Na abertura da AIDS 2026, no Rio de Janeiro, pesquisadores anunciaram dois novos casos de pessoas que continuam sem sinais do HIV mesmo depois de interromperem o tratamento com antirretrovirais. A notícia chamou atenção do mundo inteiro e aumentou para 13 o número de casos de cura ou remissão prolongada do HIV reconhecidos pela Sociedade Internacional de AIDS (IAS).
Mas será que isso significa que já existe uma cura para todas as pessoas vivendo com HIV?
A resposta ainda é não.
Os dois casos representam um enorme avanço científico, mas aconteceram em pessoas que precisaram passar por um transplante de células-tronco para tratar um câncer grave. Esse procedimento não pode ser utilizado como tratamento de rotina para o HIV.
Mesmo assim, os pesquisadores acreditam que esses pacientes podem ajudar a descobrir um caminho para uma cura mais simples no futuro.
Antes de tudo: qual é a diferença entre remissão e cura?
Essa é uma das maiores dúvidas quando surgem notícias como essa.
Imagine que o HIV seja como uma fogueira.
Os antirretrovirais funcionam como alguém jogando água nessa fogueira todos os dias. Enquanto a pessoa toma os medicamentos, o fogo permanece apagado.
Mas, por baixo das cinzas, ainda podem existir pequenas brasas escondidas.
Essas brasas representam os chamados reservatórios virais, locais onde o HIV consegue permanecer escondido durante muitos anos.
Se a pessoa parar de tomar os remédios, normalmente essas brasas voltam a acender e o vírus reaparece.
O que é remissão?
Na remissão, a pessoa para de tomar os medicamentos e, mesmo assim, o vírus não volta.
Os exames continuam mostrando carga viral indetectável durante meses ou anos.
É exatamente isso que aconteceu com esses dois pacientes.
Por isso, muitos pesquisadores preferem usar o termo remissão prolongada do HIV, porque ele descreve o que realmente está sendo observado.
O que seria uma cura?
A cura é considerada quando o vírus deixa de ser capaz de voltar.
Existe ainda um termo chamado cura esterilizante, usado quando os cientistas acreditam que praticamente todo o HIV foi eliminado do organismo, inclusive dos reservatórios.
Entretanto, provar isso é extremamente difícil.
Não existe um exame capaz de analisar cada célula do corpo humano para afirmar com 100% de certeza que nenhum vírus permaneceu escondido.
Por isso, a comunidade científica costuma ser bastante cuidadosa antes de afirmar que alguém está definitivamente curado.
O primeiro caso: o paciente de Kansas City
O primeiro paciente ficou conhecido como Paciente de Kansas City.
Ele tinha apenas 21 anos quando recebeu o diagnóstico de HIV e, ao mesmo tempo, descobriu que também tinha uma forma agressiva de leucemia.
A leucemia é um câncer que afeta o sangue e as células responsáveis pela defesa do organismo.
Antes do tratamento, ele apresentava mais de 2 milhões de cópias do HIV por mililitro de sangue, além de um número muito baixo de células de defesa.
Seu estado era grave.
Para tratar a leucemia, os médicos decidiram realizar um transplante de células-tronco.
O que são células-tronco?
As células-tronco são como uma fábrica.
Elas produzem praticamente todas as células do sangue, incluindo os glóbulos brancos, que fazem parte do sistema imunológico.
Durante um transplante, a fábrica antiga é destruída e substituída por uma nova fábrica, formada pelas células do doador.
Isso faz com que o paciente passe a produzir novas células de defesa.
O transplante foi realizado para tratar a leucemia, não o HIV.
O segredo estava no doador
O doador possuía uma mutação genética extremamente rara chamada CCR5-delta32.
Para entender sua importância, imagine que o HIV seja um ladrão tentando entrar em uma casa.
Na maioria das pessoas existe uma porta chamada CCR5.
Grande parte das variantes do HIV utiliza exatamente essa porta para entrar nas células.
Quem nasce com duas cópias da mutação CCR5-delta32 praticamente não possui essa porta funcionando.
É como se a fechadura simplesmente não existisse.
Quando o paciente recebeu as células desse doador, passou a produzir novas células de defesa que também tinham essa característica.
Com isso, o HIV perdeu sua principal forma de invadir essas células.
Mesmo assim, o tratamento continuou
O transplante não eliminou imediatamente o HIV.
Durante anos, o paciente continuou tomando os antirretrovirais normalmente.
Somente em fevereiro de 2025, depois de muitos exames, a equipe decidiu interromper os medicamentos.
Essa interrupção ocorreu exclusivamente porque fazia parte de um protocolo científico extremamente rigoroso.
Hoje, 14 meses depois, o HIV continua sem aparecer.
Os pesquisadores também não encontraram vírus capazes de voltar a se multiplicar.
O segundo paciente era ainda mais desafiador
O segundo caso chamou ainda mais atenção.
Esse paciente também recebeu células-tronco de um doador com duas cópias da mutação CCR5-delta32.
Entretanto, havia um problema.
Ele possuía diferentes variantes do HIV.
Enquanto a maioria utiliza apenas o receptor CCR5, algumas variantes conseguem utilizar outra porta chamada CXCR4.
Por isso, muitos pesquisadores acreditavam que fechar apenas a porta CCR5 talvez não fosse suficiente.
Mesmo assim, os resultados surpreenderam.
Depois de pouco mais de quatro anos do transplante, os medicamentos foram suspensos.
Passados 12 meses, o HIV continuava ausente.
Os cientistas analisaram sangue, tecidos e até amostras do intestino.
Não encontraram vírus capazes de produzir novas infecções nem material genético completo do HIV.
Por que o intestino foi analisado?
O intestino é um dos principais esconderijos do HIV.
Mesmo quando uma pessoa está indetectável, parte do vírus pode permanecer escondida nessa região durante muitos anos.
Esses esconderijos são chamados de reservatórios virais.
É justamente por causa deles que a maioria das pessoas volta a apresentar o vírus poucos dias ou semanas depois de interromper os antirretrovirais.
Nos dois novos pacientes, esses reservatórios praticamente desapareceram ou ficaram tão pequenos que não puderam ser detectados.
Um detalhe importante: a hepatite B voltou
O segundo paciente também tinha hepatite B.
Muitos medicamentos utilizados contra o HIV também controlam esse vírus.
Quando os antirretrovirais foram interrompidos, a hepatite B voltou a se multiplicar em apenas 25 dias.
Isso mostra que os medicamentos realmente haviam sido suspensos e que o organismo continuava sem proteção contra esse outro vírus.
Mesmo assim, o HIV não voltou.
Esse foi um dos resultados que mais chamou a atenção dos pesquisadores.
Por que isso não serve para todas as pessoas vivendo com HIV?
Porque o transplante de células-tronco é um dos procedimentos mais arriscados da medicina.
Antes de receber as novas células, o paciente precisa destruir praticamente toda a medula óssea.
Durante esse período, ele fica extremamente vulnerável a infecções graves.
Também existe o risco de rejeição e de uma complicação chamada doença do enxerto contra o hospedeiro, em que as células do doador passam a atacar o organismo do paciente.
Por isso, o transplante só é indicado quando existe outra doença muito grave, como uma leucemia ou outro câncer do sangue.
O risco do procedimento seria muito maior do que o benefício para uma pessoa vivendo com HIV que está saudável usando antirretrovirais.
Então por que esses casos são tão importantes?
Porque eles ajudam os cientistas a entender exatamente o que aconteceu.
Hoje, diversos grupos de pesquisa tentam reproduzir os mesmos efeitos do transplante utilizando tecnologias muito mais seguras.
Entre elas estão:
- edição genética para reproduzir a mutação CCR5-delta32;
- terapias celulares;
- anticorpos de longa duração;
- medicamentos capazes de eliminar os reservatórios virais;
- estratégias que despertem e destruam as células infectadas.
O objetivo é desenvolver um tratamento que produza os mesmos resultados sem a necessidade de um transplante de medula.
O que muda para quem vive com HIV hoje?
Na prática, nada muda no tratamento atual.
Os antirretrovirais continuam sendo a forma mais segura e eficaz de controlar o HIV.
Quem faz o tratamento corretamente pode alcançar carga viral indetectável, viver com qualidade de vida e não transmitir o HIV por via sexual, conceito conhecido como Indetectável = Intransmissível (I = I).
Os dois novos casos representam um enorme avanço científico, mas ainda não significam uma cura disponível para a população.
Eles mostram que a cura é biologicamente possível e ajudam a ciência a compreender como reproduzir esse resultado de forma segura para milhões de pessoas no futuro.
Referências
- Sociedade Internacional de AIDS (IAS). AIDS 2026 Scientific Programme.
- Gupta RK et al. HIV cure research: progress and future directions. Nature Reviews.
- Hütter G et al. Long-term control of HIV after CCR5Δ32 stem-cell transplantation.
- The Lancet HIV.
- Folha de S.Paulo. “Dois novos casos de pessoas consideradas curadas do HIV são anunciados” (2026).
- G1. “Médicos anunciam dois novos casos de possível cura do HIV” (2026).

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