Quem disse que quem vive com HIV não pode ser pai?

Durante muito tempo, receber um diagnóstico de HIV também significava ouvir uma série de limitações sobre o futuro.

“Você poderá ter filhos?”

“Seu bebê também terá HIV?”

“E se sua parceria não viver com HIV?”

“Vai precisar de reprodução assistida?”

Essas perguntas acompanharam gerações de pessoas vivendo com HIV. Algumas delas faziam sentido diante do conhecimento científico disponível naquela época. Outras nasceram do medo e do preconceito.

Mas o tratamento do HIV mudou.

A ciência avançou.

E hoje pessoas vivendo com HIV podem construir famílias, ter filhos biológicos e exercer a maternidade, a paternidade ou outras formas de parentalidade.

Isso inclui casais em que apenas uma pessoa vive com HIV, casais em que ambas vivem com HIV e diferentes configurações familiares, incluindo pessoas trans.

Antigamente, ter um filho podia exigir outros caminhos

Antes de conhecermos completamente o impacto do tratamento antirretroviral sobre a transmissão sexual do HIV, um homem vivendo com HIV que desejasse ter um filho biológico com uma mulher que não vivia com o vírus poderia ser orientado a procurar técnicas de reprodução assistida.

Uma das estratégias mais conhecidas era a chamada lavagem seminal.

Apesar do nome, não se tratava simplesmente de “lavar o esperma”.

Em laboratório, os espermatozoides eram separados de outros componentes do sêmen e preparados para serem utilizados em procedimentos como inseminação intrauterina ou fertilização in vitro.

Durante muitos anos, essa foi uma estratégia importante para reduzir a possibilidade de exposição ao HIV.

Então veio uma das maiores transformações da história da epidemia.

O tratamento também virou prevenção

Grandes estudos demonstraram que uma pessoa vivendo com HIV que realiza o tratamento corretamente e mantém sua carga viral indetectável não transmite o HIV sexualmente.

É o princípio:

Indetectável = Intransmissível.

No Brasil, também utilizamos:

I = I = 0

Indetectável = Intransmissível = zero risco de transmissão sexual.

Isso transformou a vida sexual das pessoas vivendo com HIV e também mudou profundamente o planejamento reprodutivo.

Então a lavagem seminal acabou?

Não exatamente.

A reprodução assistida continua existindo e pode ser necessária por diversos motivos relacionados à fertilidade ou às características de cada projeto parental.

O que mudou foi a necessidade de utilizá-la exclusivamente para evitar a transmissão sexual do HIV.

Quando a pessoa vivendo com HIV está em tratamento e apresenta supressão viral sustentada, diretrizes atuais não recomendam rotineiramente a lavagem seminal apenas por causa do HIV.

Em outras palavras:

viver com HIV não significa automaticamente precisar de lavagem seminal, inseminação artificial ou fertilização in vitro para ter um filho.

E quando apenas um dos genitores vive com HIV?

Vamos imaginar que a pessoa que fornece o sêmen viva com HIV e a pessoa que vai gestar não viva com o vírus.

Com tratamento adequado e supressão viral sustentada, é possível tentar a concepção por meio de relações sexuais sem que exista transmissão sexual do HIV para a parceria que não vive com o vírus.

A parceria sem HIV também pode conversar com a equipe de saúde sobre PrEP como uma proteção adicional, caso deseje.

Mas é importante compreender algo:

se a pessoa vivendo com HIV mantém a supressão viral, não existe transmissão sexual do HIV.

E quando os dois genitores vivem com HIV?

Também podem ter filhos.

Quando ambas as pessoas vivem com HIV, a recomendação é que as duas estejam em tratamento e, idealmente, apresentem supressão viral sustentada antes da tentativa de concepção.

Isso protege a saúde dos próprios genitores e é especialmente importante quando uma das pessoas será responsável pela gestação.

Nesse caso, o foco deixa de ser simplesmente impedir a transmissão sexual entre o casal.

Passa também pelo planejamento da gestação, acompanhamento da carga viral, escolha adequada do tratamento e prevenção da transmissão para o bebê.

O HIV não impede esse casal de construir uma família.

E se a pessoa que vai gestar vive com HIV?

Aqui precisamos separar duas coisas.

Uma coisa é transmissão sexual.

Outra é transmissão vertical, que é a possibilidade de o HIV passar da pessoa gestante para o bebê durante a gestação, parto ou amamentação.

Com diagnóstico, tratamento antirretroviral e acompanhamento adequado durante a gestação, o risco de transmissão para o bebê pode ser reduzido para níveis extremamente baixos.

No Brasil, o Ministério da Saúde informa que o tratamento durante a gestação pode reduzir esse risco para menos de 1%.

O bebê também recebe acompanhamento e, quando indicado, medicamentos antirretrovirais após o nascimento.

Por isso, uma pessoa vivendo com HIV pode engravidar e ter um bebê sem HIV.

Isso também inclui homens trans

Sim.

Nem toda pessoa capaz de gestar é uma mulher.

Um homem trans vivendo com HIV que tenha útero e possibilidade biológica de gestação também pode desejar engravidar.

Da mesma forma, pessoas não binárias podem gestar.

Nesses casos, o planejamento deve considerar o tratamento antirretroviral, a supressão viral, a saúde reprodutiva e outros medicamentos ou hormônios utilizados pela pessoa.

O princípio permanece o mesmo:

viver com HIV não elimina o direito de construir uma família.

O cuidado precisa se adaptar à pessoa — e não obrigar a pessoa a caber em um único modelo de família.

E mulheres trans vivendo com HIV podem ser mães biológicas?

Dependendo de sua história reprodutiva e das possibilidades individuais, uma mulher trans pode utilizar seu próprio material genético para construir uma família.

Por exemplo, algumas pessoas preservam sêmen antes ou durante determinadas etapas da transição, permitindo posteriormente o uso em reprodução assistida.

Outras possibilidades de construção familiar incluem doação de gametas, reprodução assistida e adoção.

Por isso, falar apenas em “homens com HIV podem ser pais” deixa muita gente de fora.

A pergunta é muito maior:

pessoas vivendo com HIV podem construir famílias?

Sim.

E a amamentação?

Esse é um ponto em que precisamos tomar cuidado para não transformar I=I em uma regra para todas as formas de transmissão.

I=I está estabelecido para transmissão sexual.

No Brasil, atualmente, o Ministério da Saúde recomenda que pessoas vivendo com HIV não amamentem, porque o HIV pode estar presente no leite humano e ocorrer transmissão durante a amamentação.

Essa recomendação permanece mesmo diante dos enormes avanços proporcionados pelo tratamento antirretroviral.

O SUS fornece fórmula láctea para alimentação dos bebês expostos ao HIV.

É importante explicar isso porque dizer que uma pessoa indetectável não transmite HIV sexualmente não significa automaticamente afirmar risco zero pela amamentação.

São situações biologicamente diferentes e precisam ser tratadas de maneiras diferentes.

Ter HIV não determina quem pode formar uma família

Talvez uma das maiores violências produzidas pelo estigma tenha sido convencer pessoas vivendo com HIV de que determinados sonhos deixavam de lhes pertencer.

Amar.

Ter relações.

Casar.

Engravidar.

Ter um filho.

Ser pai.

Ser mãe.

Ou simplesmente formar uma família sem precisar encaixá-la em nenhum desses modelos tradicionais.

A história da reprodução no HIV mostra o tamanho da transformação científica das últimas décadas.

Passamos de uma época em que técnicas como a lavagem seminal eram utilizadas para reduzir o risco de transmissão para um momento em que sabemos que o próprio tratamento antirretroviral, quando mantém a carga viral suprimida, impede a transmissão sexual do HIV.

Ainda existem cuidados específicos durante a gestação.

Ainda existe acompanhamento do bebê.

No Brasil, ainda existe a recomendação de não amamentar.

Mas existe algo que o diagnóstico de HIV não deveria retirar de ninguém:

o direito de imaginar o próprio futuro.

Por isso, talvez a pergunta não seja mais:

“Quem vive com HIV pode ter filhos?”

Talvez seja hora de perguntar:

quem disse que o HIV poderia decidir quem pode ser pai, mãe ou construir uma família?

Referências

Ministério da Saúde. HIV/Aids — Prevenção da Transmissão Vertical.

Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Prevenção da Transmissão Vertical do HIV, Sífilis e Hepatites Virais.

NIH – ClinicalInfo. Reproductive Options When One or Both Partners Have HIV.

NIH – ClinicalInfo. Recommendations for the Use of Antiretroviral Drugs During Pregnancy and Interventions to Reduce Perinatal HIV Transmission.