Homens bissexuais: por que ainda são julgados na hora de namorar?

Um homem diz que sente atração por mulheres e por homens. A partir dessa informação, muitas pessoas passam a questionar sua capacidade de ser fiel, sua masculinidade, o que ele realmente deseja e até se sua orientação sexual seria apenas uma fase antes de se assumir homossexual.

Essas dúvidas aparecem com frequência quando homens bissexuais tentam construir relacionamentos com mulheres. Embora existam muitas mulheres que se relacionam normalmente com homens bissexuais, outras ainda demonstram resistência, insegurança ou rejeição.

Mas de onde vem esse medo?

Ele é resultado de experiências concretas ou de preconceitos que aprendemos ao longo da vida?

A resposta envolve a forma como nossa sociedade construiu ideias sobre masculinidade, fidelidade, desejo e orientação sexual.

A bissexualidade não é indecisão

A bissexualidade pode ser entendida como a possibilidade de sentir atração afetiva ou sexual por pessoas de mais de um gênero.

Isso não significa que a atração aconteça ao mesmo tempo, com a mesma intensidade ou da mesma maneira. Um homem bissexual pode sentir maior atração por mulheres, maior atração por homens ou perceber mudanças ao longo da vida.

Ele também pode namorar apenas mulheres, apenas homens ou ter vivido relações com diferentes gêneros. Seu histórico de relacionamentos não determina sozinho sua orientação sexual.

Uma pessoa não deixa de ser bissexual quando começa uma relação monogâmica. Da mesma forma que um homem heterossexual continua heterossexual quando escolhe uma única mulher, o homem bissexual não perde sua orientação quando escolhe um parceiro ou uma parceira.

A bissexualidade é uma orientação sexual reconhecida, não uma etapa obrigatória entre a heterossexualidade e a homossexualidade. A literatura sobre saúde e estresse de minorias mostra que pessoas bissexuais enfrentam formas próprias de estigma, discriminação e invalidação, inclusive dentro de comunidades heterossexuais e LGBTQIA+. (PubMed)

“Tenho medo de que ele perceba que é gay”

Uma das crenças mais comuns é a de que todo homem bissexual seria, na verdade, um homem gay que ainda não conseguiu se assumir.

Essa ideia apaga a existência da bissexualidade masculina.

Quando um homem bissexual se relaciona com uma mulher, algumas pessoas dizem que ele é heterossexual. Quando se relaciona com um homem, passam a dizer que ele finalmente se assumiu gay. Em nenhuma das duas situações sua identidade é completamente reconhecida.

Isso acontece porque ainda estamos acostumados a determinar a orientação sexual de uma pessoa apenas observando com quem ela está naquele momento.

Um relacionamento mostra quem aquela pessoa escolheu como parceiro, não todas as pessoas pelas quais ela poderia sentir atração.

Um homem bissexual não é metade heterossexual e metade homossexual. Ele é uma pessoa inteira, com uma orientação que não precisa ser dividida em dois lados.

Orientação sexual não determina fidelidade

Outro medo frequente é o de que o homem bissexual tenha mais possibilidades de traição porque pode sentir atração por homens e mulheres.

Mas quantidade de pessoas pelas quais alguém pode sentir atração não determina sua capacidade de estabelecer um compromisso.

Um homem heterossexual pode encontrar inúmeras mulheres atraentes e ainda assim respeitar os acordos de seu relacionamento. O mesmo vale para pessoas homossexuais e bissexuais.

Fidelidade está relacionada a escolhas, valores, honestidade, comunicação e aos acordos construídos pelo casal. Não é possível prever se alguém será fiel observando sua orientação sexual.

A ideia de que pessoas bissexuais seriam naturalmente promíscuas ou incapazes de manter relações monogâmicas é um estereótipo. Sentir atração por mais de um gênero não significa precisar se relacionar com todos eles.

Uma pessoa bissexual pode desejar uma relação monogâmica, uma relação aberta ou não desejar qualquer relacionamento. Essas possibilidades também existem entre pessoas heterossexuais e homossexuais.

Por que a bissexualidade masculina incomoda tanto?

Parte da resposta está nas normas tradicionais de masculinidade.

Durante muito tempo, o homem considerado masculino deveria ser forte, dominante, pouco emotivo e exclusivamente interessado em mulheres. Qualquer demonstração de desejo por outro homem era tratada como uma ameaça à masculinidade.

Mesmo quando um homem bissexual se relaciona com mulheres, a simples possibilidade de ele também desejar homens pode fazer com que sua masculinidade seja questionada.

Pesquisas brasileiras sobre preconceito sexual mostram que a rejeição às orientações não heterossexuais está profundamente ligada à rejeição das pessoas que não correspondem às expressões tradicionais de gênero. Em outras palavras, o preconceito contra a orientação sexual se mistura ao policiamento sobre como um homem deveria se comportar, falar, vestir-se ou demonstrar afeto. (SciELO Brasil)

O julgamento não se limita ao desejo. Ele também envolve a posição que esse homem ocupa na hierarquia social das masculinidades.

Um homem pode ser visto como “menos homem” apenas porque sente atração por outro homem, ainda que sua personalidade, sua aparência e sua maneira de viver não tenham mudado.

O medo de ser “trocada por um homem”

Algumas mulheres relatam que conseguiriam lidar com uma traição envolvendo outra mulher, mas se sentiriam especialmente afetadas se o parceiro se envolvesse com um homem.

Isso pode acontecer porque elas imaginam que não poderiam competir com algo que não possuem.

Mas relacionamentos não deveriam ser entendidos como uma competição entre corpos ou gêneros.

Quando alguém trai, a questão principal não é se a terceira pessoa é homem ou mulher. A questão é que um acordo foi rompido.

Também não existe uma necessidade que apenas um homem ou apenas uma mulher consiga obrigatoriamente preencher. O desejo humano não funciona como uma lista de itens que precisam ser encontrados em parceiros diferentes.

Um homem bissexual pode escolher uma mulher porque sente desejo, afeto, admiração e vontade de construir uma vida com ela. O fato de ele também poder sentir atração por homens não torna esses sentimentos menos verdadeiros.

Freud e a complexidade do desejo

No início do século XX, Sigmund Freud já questionava a ideia de que a sexualidade humana pudesse ser dividida de forma absolutamente rígida.

Em seus textos, Freud trabalhou com a noção de uma disposição bissexual originária. Para ele, a formação do desejo e da identidade não ocorria por um caminho simples ou inteiramente previsível.

Isso não significa que Freud afirmasse que todas as pessoas seriam bissexuais da mesma forma como compreendemos essa identidade atualmente. Seus conceitos pertencem a outro contexto histórico e não devem ser usados como diagnóstico da orientação sexual de ninguém.

Sua contribuição para essa discussão está em reconhecer que a vida psíquica não se organiza necessariamente dentro das divisões rígidas criadas pela sociedade.

Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, publicado em 1905, Freud rompeu com parte da moralidade de sua época ao defender que a sexualidade estava presente desde a infância e que o desejo humano possuía diferentes caminhos e objetos.

Muitos pontos de sua teoria foram posteriormente criticados, modificados ou abandonados. Ainda assim, Freud ajudou a retirar a sexualidade do campo puramente moral e colocá-la como tema legítimo de investigação.

O que Foucault pode nos ensinar?

Michel Foucault nos ajuda a entender que a sexualidade não é apenas algo que sentimos. Ela também é algo sobre o qual a sociedade fala, classifica, controla e estabelece regras.

Em História da sexualidade, Foucault analisou como instituições como a medicina, a religião, a justiça e a família passaram a produzir discursos sobre aquilo que seria considerado normal ou anormal.

A partir do século XIX, práticas sexuais passaram a ser utilizadas para definir tipos de pessoas.

O indivíduo não era mais apenas alguém que realizava determinada prática. Ele passava a ser classificado, observado e interpretado a partir dela.

Essa reflexão é importante para compreender o julgamento dirigido aos homens bissexuais.

Quando uma mulher conhece um homem bissexual, ela pode deixar de enxergar a pessoa concreta à sua frente e passar a enxergar tudo aquilo que aprendeu sobre esse rótulo.

Antes mesmo de conhecer seu caráter, seus valores e sua história, pode imaginá-lo como indeciso, promíscuo, pouco confiável ou menos masculino.

O preconceito transforma uma informação sobre o desejo em uma explicação completa sobre a pessoa.

A Escala de Kinsey e o fim das duas caixas

Em 1948, Alfred Kinsey e seus colaboradores publicaram Sexual Behavior in the Human Male e apresentaram uma escala que buscava representar a sexualidade para além da divisão entre heterossexuais e homossexuais.

A Escala de Kinsey vai de 0 a 6:

0: exclusivamente heterossexual
1: predominantemente heterossexual, com experiências ou atrações homossexuais ocasionais
2: predominantemente heterossexual, mas com atração homossexual mais do que ocasional
3: atração ou experiências heterossexuais e homossexuais em proporções semelhantes
4: predominantemente homossexual, mas com atração heterossexual mais do que ocasional
5: predominantemente homossexual, com experiências ou atrações heterossexuais ocasionais
6: exclusivamente homossexual

Também havia a classificação X, utilizada para pessoas que não relatavam respostas ou experiências sexuais.

A escala foi importante porque mostrou que nem todas as pessoas poderiam ser colocadas em apenas duas categorias. A realidade sexual apresentava diferentes combinações entre atração, comportamento e experiência. (Kinsey Institute)

No entanto, a Escala de Kinsey também possui limitações.

Ela foi construída dentro de uma visão binária de gênero, não diferencia completamente atração sexual, atração afetiva, comportamento e identidade e pode dar a impressão de que a bissexualidade seria apenas um ponto intermediário entre heterossexualidade e homossexualidade.

Hoje sabemos que a orientação sexual é mais complexa.

Um homem pode sentir atração sexual por mais de um gênero, mas desejar relações afetivas principalmente com mulheres. Outro pode perceber atração afetiva e sexual por diferentes gêneros, em intensidades que mudam ao longo do tempo.

A sexualidade não precisa funcionar como uma divisão matemática.

O Brasil ainda estuda pouco a bissexualidade

No Brasil, ainda existem poucos estudos voltados especificamente às experiências de homens bissexuais nos relacionamentos.

Parte das pesquisas reúne pessoas gays, lésbicas e bissexuais em um mesmo grupo. Embora esses estudos sejam importantes, eles podem esconder as formas específicas de preconceito enfrentadas por pessoas bissexuais.

Uma publicação do Instituto de Saúde de São Paulo destaca que a bissexualidade e suas especificidades ainda são pouco exploradas no campo acadêmico brasileiro. Essa ausência de estudos também contribui para a invisibilidade e para a dificuldade de desenvolver formas adequadas de acolhimento. (Portal de Periódicos SES-SP)

Na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, o IBGE investigou pela primeira vez, em caráter experimental, a orientação sexual autoidentificada da população adulta.

Cerca de 2,9 milhões de adultos se declararam homossexuais ou bissexuais. Do total da população adulta, 0,7% se declarou bissexual. Outros 3,6 milhões de adultos preferiram não responder à pergunta, enquanto 1,7 milhão declarou não saber sua orientação sexual. (Agência de Notícias – IBGE)

Esses números não significam necessariamente que apenas 0,7% da população brasileira seja bissexual.

O próprio IBGE alerta que fatores como privacidade, insegurança, desconhecimento dos termos, contexto social e receio de revelar a orientação sexual podem influenciar as respostas.

Quando milhões de pessoas ainda evitam responder a uma pergunta sobre orientação sexual, percebemos que falar sobre o próprio desejo continua sendo uma experiência atravessada pelo medo do julgamento.

A bifobia nem sempre aparece como ofensa

O preconceito contra pessoas bissexuais é chamado de bifobia.

Ela pode aparecer de maneira explícita, por meio de insultos, rejeição ou violência. Mas também pode surgir em frases aparentemente comuns:

“Você precisa escolher um lado.”

“Todo bissexual trai.”

“Homem bissexual é gay e ainda não se assumiu.”

“Você está apenas experimentando.”

“Eu respeito, mas nunca namoraria.”

A última frase exige uma reflexão cuidadosa.

Ninguém é obrigado a se relacionar com outra pessoa. A atração e a escolha amorosa não podem ser impostas.

Porém, quando alguém é automaticamente descartado apenas por ser bissexual, mesmo sem que seu comportamento, seus valores ou sua forma de se relacionar sejam conhecidos, pode existir um preconceito por trás dessa escolha.

Preferências pessoais também são construídas socialmente.

Durante a vida, aprendemos quais corpos seriam desejáveis, quais homens seriam considerados masculinos e quais relacionamentos seriam reconhecidos como seguros ou respeitáveis.

Questionar uma preferência não significa perder o direito de escolher. Significa investigar de onde essa escolha surgiu.

A associação injusta entre bissexualidade e HIV

Outro preconceito histórico contra homens bissexuais surgiu durante a epidemia de HIV.

Homens bissexuais foram muitas vezes apresentados como uma espécie de “ponte” que levaria o vírus de homens gays para mulheres heterossexuais.

Essa representação transformou uma orientação sexual em ameaça.

O risco de adquirir ou transmitir HIV não é determinado pela identidade sexual de uma pessoa. Ele depende de fatores como práticas sexuais, uso de preservativo, acesso à PrEP, testagem, compartilhamento de materiais perfurocortantes e realização adequada do tratamento.

Uma pessoa vivendo com HIV, em tratamento e com carga viral indetectável, não transmite o vírus por via sexual.

Não existe justificativa científica para considerar todo homem bissexual um risco maior apenas por causa de sua orientação.

Quando uma mulher associa automaticamente um homem bissexual ao HIV ou a outras infecções sexualmente transmissíveis, ela não está avaliando uma prática concreta. Está reproduzindo um estigma.

O duplo apagamento

Pessoas bissexuais podem sofrer rejeição tanto em espaços heterossexuais quanto em espaços gays e lésbicos.

Em contextos heterossexuais, podem ser vistas como homossexuais escondidas. Em alguns espaços LGBTQIA+, podem ser tratadas como pessoas que possuem o privilégio de parecer heterossexuais ou que não teriam assumido completamente sua identidade.

Esse processo é chamado de apagamento bissexual.

A pessoa existe, mas sua orientação é constantemente reinterpretada pelos outros.

Quando um homem bissexual está com uma mulher, é considerado heterossexual. Quando está com um homem, é considerado gay. Quando está solteiro, frequentemente é pressionado a explicar de qual gênero gosta mais.

Sua identidade parece depender permanentemente da validação de outras pessoas.

A discriminação e a invalidação podem produzir sofrimento, isolamento e dificuldades para revelar a orientação sexual até mesmo para parceiros afetivos. Revisões científicas associam o estigma contra pessoas bissexuais a piores indicadores de saúde mental, uso de substâncias e saúde sexual. (PubMed)

Quando o preconceito dificulta a honestidade

Muitas mulheres afirmam que se sentiriam enganadas caso descobrissem que o parceiro é bissexual depois de meses ou anos de relacionamento.

Esse sentimento pode ser legítimo quando existe uma quebra de confiança ou quando informações importantes foram intencionalmente escondidas.

No entanto, também é necessário perguntar por que tantos homens bissexuais sentem medo de contar.

Quando revelar a própria orientação pode resultar em rejeição, humilhação, perda do relacionamento ou exposição para familiares e amigos, o silêncio pode surgir como uma forma de proteção.

Isso não significa que esconder informações seja sempre a melhor escolha. Relacionamentos saudáveis precisam de confiança e diálogo.

Mas não é possível exigir abertura sem construir um ambiente seguro para que ela exista.

Quanto mais a sociedade pune homens que revelam atração por outros homens, mais difícil se torna viver essa orientação com honestidade.

Nem toda insegurança é preconceito

Também é importante não tratar toda dúvida como bifobia.

Uma mulher pode ter inseguranças, perguntas ou dificuldades para compreender uma experiência que nunca conheceu. Ela pode precisar conversar sobre fidelidade, limites, desejos, prevenção e expectativas para o relacionamento.

Essas conversas são legítimas.

O problema começa quando a orientação sexual é usada como prova de que o homem será infiel, perigoso, confuso ou incapaz de amar.

Existe diferença entre perguntar:

“Como você vive sua bissexualidade dentro de uma relação monogâmica?”

e afirmar:

“Você é bissexual, então nunca será fiel.”

Na primeira situação existe uma tentativa de conhecer a pessoa. Na segunda, o estereótipo já tomou o lugar dela.

O homem bissexual não precisa provar que é confiável

Muitas vezes, homens bissexuais precisam oferecer garantias que não são exigidas de homens heterossexuais.

Precisam provar que não vão abandonar a parceira por um homem, que não desejam relações com várias pessoas, que são suficientemente masculinos e que não estão usando a mulher como esconderijo.

Esse esforço permanente pode transformar o relacionamento em um interrogatório.

Toda pessoa deve demonstrar responsabilidade afetiva por meio de seu comportamento. Mas ninguém deveria começar uma relação considerado culpado apenas por sua orientação sexual.

O homem bissexual deve ser avaliado pelas mesmas questões que qualquer outro parceiro:

Ele respeita os acordos?

Consegue conversar com honestidade?

Demonstra cuidado?

Assume responsabilidades?

Está emocionalmente disponível?

Seus projetos são compatíveis com os da outra pessoa?

Essas perguntas dizem muito mais sobre a possibilidade de construir um relacionamento do que o gênero das pessoas pelas quais ele pode sentir atração.

Uma reflexão para as mulheres

Não se trata de dizer que toda mulher precisa namorar um homem bissexual.

Ninguém deve ser obrigado a se relacionar com alguém para provar que não possui preconceito.

Mas talvez seja importante perguntar:

Eu rejeitaria esse homem por algo que ele fez ou apenas por aquilo que imagino que ele fará?

Eu acredito que ele é menos masculino?

Acho que todo homem que sente atração por homens é, necessariamente, gay?

Estou confundindo orientação sexual com infidelidade?

Eu teria o mesmo medo se ele fosse heterossexual e já tivesse se relacionado com várias mulheres?

Minha insegurança nasceu da relação ou de histórias que ouvi sobre homens bissexuais?

Essas perguntas não servem para produzir culpa. Servem para revelar crenças que muitas vezes permanecem escondidas.

Preconceitos nem sempre aparecem como ódio declarado. Às vezes, aparecem como medo, desconfiança automática ou preferência que nunca foi questionada.

Amar alguém não apaga a bissexualidade

Quando um homem bissexual ama uma mulher, esse amor não é incompleto.

Ele não está necessariamente desejando estar com um homem. Não está vivendo apenas metade de sua sexualidade. Não precisa alternar parceiros de diferentes gêneros para confirmar quem é.

Da mesma forma, se ele ama um homem, isso não significa que deixou de ser bissexual.

A orientação sexual descreve possibilidades de atração. O relacionamento descreve uma escolha construída entre pessoas reais.

Reduzir alguém ao conjunto de pessoas que ele poderia desejar é esquecer daquela que ele efetivamente escolheu para estar ao seu lado.

Conclusão

Homens bissexuais ainda são julgados na hora de namorar porque sua existência desafia algumas das ideias mais rígidas da nossa cultura.

Eles desafiam a crença de que um homem só pode ser heterossexual ou gay.

Desafiam a associação entre masculinidade e desejo exclusivo por mulheres.

Desafiam a ideia de que a fidelidade depende da quantidade de gêneros pelos quais alguém pode sentir atração.

Freud mostrou que o desejo humano é mais complexo do que a moral de sua época admitia. Kinsey apresentou a sexualidade como um contínuo, embora sua escala não consiga representar toda a diversidade atual. Foucault mostrou que as categorias sexuais também são produzidas por discursos, instituições e relações de poder.

As pesquisas brasileiras indicam que o preconceito sexual está ligado às normas de gênero e que a bissexualidade ainda é pouco estudada e frequentemente invisibilizada.

Talvez a pergunta mais importante não seja se uma mulher deve ou não namorar um homem bissexual.

A pergunta é se estamos conhecendo as pessoas como elas realmente são ou rejeitando-as a partir de histórias que a sociedade contou sobre elas.

Um homem bissexual não é necessariamente mais confuso, mais promíscuo ou menos capaz de amar.

Ele apenas não organiza seu desejo dentro das duas caixas que aprendemos a considerar como as únicas possíveis.

Referências

American Psychological Association. Understanding Sexual Orientation and Homosexuality.

Costa AB, Bandeira DR, Nardi HC. Avaliação do preconceito contra diversidade sexual e de gênero: construção de um instrumento. Estudos de Psicologia. 2015.

Feinstein BA, Dyar C. Bisexuality, minority stress, and health. Current Sexual Health Reports. 2017.

Foucault M. História da sexualidade I: a vontade de saber. 1976.

Freud S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. 1905.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional de Saúde 2019: orientação sexual autoidentificada da população adulta. IBGE.

Kinsey AC, Pomeroy WB, Martin CE. Sexual Behavior in the Human Male. 1948.

Santos CGCO et al. Bissexualidade e saúde: experiência de roda de conversa e validação de material informativo. Boletim do Instituto de Saúde.

Vezzosi JÍP et al. Crenças e atitudes corretivas de profissionais da Psicologia sobre homossexualidade e bissexualidade. Psicologia: Ciência e Profissão. 2020.