Médico sanitarista morreu aos 77 anos deixando uma trajetória que começou quando o Brasil tinha apenas alguns casos conhecidos de aids e chegou à Organização Mundial da Saúde, à disputa internacional por medicamentos e à expansão do tratamento para países pobres.
Paulo Roberto Teixeira morreu em 19 de setembro de 2026, aos 77 anos. Dizer apenas que ele foi “uma referência na luta contra a aids”, porém, explica pouco sobre o tamanho de sua participação na história.
Para entender seu legado é preciso voltar a 1983.
Naquele momento, ainda não existia SUS. O HIV sequer havia recebido definitivamente o nome pelo qual o conhecemos hoje. Não existia tratamento capaz de controlar a infecção e a aids estava cercada por medo, mortes, desinformação e forte estigma contra homens gays.
E há um detalhe fundamental nessa história: a primeira resposta governamental estruturada à aids no Brasil não começou porque o governo espontaneamente decidiu agir.
Ela começou também pela pressão das próprias pessoas que estavam sendo atingidas.
Antes da política pública, vieram os ativistas
No primeiro semestre de 1983, integrantes e ex-integrantes do movimento homossexual de São Paulo procuraram a Secretaria de Estado da Saúde preocupados com aquilo que já estava acontecendo nos Estados Unidos e na Europa.
Segundo relato posterior do próprio Paulo Teixeira, havia naquele momento apenas quatro casos conhecidos no Brasil.
Mesmo assim, o grupo argumentava que era preciso agir.
A Secretaria de Saúde de São Paulo decidiu estruturar uma resposta.
Paulo Teixeira, então com cerca de 34 anos, estava à frente da Divisão de Hansenologia e Dermatologia Sanitária.
E isso ajuda a entender uma característica que marcaria a resposta brasileira ao HIV.
Ele já trabalhava com uma condição cercada por um enorme histórico de exclusão: a hanseníase.
A experiência de enfrentar não apenas uma questão biomédica, mas também o estigma associado a uma condição de saúde, influenciou a maneira como aquela nova epidemia começou a ser enfrentada.
Em setembro de 1983 foi lançado publicamente o Programa de Aids do Estado de São Paulo, considerado a primeira resposta governamental estruturada à epidemia no país.
Desde o início, não se tratava apenas de contar casos.
A estratégia reunia vigilância epidemiológica, informação, assistência ambulatorial e hospitalar, orientação aos profissionais e iniciativas para combater discriminação. Também foi criado um serviço telefônico de informação, o Disque Aids.
Isso aconteceu antes de o Ministério da Saúde estruturar sua própria resposta nacional, que começaria em 1985.
O HIV também ajudou a testar uma ideia que depois seria central ao SUS
Existe outro contexto pouco lembrado quando contamos essa história.
O programa paulista nasceu durante a redemocratização brasileira e em meio ao fortalecimento do movimento da Reforma Sanitária, que defendia saúde como direito de todos.
O SUS só seria criado constitucionalmente em 1988.
Portanto, algumas das ideias que posteriormente seriam fundamentais ao sistema público brasileiro já estavam sendo colocadas em prática naquela resposta inicial: responsabilidade do Estado, assistência pública, participação social e defesa de direitos.
Ao longo dos anos seguintes, Paulo Teixeira coordenaria o programa paulista em diferentes períodos: 1983–1987, 1990–1991 e 1995–1996.
Mas sua atuação acabaria ultrapassando São Paulo.
Quando tratar pessoas pobres ainda era considerado inviável
Hoje pode parecer evidente que uma pessoa vivendo com HIV deve receber tratamento independentemente de sua renda ou do país onde nasceu.
No início dos anos 2000, isso estava longe de ser consenso internacional.
Os antirretrovirais haviam transformado radicalmente a história da infecção, mas o preço dos medicamentos tornava o tratamento inacessível para milhões de pessoas nos países de baixa e média renda.
Havia uma discussão internacional particularmente dura: países com poucos recursos deveriam investir principalmente em prevenção ou também oferecer tratamento?
O Brasil tomou um caminho diferente.
Desde 1996, a legislação brasileira garantia a distribuição gratuita dos medicamentos necessários ao tratamento pelo sistema público.
Paulo Roberto Teixeira não criou sozinho essa política e não seria correto atribuir a ele a universalização do tratamento brasileiro.
Sua atuação posterior, entretanto, foi importante para defender a sustentabilidade desse modelo.
Entre 2000 e 2003, quando comandou o Programa Nacional de DST/Aids, Teixeira passou a confrontar um problema concreto:
como continuar oferecendo medicamentos para todos se os novos antirretrovirais patenteados custavam cada vez mais?
O Brasil colocou as patentes na mesa
A resposta brasileira passou a incluir negociação agressiva de preços, produção de medicamentos genéricos e a possibilidade de licenciamento compulsório de medicamentos patenteados.
Em outras palavras: se determinado medicamento fosse essencial à saúde pública e seu preço ameaçasse a sustentabilidade do programa, o país poderia utilizar mecanismos previstos nas regras internacionais de propriedade intelectual para permitir sua produção ou importação em outras condições.
Paulo Teixeira tornou-se um dos defensores públicos dessa estratégia.
Não era uma discussão abstrata.
Era uma pergunta muito concreta:
uma patente deveria impedir um governo de manter pessoas vivas?
O debate brasileiro passou a fazer parte de uma disputa internacional muito maior envolvendo governos, indústria farmacêutica, organizações da sociedade civil e organismos multilaterais.
Em 2001, a Declaração de Doha sobre o acordo TRIPS e saúde pública reafirmou que as regras internacionais de propriedade intelectual deveriam ser interpretadas de maneira a proteger a saúde pública e promover acesso a medicamentos.
É importante fazer uma distinção histórica: Teixeira participou desse movimento internacional, mas a Declaração de Doha não foi uma conquista individual dele nem exclusivamente brasileira.
Foi resultado de uma mobilização internacional muito mais ampla.
O Brasil virou argumento contra a ideia de que países pobres não poderiam tratar HIV
Talvez uma das contribuições mais importantes daquele período tenha sido simbólica e política.
O Brasil demonstrava que prevenção e tratamento não precisavam competir entre si.
Era possível fazer ambos.
Em 2003, o Programa Nacional de DST/Aids brasileiro recebeu o Gates Award for Global Health, no valor de US$ 1 milhão.
A justificativa do prêmio é reveladora.
A Fundação Gates destacou justamente a combinação brasileira entre distribuição gratuita de antirretrovirais e políticas de prevenção.
Naquele momento, aproximadamente 115 mil pessoas recebiam tratamento para HIV pelo sistema público brasileiro.
Estimativas apresentadas na premiação apontavam que, desde 1996, a política havia reduzido a mortalidade por aids em quase 50% e evitado centenas de milhares de internações hospitalares.
O dinheiro do prêmio não foi simplesmente incorporado ao governo.
Segundo a própria Fundação Gates, seria destinado ao apoio de organizações comunitárias que cuidavam de pessoas vivendo com HIV e de crianças órfãs em consequência da epidemia.
Paulo Teixeira era então diretor do programa brasileiro.
Pouco depois, sua atuação passaria de nacional para mundial.
De São Paulo para a Organização Mundial da Saúde
Em 2003, Paulo Roberto Teixeira assumiu a direção do Departamento de HIV/Aids da Organização Mundial da Saúde, em Genebra.
O cenário global era brutal.
Segundo o Ministério da Saúde, cerca de seis milhões de pessoas precisavam urgentemente de antirretrovirais nos países em desenvolvimento, mas apenas aproximadamente 400 mil estavam recebendo tratamento.
A OMS e o Unaids lançaram então uma das iniciativas mais ambiciosas daquele período:
“3 by 5”
O objetivo era colocar 3 milhões de pessoas em tratamento até o final de 2005.
Paulo Teixeira esteve entre os idealizadores da estratégia.
A meta não foi plenamente alcançada dentro do prazo originalmente estabelecido.
Mas seu significado histórico ultrapassou o número.
Tratamento para HIV deixou de ser discutido apenas como algo possível nos países ricos e passou a ser tratado como uma emergência global de saúde pública.
A experiência brasileira ajudava a sustentar uma tese que anos antes parecia radical:
não bastava ensinar uma pessoa pobre a evitar o HIV. Se ela vivesse com HIV, também tinha direito ao medicamento capaz de mantê-la viva.
Ele também participou da criação do Fundo Global
Há ainda uma parte de sua trajetória menos conhecida pelo público brasileiro.
Como representante da América Latina e do Caribe, Paulo Teixeira participou do processo de criação do Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária e integrou seu Conselho de Administração.
O Fundo Global se tornaria um dos principais mecanismos internacionais de financiamento do enfrentamento dessas três doenças.
Teixeira também trabalhou como consultor da Organização Pan-Americana da Saúde e, entre 1996 e 1999, como consultor técnico do Unaids para a América Central e o Cone Sul.
Sua carreira acompanhou, portanto, uma transformação extraordinária.
Ele começou trabalhando com aids quando praticamente não existia tratamento.
Décadas depois, discutia como fazer esses medicamentos chegarem a milhões de pessoas em diferentes continentes.
O detalhe que talvez explique boa parte dessa trajetória
Existe uma linha atravessando quase tudo o que Paulo Teixeira fez.
Ela começa antes mesmo do HIV.
Na hanseníase, ele havia encontrado uma condição médica transformada socialmente em motivo de exclusão.
Na aids, encontrou novamente uma infecção cercada por medo, julgamento moral e discriminação.
A resposta que ajudou a construir partia de uma ideia que hoje parece óbvia, mas não era:
não existe resposta eficaz a uma epidemia quando as pessoas afetadas são tratadas como o problema.
Por isso, movimentos sociais não foram vistos apenas como público-alvo das políticas.
Participaram da construção delas.
Pessoas vivendo com HIV não deveriam apenas receber ordens.
Tinham direitos.
E prevenção não poderia significar abandonar quem já vivia com HIV.
O legado também precisa ser contado sem criar um herói solitário
Transformar Paulo Roberto Teixeira no único responsável pela resposta brasileira ao HIV seria contraditório com a própria história que ele ajudou a construir.
O chamado “modelo brasileiro” nasceu de uma combinação rara entre profissionais de saúde, pesquisadores, gestores públicos, ativistas, organizações da sociedade civil e, principalmente, pessoas diretamente atingidas pela epidemia.
Foram movimentos sociais que pressionaram o Estado em 1983.
Foi uma mobilização política muito maior que construiu o SUS.
Foi o Congresso que aprovou a garantia legal do acesso aos medicamentos em 1996.
Foram pesquisadores, profissionais, organizações e pessoas vivendo com HIV que sustentaram a resposta durante décadas.
Paulo Roberto Teixeira foi uma das figuras centrais dessa construção.
E talvez justamente por compreender que uma epidemia não se enfrenta apenas dentro de consultórios.
De quatro casos conhecidos a uma política que atravessou fronteiras
Há algo impressionante quando observamos as duas pontas dessa história.
Em 1983, Paulo Teixeira participou de reuniões para decidir o que São Paulo deveria fazer diante de uma nova doença quando havia apenas quatro casos conhecidos no país.
Vinte anos depois, estava na Organização Mundial da Saúde ajudando a discutir como colocar milhões de pessoas em tratamento.
Entre esses dois momentos, o Brasil transformou-se em referência internacional na resposta ao HIV.
Não porque tenha eliminado a epidemia.
Não porque tenha feito tudo certo.
Mas porque ajudou a demonstrar algo que influenciaria a resposta mundial:
tratamento não é privilégio.
Prevenção e tratamento não precisam ser adversários.
E uma política contra o HIV que ignora direitos humanos deixa de enfrentar uma parte fundamental da própria epidemia.
Paulo Roberto Teixeira ajudou a levar essas ideias de São Paulo para o mundo.
Morreu em 19 de setembro de 2026.
Mas parte daquilo que hoje consideramos básico no enfrentamento ao HIV — acesso ao tratamento, participação social, enfrentamento ao estigma e saúde entendida como direito — carrega a história de uma geração da qual ele foi um dos principais representantes.
Referências principais
• Ministério da Saúde. Ministério da Saúde lamenta a morte do sanitarista Paulo Roberto Teixeira. 2026.
• Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo faz 33 anos e seu fundador, Paulo Teixeira, relembra sua história.
• Teodorescu, Lindinalva Laurindo; Teixeira, Paulo Roberto. O contexto político e social do nascimento do Programa de AIDS em São Paulo: a construção de um serviço de saúde pública.
• Calazans, Gabriela; Parker, Richard; Terto Jr., Veriano. Política, direitos humanos e Aids: uma conversa com Paulo Roberto Teixeira. Interface – Comunicação, Saúde, Educação.
• Bill & Melinda Gates Foundation. 2003 Gates Award for Global Health – Brazilian National AIDS Program.
• Organização Mundial da Saúde / Unaids. Estratégia 3 by 5.
• Organização Mundial do Comércio. Doha Declaration on the TRIPS Agreement and Public Health. 2001.
• Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária. Documentação histórica do Conselho de Administração.

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