Uma consulta pode oferecer acolhimento, segurança e esperança. Mas também pode reabrir feridas, reforçar preconceitos e transformar um momento de cuidado em uma experiência de sofrimento.
Imagine procurar um serviço de saúde para cuidar do próprio corpo e sair de lá com mais medo, vergonha e dúvidas do que quando chegou. Para muitas pessoas que vivem com HIV, essa experiência não é apenas uma possibilidade distante. Ela pode acontecer em uma consulta médica, em um atendimento odontológico, em um serviço de enfermagem ou até mesmo durante um acompanhamento psicológico.
Receber um diagnóstico de HIV ou viver com o vírus envolve muito mais do que tomar medicamentos e realizar exames. Também envolve lidar com sentimentos, relações afetivas, projetos de vida e, muitas vezes, com o preconceito que ainda existe na sociedade.
Nesse contexto, o profissional de saúde tem um papel fundamental. Sua postura pode ajudar uma pessoa a se sentir segura para falar sobre suas necessidades ou fazer com que ela tenha medo de procurar atendimento novamente.
O problema começa quando falta conhecimento, sensibilidade ou preparo para atender pessoas que vivem com HIV.
Quando o atendimento se transforma em sofrimento
Uma pessoa que vive com HIV pode procurar um profissional para tratar um problema de saúde que não tem relação com o vírus. Ainda assim, pode se deparar com perguntas invasivas, comentários desnecessários ou atitudes que demonstram preconceito.
Há situações em que o profissional trata a pessoa como se ela representasse um perigo para os demais. Em outras, atribui qualquer sintoma ao HIV, mesmo sem uma avaliação adequada. Também existem casos em que o diagnóstico é exposto diante de outras pessoas, sem necessidade ou autorização.
Comentários como “você não deveria ter feito isso”, “como você pegou?” ou “preciso tomar cuidado com você” podem parecer pequenos para quem os pronuncia. Para quem os escuta, porém, podem representar uma experiência de humilhação.
O impacto não está apenas nas palavras. Está também na posição de autoridade de quem fala. Quando um profissional da saúde demonstra preconceito, a pessoa pode interpretar aquela atitude como uma confirmação de que existe algo errado com ela.
E não existe nada de errado em uma pessoa viver com HIV.
O HIV é uma condição de saúde que exige acompanhamento e tratamento. Não define o caráter, o valor, a capacidade de amar ou o direito de alguém a receber atendimento digno.
O que os dados revelam sobre essa realidade?
O problema não deve ser tratado apenas como uma questão de educação ou gentileza. Existem dados que mostram que o estigma relacionado ao HIV continua presente nos serviços de saúde e afeta a vida das pessoas.
O Índice de Estigma em Relação às Pessoas Vivendo com HIV, divulgado no Brasil em 2025, revelou resultados preocupantes.
Segundo os resultados divulgados pelo UNAIDS Brasil:
- 52,9% das pessoas entrevistadas relataram ter sofrido discriminação por viver com HIV ao longo da vida.
- 13,1% relataram tratamento discriminatório em serviços de saúde nos 12 meses anteriores à pesquisa.
- 41,2% relataram sintomas de ansiedade relacionados ao estigma.
- 29,1% relataram sintomas de depressão após o diagnóstico.
Esses números ajudam a compreender a dimensão do problema. Entretanto, é importante fazer uma distinção: nem todo sofrimento emocional de uma pessoa que vive com HIV é causado por profissionais da saúde. O preconceito familiar, a rejeição afetiva, as dificuldades sociais e as experiências anteriores também podem contribuir para esse sofrimento.
Os dados mostram que os próprios espaços destinados ao cuidado podem se tornar mais uma fonte de discriminação.
E isso precisa mudar.
Como o despreparo profissional afeta a saúde mental?
1. Reforça a vergonha e a culpa
Uma pessoa pode levar anos para compreender que viver com HIV não diminui seu valor. Pode reconstruir sua autoestima, voltar a se relacionar, planejar o futuro e encontrar novas formas de viver bem.
Mas uma experiência discriminatória pode despertar sentimentos que pareciam superados.
Quando um profissional associa o diagnóstico a julgamentos morais, a pessoa pode começar a se perguntar se merece o que está vivendo ou se precisa esconder sua condição para ser aceita.
O sociólogo Erving Goffman estudou como determinadas características podem ser usadas socialmente para desvalorizar uma pessoa. Em sua obra Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada, ele ajuda a compreender por que o HIV pode deixar de ser visto apenas como uma condição de saúde e passar a ser tratado, injustamente, como uma marca que define toda a identidade de alguém.
O problema é que ninguém deveria precisar provar que merece respeito.
2. Faz a pessoa ter medo de procurar atendimento
Imagine precisar de um dentista, de um ginecologista, de um dermatologista ou de um atendimento de emergência e sentir medo de revelar seu diagnóstico.
Esse receio pode surgir quando a pessoa já foi maltratada, ouviu comentários preconceituosos ou percebeu que seu atendimento mudou depois de informar que vive com HIV.
O Índice de Estigma de 2025 também identificou que 8,5% das pessoas entrevistadas deixaram de procurar serviços de saúde após vivenciarem situações de preconceito.
Isso mostra que a discriminação não afeta apenas os sentimentos. Ela pode interferir diretamente no acesso ao cuidado.
Uma pessoa que evita uma consulta por medo de ser humilhada pode deixar de investigar sintomas, acompanhar outras condições de saúde ou receber orientações importantes.
O espaço que deveria oferecer proteção acaba produzindo insegurança.
3. Aumenta a ansiedade e a desconfiança
Para algumas pessoas, uma consulta médica já provoca ansiedade. Quando existe o medo de ser julgada por viver com HIV, esse momento pode se tornar ainda mais difícil.
A pessoa pode ensaiar mentalmente o que vai dizer, esconder informações importantes, ter dificuldade para fazer perguntas ou ficar preocupada com a possibilidade de alguém descobrir seu diagnóstico.
Também pode começar a desconfiar de profissionais que nunca lhe fizeram mal, justamente porque uma experiência anterior abalou sua sensação de segurança.
Isso não significa que todas as pessoas reagirão da mesma forma. Significa que experiências de discriminação podem deixar marcas emocionais que precisam ser reconhecidas.
Materiais dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) apontam que o estigma relacionado ao HIV pode contribuir para sentimentos de vergonha, isolamento e medo de revelar o diagnóstico.
4. Faz a pessoa se sentir reduzida ao diagnóstico
Uma pessoa que vive com HIV também é filha, mãe, pai, profissional, estudante, amiga, companheira e muitas outras coisas.
Entretanto, um atendimento despreparado pode fazer com que o HIV pareça ser a única informação importante sobre ela.
Se sente uma dor, tudo é atribuído ao vírus. Se apresenta uma dificuldade emocional, o profissional pode ignorar sua história e explicar tudo pelo diagnóstico. Se fala sobre relacionamentos, pode receber julgamentos em vez de orientações.
Esse tipo de postura empobrece o cuidado e impede que a pessoa seja compreendida em sua totalidade.
O educador Paulo Freire defendia uma educação baseada no diálogo, no respeito e no reconhecimento do outro como sujeito. Embora sua obra não seja um estudo específico sobre HIV, sua perspectiva ajuda a refletir sobre a relação entre profissionais e pacientes: cuidar não deveria significar silenciar, impor julgamentos ou retirar da pessoa o direito de participar das decisões sobre sua própria vida.
O paciente não é apenas alguém que recebe ordens. É uma pessoa que tem história, conhecimento sobre a própria experiência e direito de ser ouvida.
5. Pode transformar o tratamento em uma experiência de medo
O tratamento do HIV avançou muito. Hoje, com acompanhamento adequado e uso correto da terapia antirretroviral, muitas pessoas vivem por décadas com qualidade de vida.
Quando a carga viral permanece indetectável graças ao tratamento, o HIV não é transmitido por via sexual. É o princípio conhecido como indetectável igual a zero risco de transmissão sexual (I=0).
Mesmo diante desses avanços, informações desatualizadas e atitudes preconceituosas podem fazer com que uma pessoa sinta medo da própria condição de saúde.
Um profissional que demonstra receio injustificado de tocar em um paciente, utiliza precauções excessivas exclusivamente por causa do HIV ou sugere que a pessoa oferece perigo em situações de contato cotidiano pode reforçar mitos que já causaram muito sofrimento.
As precauções padrão de segurança devem ser aplicadas a todos os pacientes, independentemente de seu diagnóstico. O HIV não é transmitido por abraços, apertos de mão ou pelo contato cotidiano.
O despreparo também aparece quando o profissional transmite informações incorretas sobre o tratamento, faz previsões alarmistas ou ignora os avanços científicos.
Por isso, a atualização profissional não é apenas uma exigência técnica. Ela também é uma forma de proteger a saúde mental de quem procura atendimento.
6. Quando o sigilo deixa de ser respeitado
Poucas situações provocam tanta insegurança quanto descobrir que outras pessoas tiveram acesso a uma informação de saúde que deveria ser protegida.
Imagine estar em uma sala de espera e perceber que um profissional comenta seu diagnóstico diante de outros pacientes. Ou descobrir que alguém divulgou sua condição sem autorização e sem uma justificativa legal.
A pessoa pode sentir vergonha, raiva, medo de ser rejeitada e preocupação com as consequências daquela exposição na família, no trabalho ou nos relacionamentos.
O sigilo não é um favor concedido pelo profissional. É um direito.
No Brasil, a Lei nº 14.289/2022 estabelece a obrigatoriedade da preservação do sigilo sobre a condição de pessoas que vivem com HIV, nas situações previstas na legislação. A Lei nº 12.984/2014 também define como crime determinadas condutas discriminatórias contra pessoas que vivem com HIV ou aids.
O dever de confidencialidade possui regras e exceções legais específicas. Isso, porém, não autoriza a exposição desnecessária do diagnóstico nem a divulgação indiscriminada dessas informações.
O que significa estar preparado para atender uma pessoa que vive com HIV?
Estar preparado não significa apenas conhecer os medicamentos, interpretar exames ou saber identificar sintomas. Significa também compreender que a maneira de prestar o atendimento pode afetar a experiência de quem está sendo cuidado.
Um profissional preparado precisa:
- Conhecer o HIV: compreender as formas de transmissão, o tratamento, a prevenção e os avanços científicos.
- Respeitar o sigilo: proteger as informações pessoais e de saúde.
- Evitar julgamentos: não associar o diagnóstico a falhas morais, comportamentos ou escolhas pessoais.
- Oferecer atendimento igualitário: não recusar cuidados nem adotar medidas discriminatórias por causa da sorologia.
- Saber ouvir: permitir que a pessoa expresse suas dúvidas, seus medos e suas necessidades sem constrangimento.
- Reconhecer a saúde mental: perceber quando o sofrimento emocional exige acolhimento, avaliação ou encaminhamento adequado.
- Respeitar a autonomia: envolver o paciente nas decisões e explicar procedimentos de forma clara.
Essas atitudes não são gentilezas opcionais. Fazem parte de um cuidado digno, seguro e centrado na pessoa.
As orientações internacionais para a redução do estigma nos serviços de saúde também destacam a importância da formação profissional, da proteção da privacidade e do atendimento sem discriminação.
E quando o profissional também precisa rever seus próprios preconceitos?
É necessário reconhecer que profissionais da saúde também foram formados em uma sociedade que, durante décadas, associou o HIV ao medo, à culpa e à exclusão.
Alguns podem reproduzir preconceitos sem perceber. Outros podem ter informações desatualizadas ou receio de uma transmissão que não corresponde às evidências científicas.
Isso ajuda a compreender como o problema pode surgir, mas não justifica a discriminação.
A formação em saúde precisa incluir não apenas conteúdos técnicos, mas também direitos humanos, ética, comunicação, diversidade e reflexão sobre preconceitos.
Além disso, não basta responsabilizar individualmente cada profissional. Os serviços de saúde precisam oferecer educação permanente, protocolos claros, canais seguros para denúncias e medidas para corrigir práticas discriminatórias.
Quando uma instituição ignora esse problema, o paciente pode ficar sem saber a quem recorrer e o profissional pode continuar repetindo a mesma conduta.
A responsabilidade, portanto, também é institucional.
Quem cuida da saúde mental de quem procura cuidado?
Essa pergunta precisa fazer parte da discussão sobre HIV.
Uma pessoa pode estar com a carga viral indetectável, realizar seus exames regularmente e seguir o tratamento, mas ainda enfrentar ansiedade, medo de rejeição, solidão ou sofrimento causado pelo preconceito.
A saúde não se resume aos resultados laboratoriais. Ela também envolve bem-estar emocional, vínculos sociais, autonomia e qualidade de vida.
Isso não significa que toda pessoa que vive com HIV precise de acompanhamento psicológico. Significa que todas devem ter a possibilidade de receber apoio quando necessário, sem que suas dificuldades sejam minimizadas.
A Organização Mundial da Saúde reconhece a importância de integrar o cuidado em saúde mental aos serviços de HIV, facilitando o acesso ao suporte adequado.
Nesse processo, profissionais da psicologia, psiquiatria, medicina, enfermagem, odontologia e de outras áreas podem contribuir, desde que atuem com preparo técnico, ética e respeito.
Também é importante que a própria pessoa que vive com HIV participe da construção das políticas de atendimento. Quem conhece as consequências do preconceito na prática precisa ser ouvido quando os serviços são planejados e avaliados.
O problema não é viver com HIV. É ter o direito ao cuidado negado pelo preconceito.
Viver com HIV não deveria significar precisar educar cada profissional encontrado pelo caminho, explicar repetidamente que o contato cotidiano não transmite o vírus ou se preparar emocionalmente para possíveis situações de discriminação.
A pessoa procura um serviço de saúde porque precisa de cuidado. Não deveria sair de lá com a sensação de que precisa se defender do próprio cuidador.
Quando um profissional age com despreparo, suas palavras e atitudes podem ultrapassar os limites daquela consulta. Podem afetar a autoestima, a confiança nos serviços, a disposição para procurar ajuda e a maneira como alguém passa a enxergar a própria condição de saúde.
É por isso que enfrentar o estigma nos serviços de saúde não é uma pauta secundária. É parte da qualidade da assistência.
O avanço científico precisa caminhar junto com o avanço humano. Não basta que os profissionais saibam tratar o HIV se não souberem acolher as pessoas que vivem com ele.
Uma pessoa não deveria precisar esconder quem é para receber atendimento. E ninguém deveria sair de uma consulta se sentindo menor por viver com HIV.
O cuidado começa quando o conhecimento científico encontra o respeito à dignidade humana.
Referências teóricas e fontes
GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Obra clássica para compreender como a sociedade constrói marcas de desvalorização e como elas afetam a identidade e as relações sociais.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. Referência para refletir sobre diálogo, respeito, autonomia e responsabilidade nas relações de cuidado.
UNAIDS Brasil. Índice de Estigma em Relação às Pessoas Vivendo com HIV 2025. Dados brasileiros sobre discriminação, quebra de sigilo e impactos na saúde mental. Disponível em: https://unaids.org.br/indice-estigma/
BRASIL. Lei nº 12.984, de 2 de junho de 2014. Define como crime determinadas condutas discriminatórias contra pessoas que vivem com HIV ou aids. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l12984.htm
BRASIL. Lei nº 14.289, de 3 de janeiro de 2022. Dispõe sobre a preservação do sigilo relativo à condição de pessoas que vivem com HIV e outras condições previstas na lei. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/lei/l14289.htm
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). HIV Stigma. Material sobre os efeitos do estigma na autoestima, na saúde mental e no acesso aos serviços. Disponível em: https://www.cdc.gov/stophivtogether/hiv-stigma/index.html
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Integration of HIV and mental health care. Diretrizes sobre a integração do cuidado em saúde mental aos serviços de HIV. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/sites/books/NBK618474/
INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION (ILO) et al. Toolkit on HIV-related stigma reduction in health-care settings. Referência para compreender as causas do estigma nos serviços e as medidas para reduzi-lo. Disponível em: https://www.ilo.org/sites/default/files/wcmsp5/groups/public/@ed_dialogue/@sector/documents/instructionalmaterial/wcms_237276.pdf

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