Quando uma pessoa é considerada no estágio de aids?

Receber o diagnóstico de HIV não significa receber um diagnóstico de aids.

HIV é o vírus. A aids é o estágio mais avançado da infecção pelo HIV, relacionado a um comprometimento importante do sistema imunológico. Com diagnóstico, tratamento antirretroviral e acompanhamento adequados, a maioria das pessoas que vive com HIV pode passar a vida inteira sem desenvolver aids.

No Brasil, existem critérios técnicos usados para definir casos de aids. E há um ponto importante antes de qualquer lista de sintomas:

você não se diagnostica com aids olhando um exame ou pesquisando sintomas na internet. A avaliação deve ser feita por um médico ou pela equipe de saúde, considerando exames, manifestações clínicas, histórico e possíveis outras causas para aquilo que está acontecendo.

HIV e aids não são sinônimos

Uma pessoa pode viver com HIV durante décadas, estar saudável, ter carga viral indetectável e nunca desenvolver aids.

A aids ocorre quando a infecção pelo HIV provoca imunodeficiência suficientemente importante para preencher critérios clínicos ou laboratoriais estabelecidos.

No Brasil, para fins de vigilância epidemiológica, são utilizados principalmente o Critério CDC Adaptado e o Critério Rio de Janeiro/Caracas. (BVSMS)

E aqui aparece uma informação que costuma causar confusão.

CD4 abaixo de 350 significa aids?

Pelo Critério CDC Adaptado utilizado na vigilância epidemiológica brasileira, uma pessoa com evidência laboratorial da infecção pelo HIV pode preencher a definição de caso de aids quando apresenta:

CD4 abaixo de 350 células/mm³

e/ou

pelo menos uma doença indicativa de aids. (BVSMS)

Isso merece atenção porque muita gente encontra na internet o número 200 células/mm³, bastante associado à imunodeficiência grave e utilizado em diferentes contextos clínicos internacionais.

Mas, no sistema brasileiro de vigilância, o corte estabelecido para o Critério CDC Adaptado é inferior a 350 células/mm³. (BVSMS)

Isso não significa que todas as pessoas com CD4 de 349 estejam gravemente doentes. O número precisa ser interpretado dentro do contexto clínico.

E se o CD4 estiver acima de 350?

Ainda assim uma pessoa pode preencher critério de aids caso apresente uma doença indicativa de aids.

Entre as manifestações reconhecidas estão, por exemplo:

  • pneumonia por Pneumocystis jirovecii;
  • toxoplasmose cerebral;
  • candidíase de esôfago;
  • criptococose extrapulmonar;
  • citomegalovirose em determinados órgãos;
  • histoplasmose disseminada;
  • leucoencefalopatia multifocal progressiva;
  • algumas micobacterioses disseminadas;
  • determinados linfomas;
  • sarcoma de Kaposi;
  • reativação da doença de Chagas com manifestações específicas;
  • entre outras condições definidoras.

O Ministério da Saúde destaca infecções oportunistas e algumas neoplasias como manifestações características da progressão para aids. (BVSMS)

Mas atenção: ter uma dessas doenças não permite fazer o diagnóstico sozinho.

O médico precisa determinar qual doença realmente está presente, como ela foi diagnosticada e como ela se relaciona com o estado imunológico daquela pessoa.

Uma pneumonia comum, uma febre ou uma candidíase isolada, por exemplo, não devem automaticamente ser traduzidas pelo paciente como “estou com aids”.

O que é o Critério Rio de Janeiro/Caracas?

Aqui fica ainda mais interessante.

O Brasil também utiliza uma definição chamada Critério Rio de Janeiro/Caracas, criada para permitir a identificação de casos a partir de um conjunto de manifestações clínicas.

Para uma pessoa com evidência laboratorial da infecção pelo HIV, determinados sinais, sintomas e doenças recebem pontos.

Quando a soma chega a 10 pontos ou mais, o caso pode preencher esse critério de definição de aids para fins de vigilância epidemiológica. (BVSMS)

O que vale 2 pontos?

Cada um destes eventos pode receber 2 pontos, desde que cumpra a definição estabelecida:

Anemia, linfopenia ou trombocitopenia: alterações específicas nas células do sangue.

Astenia: fraqueza importante durante um mês ou mais, excluindo determinadas outras causas.

Caquexia: perda involuntária superior a 10% do peso habitual.

Dermatite persistente: determinadas alterações de pele persistentes ou resistentes ao tratamento habitual.

Diarreia: constante ou intermitente durante pelo menos um mês.

Febre: temperatura igual ou superior a 38 °C, constante ou intermitente, durante pelo menos um mês.

Linfadenopatia: aumento de linfonodos em pelo menos dois locais fora da região inguinal durante um mês ou mais.

Tosse persistente ou determinadas pneumonias também entram nessa faixa de pontuação. (BVSMS)

Perceba por que simplesmente pesquisar sintomas na internet pode levar a conclusões completamente erradas.

“Estou cansado + tive febre + emagreci = tenho aids” não é assim que o critério funciona.

Cada manifestação possui definição própria, duração determinada e precisa ser avaliada dentro do quadro clínico.

O que vale 5 pontos?

Algumas manifestações têm peso maior:

Candidíase oral ou leucoplasia pilosa oral – 5 pontos

Disfunção do sistema nervoso central – 5 pontos

Herpes-zóster em pessoa com até 60 anos – 5 pontos

Tuberculose pulmonar, pleural ou de linfonodos localizada em uma única região – 5 pontos. (Legislação Alesc)

Novamente, isso não significa que toda pessoa vivendo com HIV que tenha herpes-zóster ou tuberculose automaticamente esteja com aids.

É a soma e a aplicação técnica dos critérios que importam.

E o que sozinho pode atingir 10 pontos?

No Critério Rio de Janeiro/Caracas, algumas manifestações recebem 10 pontos:

outras formas de tuberculose, como determinadas apresentações extrapulmonares/disseminadas;

sarcoma de Kaposi. (Legislação Alesc)

Como o critério exige pelo menos 10 pontos, uma dessas manifestações pode ser suficiente para atingir a pontuação necessária, desde que exista também a evidência laboratorial da infecção pelo HIV e que a situação esteja corretamente caracterizada pela equipe de saúde.

Então febre, emagrecimento ou diarreia significam aids?

Não.

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes desta matéria.

Febre pode ter centenas de causas.

Diarreia pode acontecer por inúmeras razões.

Uma pessoa pode emagrecer por alimentação, medicamentos, problemas gastrointestinais, alterações metabólicas e diversas outras situações.

Alterações no hemograma também podem ocorrer por inúmeras causas.

O próprio Ministério da Saúde alerta que os sinais e doenças utilizados no Critério Rio de Janeiro/Caracas precisam ser avaliados cuidadosamente para evitar sobreposição e interpretações incorretas. (Antigo AIDS)

Sintoma isolado não é diagnóstico de aids.

É o médico quem faz essa avaliação

Os critérios epidemiológicos são importantes para padronizar a vigilância dos casos no Brasil, mas uma pessoa não deve olhar a própria contagem de CD4 ou uma tabela de sintomas e concluir sozinha que “entrou em aids”.

Na prática clínica, o profissional avalia o conjunto:

CD4, carga viral, tratamento antirretroviral, sintomas, exame físico, diagnóstico das possíveis infecções oportunistas, histórico clínico e outras condições capazes de explicar alterações laboratoriais ou sintomas.

Isso também ajuda a entender uma diferença importante:

critério de vigilância epidemiológica e avaliação clínica não são exatamente a mesma coisa.

Uma classificação epidemiológica serve para padronizar a identificação e notificação dos casos. Já o médico precisa decidir o que está acontecendo com aquela pessoa naquele momento e qual tratamento ou investigação é necessária.

E quem já teve aids pode voltar a ficar saudável?

Sim.

Esse é outro ponto frequentemente mal compreendido.

Uma pessoa pode chegar ao serviço de saúde com imunidade muito comprometida, começar a terapia antirretroviral, controlar o HIV e apresentar uma grande recuperação imunológica.

A carga viral pode se tornar indetectável e o CD4 pode subir novamente.

Hoje, inclusive, o Ministério da Saúde informa que pessoas estáveis, assintomáticas, em TARV, com carga viral indetectável e CD4 acima de 350 células/mm³ em dois exames consecutivos podem nem precisar manter a contagem rotineira de CD4; o acompanhamento passa a se concentrar principalmente na manutenção da supressão viral. (Linhas de Cuidado)

Isso mostra o tamanho da mudança provocada pelo tratamento.

Ter apresentado aids em algum momento não significa permanecer imunologicamente debilitado para sempre.

O histórico clínico continua existindo, mas a situação atual da pessoa pode ser completamente diferente.

Indetectável muda essa história

A terapia antirretroviral impede que o HIV continue se multiplicando livremente.

Quando o tratamento funciona, a quantidade de vírus no sangue cai até níveis muito baixos, frequentemente tornando-se indetectável nos exames de rotina.

Com a supressão viral mantida, o sistema imunológico tem oportunidade de se recuperar e o risco de desenvolver doenças oportunistas cai drasticamente.

É justamente por isso que atualmente o objetivo não é esperar o CD4 cair ou a pessoa adoecer para tratar.

O tratamento do HIV deve começar o mais cedo possível.

E indetectável também significa intransmissível

Além de proteger a própria saúde, manter a carga viral suprimida impede a transmissão sexual do HIV.

É o conceito:

Indetectável = Intransmissível (I=I).

Ou seja, uma pessoa vivendo com HIV que está em tratamento e mantém a carga viral adequadamente suprimida não transmite o HIV por via sexual.

E isso muda completamente a maneira como precisamos enxergar a infecção pelo HIV hoje.

Como evitar chegar ao estágio de aids?

O caminho é muito mais simples do que décadas atrás:

testar → diagnosticar → iniciar o tratamento → tomar a medicação corretamente → acompanhar a carga viral.

O Ministério da Saúde aponta justamente a ausência de diagnóstico precoce e a interrupção do tratamento entre os principais fatores relacionados à progressão para aids. (Serviços e Informações do Brasil)

Hoje temos medicamentos extremamente eficazes.

Por isso, uma pessoa diagnosticada precocemente, que inicia e mantém o tratamento, pode viver com HIV sem nunca desenvolver aids.

A mensagem mais importante

HIV não é aids.

Ter HIV não significa estar doente.

Ter um sintoma não significa ter aids.

Ter febre não significa ter aids.

Ter candidíase não significa automaticamente ter aids.

E um exame isolado também não deve ser interpretado fora do contexto clínico.

Existem critérios técnicos para definir a aids e eles precisam ser avaliados por profissionais de saúde.

Na era do tratamento antirretroviral e do Indetectável = Intransmissível, chegar ao estágio de aids é, na maioria dos casos, algo que podemos prevenir com diagnóstico precoce, tratamento e acompanhamento adequado.

Referências principais

Ministério da Saúde. Critérios de definição de casos de aids em adultos e crianças.

Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde – Infecção pelo HIV e Aids.

Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos.

Ministério da Saúde. PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos – Módulos 1 e 2.

Ministério da Saúde – HIV e Aids

PCDT para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos