No dia 2 de dezembro de 1991, durante um congresso científico em Cagliari, na Itália, um gesto chamou a atenção do mundo.
Diante de médicos, pesquisadores, jornalistas e fotógrafos, o imunologista italiano Fernando Aiuti beijou na boca Rosaria Iardino, uma jovem que vivia com HIV.
A imagem percorreu jornais, revistas e telejornais de diversos países.
O objetivo daquele beijo era simples: mostrar que o medo de se infectar com o HIV por meio de um beijo não tinha fundamento científico. (Todo Noticias)
Hoje, mais de três décadas depois, aquela fotografia continua sendo um dos maiores símbolos da luta contra o preconceito relacionado ao HIV.
O medo nasceu antes do conhecimento
Quando os primeiros casos de HIV foram identificados no início da década de 1980, quase tudo ainda era desconhecido.
Os pesquisadores sabiam que se tratava de um vírus grave, mas ainda buscavam compreender exatamente como ele era transmitido.
Sem respostas claras, surgiram dúvidas e boatos.
Algumas pessoas acreditavam que o HIV passava pelo ar.
Outras tinham medo de compartilhar um copo, um prato, um banheiro ou um aperto de mão.
Muitas acreditavam que um simples beijo poderia transmitir o vírus.
O medo se espalhou rapidamente e, junto com ele, cresceu o preconceito.
Pessoas vivendo com HIV perderam empregos, foram afastadas das escolas, abandonadas por familiares e impedidas de demonstrar carinho por medo de transmitir uma infecção que, na realidade, nunca foi transmitida dessa forma.
Foi nesse contexto que o beijo entre Fernando Aiuti e Rosaria Iardino se tornou um símbolo da ciência enfrentando a desinformação.
A pesquisa que gerou confusão
Mesmo com o avanço das pesquisas, um episódio voltou a alimentar esse medo.
Em 1997, o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) publicou a investigação de um caso extremamente raro envolvendo uma mulher que havia se infectado pelo HIV.
Durante a investigação, foi observado que ela e seu parceiro costumavam trocar beijos profundos e que ambos apresentavam sangramentos frequentes nas gengivas.
Algumas manchetes da época resumiram a história dizendo que “o beijo transmite HIV”.
Mas essa nunca foi a conclusão do estudo.
O próprio relatório explicou que a saliva não era considerada responsável pela transmissão.
A hipótese discutida pelos pesquisadores era de que, se a transmissão realmente ocorreu naquele episódio, ela poderia ter acontecido pelo contato entre sangue de ambos durante episódios de sangramento na boca.
Em nenhum momento o estudo demonstrou que a saliva transmite HIV.
Mesmo assim, a interpretação equivocada daquela investigação ajudou a perpetuar um mito que permanece até hoje.
O que aconteceu depois?
A ciência continuou pesquisando.
Ao longo de mais de quarenta anos, milhões de pessoas vivendo com HIV foram acompanhadas em diferentes países.
Foram estudados casais, famílias, profissionais da saúde e pessoas que conviviam diariamente com quem vivia com o vírus.
Se o beijo fosse uma forma de transmissão, milhares de casos já teriam sido registrados.
Isso nunca aconteceu.
As evidências acumuladas ao longo de décadas levaram os principais órgãos de saúde do mundo à mesma conclusão:
o beijo não transmite HIV.
Mas por que o beijo não transmite?
O HIV não consegue ser transmitido apenas porque existe contato entre duas pessoas.
Para ocorrer uma transmissão, é necessário que fluidos específicos que contenham quantidade suficiente do vírus tenham acesso à corrente sanguínea ou a determinadas mucosas.
A saliva não possui quantidade suficiente de HIV para causar uma infecção.
Além disso, ela contém proteínas e outras substâncias naturais que dificultam a sobrevivência e a capacidade de infecção do vírus.
Por isso, a saliva não é considerada um fluido capaz de transmitir o HIV.
É exatamente por essa razão que beijar alguém vivendo com HIV não representa risco de transmissão.
Pense em situações do dia a dia
Uma mãe beija o filho antes de ele ir para a escola.
Não transmite HIV.
Uma avó beija os netos quando eles chegam para o almoço.
Não transmite HIV.
Um casal comemora um aniversário com um beijo.
Não transmite HIV.
Dois namorados passam bastante tempo se beijando.
Também não transmite HIV.
O beijo é uma demonstração de carinho, afeto e amor.
Não é uma forma de transmissão do HIV.
Então, como o HIV é transmitido?
O HIV pode ser transmitido quando fluidos como sangue, sêmen, secreções vaginais, secreções retais e leite materno entram em contato com a corrente sanguínea ou com determinadas mucosas.
As principais formas de transmissão são:
- relações sexuais sem métodos de prevenção adequados;
- compartilhamento de seringas e agulhas;
- transmissão durante a gestação, o parto ou a amamentação quando não há tratamento adequado.
Por outro lado, o HIV não é transmitido por:
- beijo;
- abraço;
- aperto de mão;
- saliva;
- suor;
- lágrimas;
- espirro;
- tosse;
- compartilhar copos;
- compartilhar pratos;
- compartilhar talheres;
- usar o mesmo banheiro;
- piscina;
- roupas;
- lençóis;
- picadas de mosquito.
A resposta que a ciência encontrou
Depois de mais de quatro décadas de pesquisas, a resposta é clara.
Beijo não transmite HIV.
Aquilo que durante muitos anos foi motivo de medo hoje é uma das afirmações mais bem estabelecidas da ciência sobre o HIV.
Também sabemos que pessoas vivendo com HIV que realizam o tratamento corretamente e mantêm a carga viral indetectável têm risco zero de transmitir o HIV por via sexual. Esse princípio é conhecido no Brasil como I = 0 (Indetectável = Zero) e foi reconhecido pelo Ministério da Saúde.
Conhecimento combate o medo.
Ciência combate o preconceito.
E compreender como o HIV realmente é transmitido é um passo importante para construir uma sociedade mais informada, mais acolhedora e mais justa para todas as pessoas.
Referências
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Transmission of HIV Possibly Associated with Exposure of Mucous Membrane to Contaminated Blood. Morbidity and Mortality Weekly Report (MMWR), 1997.
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). How HIV Spreads.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). HIV Fact Sheet.
- Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS). Materiais técnicos sobre transmissão do HIV e combate ao estigma.
- Posse JL, et al. Viral Diseases Transmissible by Kissing. Periodontology 2000. 2017.
- Ministério da Saúde (Brasil). Nota Técnica nº 376/2023 – Indetectável = Zero (I = 0).

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