Tratamento para HIV uma vez por semana: entenda como funciona o tratamento em estudo

Uma combinação de dois medicamentos conseguiu manter o HIV controlado com uma tomada semanal. O resultado traz novas possibilidades para quem vive com HIV, mas o esquema ainda é experimental e não está disponível no SUS.

Tomar a medicação faz parte da rotina de milhões de pessoas vivendo com HIV. Agora, pesquisadores estudam uma possibilidade que pode mudar essa relação com o tratamento: um comprimido que reúne dois medicamentos e é tomado apenas uma vez por semana.

A combinação de islatravir e lenacapavir apresentou resultados positivos em um estudo de fase 3, uma etapa avançada da pesquisa que compara a nova opção com um tratamento já utilizado. A proposta é manter o HIV controlado com menos tomadas, preservando a eficácia do cuidado.

Para entender como esses medicamentos funcionam, imagine que o HIV tenta transformar uma célula do nosso corpo em uma fábrica de novos vírus. Para isso, precisa entrar, preparar suas instruções e usar a estrutura da célula para produzir outras cópias de si mesmo.

O islatravir atrapalha a preparação dessas instruções. É como se o vírus precisasse copiar um manual para colocar a fábrica em funcionamento, mas o medicamento interferisse nessa cópia, impedindo que o trabalho avance corretamente.

O lenacapavir atua em outra parte do processo. O HIV possui uma espécie de cápsula de proteína que envolve e protege seu material genético, chamada capsídeo. Pense nela como uma embalagem que precisa funcionar corretamente para o vírus completar seu caminho dentro da célula. O medicamento interfere nessa estrutura, prejudicando diferentes etapas da multiplicação viral.

Assim, os dois medicamentos dificultam o funcionamento da “fábrica” por caminhos diferentes. Sua potência e a duração de sua atividade no organismo permitem estudar um intervalo de uma semana entre as tomadas. Isso é uma característica dessa combinação específica: não significa que os medicamentos atuais possam ser tomados semanalmente.

A pesquisa, chamada ISLEND-1, reuniu 607 adultos em 12 países. Todos já tinham o HIV controlado havia pelo menos seis meses com um tratamento diário. Parte continuou usando esse esquema, enquanto outra parte passou para a combinação semanal.

Após 48 semanas, 93,4% dos participantes do grupo semanal e 92,4% do grupo diário tinham carga viral abaixo de 50 cópias por mililitro de sangue. A carga viral é o exame que mede a quantidade de HIV no sangue e ajuda a acompanhar se o tratamento está funcionando.

A conclusão foi que o esquema semanal manteve o controle viral de forma semelhante ao diário, dentro dos critérios estabelecidos pela pesquisa. Entretanto, o estudo avaliou uma troca de tratamento em pessoas que já estavam com o HIV controlado. Ele não demonstra que a combinação possa ser indicada para qualquer pessoa ou para quem acaba de receber o diagnóstico.

Os pesquisadores também acompanharam a segurança. No estudo, os eventos considerados relacionados aos medicamentos ocorreram em proporções próximas nos dois grupos. Náusea e dor de cabeça estiveram entre os mais frequentes, e as células de defesa permaneceram estáveis até a semana 48. Ainda assim, resultados favoráveis nesse período não significam ausência de riscos ou dispensam acompanhamento por mais tempo.

A combinação semanal é um tratamento oral para pessoas que vivem com HIV. Ela não deve ser confundida com as injeções de PrEP, utilizadas para prevenir a infecção em pessoas sem HIV. Também não representa uma cura: os antirretrovirais controlam a multiplicação do vírus, mas não o eliminam do organismo.

Até 2 de outubro de 2026, as fontes consultadas descrevem o esquema como experimental. Ele não está disponível para uso de rotina no SUS, e não há uma data confirmada para sua chegada ao Brasil. Os resultados precisam ser avaliados pelas autoridades sanitárias antes de uma eventual aprovação.

Enquanto isso, ninguém deve reduzir a frequência da medicação atual por conta própria. Pense no tratamento como uma barreira que precisa permanecer funcionando: quando o medicamento é usado de uma forma diferente da prescrita, essa proteção pode ficar insuficiente, permitindo que o HIV volte a se multiplicar e aumentando o risco de resistência. Se a rotina está difícil, a equipe de saúde pode ajudar a discutir os obstáculos e as alternativas adequadas.

Para algumas pessoas, a possibilidade de uma tomada semanal pode significar mais praticidade. Para outras, a rotina diária continuará sendo a opção preferida. A perspectiva que essa pesquisa abre é a de ampliar as escolhas, respeitando diferentes necessidades.

O desafio será transformar o avanço científico em uma possibilidade real de cuidado. Porque uma inovação ganha ainda mais valor quando chega às pessoas que precisam dela.

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REFERÊNCIAS

  1. Rockstroh JK et al. Phase 3 Trial of Weekly Oral Islatravir–Lenacapavir for HIV-1 Treatment. New England Journal of Medicine, 2026;395:1299–1309. DOI: 10.1056/NEJMoa2607973.
    https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42525925/
  2. Gilead Sciences e Merck. Resultados dos estudos de fase 3 ISLEND-1 e ISLEND-2 sobre islatravir e lenacapavir semanal. 2026.
    https://www.gilead.com/news/news-details/2026/investigational-once-weekly-oral-hiv-treatment-regimen-of-islatravir-and-lenacapavir-maintained-virological-suppression-in-adults-with-hiv-who-switched-antiretroviral-therapy
  3. NIH — HIVinfo. HIV and AIDS: The Basics.
    https://hivinfo.nih.gov/understanding-hiv/fact-sheets/hiv-and-aids-basics
  4. NIH — HIVinfo. HIV Treatment Adherence.
    https://hivinfo.nih.gov/understanding-hiv/fact-sheets/hiv-treatment-adherence

Informações consultadas em 2 de outubro de 2026.