pode continuar.

Isso pode aparecer como:

culpa durante o sexo;

medo constante de transmitir;

ansiedade;

hipervigilância;

dificuldade de confiar em I=I;

medo de relacionamentos;

dificuldade de revelar o diagnóstico;

vergonha da própria sexualidade;

necessidade constante de confirmação;

ou percepção do próprio corpo como contaminante.

A carga viral desaparece dos exames.

Mas o medo pode continuar ocupando a cabeça.

É por isso que I=I também é saúde mental

I=I não deveria ser tratado apenas como uma estratégia epidemiológica.

Existe uma dimensão psicológica profundamente importante.

Dizer para uma pessoa:

“Você está indetectável e não transmite HIV sexualmente.”

pode ajudar a reconstruir:

autoestima;

segurança;

intimidade;

relacionamentos;

sexualidade;

e percepção do próprio corpo.

Pesquisas internacionais encontraram associação entre conhecimento e confiança em I=I e menor preocupação com a transmissão.

Outros estudos mostram que conversar sobre I=I com profissionais de saúde está associado a melhores indicadores relacionados à saúde sexual e ao tratamento.

Portanto:

informar também pode ser uma intervenção contra o estigma.

O próprio Ministério da Saúde diz I=I=0

Hoje, o Ministério da Saúde brasileiro utiliza explicitamente:

I=I=0.

Indetectável = Intransmissível = zero risco de transmissão sexual.

Não é:

“quase zero”.

Não é:

“provavelmente não transmite”.

Não é:

“muito difícil transmitir”.

É zero risco sexual enquanto os critérios de supressão viral são mantidos.

Isso não significa que preservativos perderam sua função.

Não significa que outras ISTs desapareceram.

Não significa abandonar exames.

Muito menos abandonar o tratamento.

Significa apenas comunicar corretamente aquilo que a ciência estabeleceu sobre transmissão sexual do HIV.

Informação não pode ser prêmio por “bom comportamento”

Talvez este seja o ponto mais importante desta discussão.

Uma pessoa vivendo com HIV não deveria precisar prometer:

“Vou continuar usando preservativo.”

para então receber todas as informações sobre sua própria condição.

Informação não é recompensa.

Também não deveria ser instrumento disciplinar.

O profissional pode orientar.

Pode recomendar.

Pode conversar sobre consequências.

Pode propor estratégias.

Pode trabalhar redução de danos.

Mas não deveria escolher quanto da ciência o paciente merece conhecer com base no comportamento sexual que gostaria que ele tivesse.

Também não podemos transformar todos os médicos em vilões

Essa discussão precisa ser justa.

Existem infectologistas, médicos de família e outros profissionais extraordinários trabalhando diariamente para combater o estigma relacionado ao HIV.

Profissionais que explicam I=I.

Que acolhem casais sorodiferentes.

Que respeitam diferentes formas de viver a sexualidade.

Que trabalham com redução de danos.

Que compreendem prevenção combinada.

Que respeitam autonomia.

Portanto, a crítica não é contra “os médicos”.

É contra práticas médicas desatualizadas, paternalistas, estigmatizantes ou moralizantes.

E pesquisas brasileiras mostram que temos motivos concretos para discutir essas práticas.

O HIV mudou. O cuidado também precisa mudar.

Durante décadas, o medo foi utilizado como ferramenta de prevenção.

Hoje temos instrumentos muito melhores.

Temos tratamento.

Temos preservativos.

Temos PrEP.

Temos PEP.

Temos testagem.

Temos vacinação.

Temos prevenção combinada.

E temos uma das descobertas mais transformadoras da história da epidemia:

Indetectável = Intransmissível.

Uma pessoa vivendo com HIV não precisa ser mantida em permanente estado de medo para aderir ao tratamento ou cuidar da própria saúde.

Ela precisa de informação.

Precisa de acompanhamento.

Precisa de acolhimento.

Precisa de autonomia.

E precisa ser reconhecida como uma pessoa capaz de tomar decisões sobre o próprio corpo e a própria sexualidade.

O papel da medicina deveria ser utilizar a ciência para diminuir o medo.

Não utilizar o medo para controlar aquilo que o paciente fará com a ciência.

Base científica e referências

Silva, L. A. V.; Duarte, F. M.; Lima, M. (2020). Modelo matemático pra uma coisa que não é matemática: narrativas de médicos/as infectologistas sobre carga viral indetectável e intransmissibilidade do HIV. Physis: Revista de Saúde Coletiva, 30(1). Pesquisa realizada em Salvador que discute as narrativas de infectologistas sobre indetectabilidade, intransmissibilidade, prevenção, direito à informação e preocupações relacionadas às mudanças nas práticas preventivas.

Nunes, N. N. et al. (2023). Is U=U consistently known and implemented? A survey among different medical specialists in Brazil. International Journal of STD & AIDS, 34(6), 395–401. Pesquisa com 197 médicos brasileiros. Cerca de 74% concordaram que pessoas em tratamento regular e indetectáveis não transmitem HIV sexualmente, enquanto aproximadamente 66% concordaram que as pessoas vivendo com HIV deveriam ser informadas disso.

Lioi, F. M. et al. (2023). Tratamento como prevenção na perspectiva de pessoas vivendo com HIV/aids. Acta Paulista de Enfermagem, 36. Pesquisa com 286 pessoas vivendo com HIV atendidas em cinco serviços especializados. Apenas 15% apresentaram conhecimento sobre a eficácia do tratamento como prevenção.

UNICEF Brasil (2023). Nós somos a resposta: o que adolescentes e jovens que vivem com HIV/aids pensam sobre o acesso aos serviços de saúde no Brasil. O relatório apresenta experiências de jovens dentro dos serviços e recomenda, entre outras medidas, aprimorar a comunicação de I=I.

Ministério da Saúde – Tratamento como Prevenção / I=I=0. O Ministério da Saúde reconhece que pessoas vivendo com HIV que mantêm carga viral abaixo de 200 cópias/mL não transmitem HIV sexualmente e utiliza a mensagem I=I=0.

HPTN 052. Ensaio clínico histórico que demonstrou o enorme impacto do tratamento antirretroviral na prevenção da transmissão sexual do HIV.

PARTNER e PARTNER2. Estudos com casais sorodiferentes que forneceram evidências fundamentais para I=I, sem transmissões geneticamente ligadas ao parceiro com carga viral adequadamente suprimida durante as exposições analisadas.

Opposites Attract. Estudo com casais de homens sorodiferentes que também encontrou ausência de transmissão ligada ao parceiro com HIV durante supressão viral.

HOPE Act e estudos sobre superinfecção. Pesquisas envolvendo transplantes HIV-positivo para HIV-positivo permitem investigar diretamente a possibilidade de superinfecção. Os achados reforçam que o fenômeno existe, mas precisa ser interpretado dentro de seu contexto clínico e não extrapolado diretamente para risco sexual.

Referencial bioético: autonomia, consentimento informado, decisão compartilhada e crítica ao paternalismo médico são fundamentais para compreender por que o acesso à informação não deve depender do comportamento que o profissional deseja produzir no paciente.

Para consultar

SciELO: Modelo matemático pra uma coisa que não é matemática
DOI: 10.1590/S0103-73312020300105

PubMed: Is U=U consistently known and implemented?
PMID: 36693243

Acta Paulista de Enfermagem: Tratamento como prevenção na perspectiva de pessoas vivendo com HIV/aids
DOI: 10.37689/acta-ape/2023AO012323

UNICEF Brasil: Nós somos a resposta

Ministério da Saúde: Tratamento como Prevenção – I=I=0