“Lésbicas não pegam HIV”: quem foi que inventou isso?

Quando o assunto é prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), mulheres lésbicas e outras mulheres que se relacionam com mulheres muitas vezes ficam fora da conversa.

E existe um mito particularmente perigoso:

“Se eu só me relaciono sexualmente com mulheres, não preciso me preocupar com HIV ou outras ISTs.”

Isso não é verdade.

Mulheres que se relacionam com mulheres também podem se infectar por HIV, HPV, sífilis, herpes, tricomoníase, hepatites virais e outras ISTs.

Orientação sexual não funciona como método de prevenção.

Lésbicas podem se infectar pelo HIV?

Sim.

Mas é importante explicar o tamanho desse risco sem alarmismo.

A transmissão sexual do HIV exclusivamente entre mulheres é considerada rara, mas existem casos documentados.

O risco está relacionado principalmente às práticas sexuais e às exposições, e não ao fato de uma pessoa se identificar como lésbica, bissexual ou heterossexual.

Para ocorrer a transmissão do HIV, é necessário que fluidos capazes de transmitir o vírus entrem em contato com mucosas, tecidos lesionados ou diretamente com a corrente sanguínea.

No sexo entre mulheres, algumas situações podem aumentar a possibilidade de exposição, como:

  • contato com sangue durante a menstruação;
  • compartilhamento de brinquedos sexuais sem higienização ou troca de barreira;
  • presença de feridas, fissuras ou sangramentos;
  • presença de outras ISTs;
  • práticas que provoquem pequenas lesões nas mucosas.

Existem casos cientificamente documentados de provável transmissão sexual do HIV entre mulheres. Ainda assim, isso não significa que todas as relações sexuais entre mulheres apresentem um risco elevado para HIV.

A informação correta é:

risco muito baixo não significa risco impossível.

Além disso, não se deve presumir o histórico ou as práticas sexuais de uma pessoa simplesmente porque ela se identifica como lésbica.

Uma mulher pode ter tido relações com pessoas de diferentes gêneros ao longo da vida, por exemplo. Também existem outras formas de exposição ao HIV que não dependem da orientação sexual.

E se uma das mulheres vive com HIV e está indetectável?

Aqui existe uma informação fundamental.

Uma pessoa vivendo com HIV que faz corretamente o tratamento e mantém a carga viral indetectável não transmite o HIV por via sexual.

É o conceito I = I: Indetectável = Intransmissível.

Isso também vale para relações sexuais entre mulheres.

Portanto, não faz sentido transformar uma mulher vivendo com HIV e indetectável em uma ameaça para sua parceira.

O tratamento do HIV também é prevenção.

HPV: talvez ele mereça ainda mais atenção

Quando falamos sobre ISTs entre mulheres que se relacionam com mulheres, o HPV precisa estar no centro da conversa.

Isso porque o HPV pode ser transmitido pelo contato direto entre pele e mucosas.

Não é necessária penetração para que exista transmissão.

Ela pode acontecer em situações como:

  • contato vulva com vulva;
  • sexo oral;
  • contato íntimo pele com pele;
  • mãos e dedos após contato com áreas infectadas;
  • compartilhamento de brinquedos sexuais.

O HPV já foi identificado inclusive entre mulheres que relatam nunca ter tido relações sexuais com homens.

Alguns tipos de HPV podem provocar verrugas genitais. Outros estão associados ao desenvolvimento de cânceres, especialmente câncer do colo do útero, além de câncer anal, vaginal, vulvar e de orofaringe.

Por isso, ser lésbica não elimina a necessidade de prevenção contra HPV.

Lésbicas precisam fazer Papanicolau?

Sim, quando estiverem dentro dos critérios de rastreamento recomendados.

Outro mito comum é acreditar que uma mulher que nunca teve relações sexuais com homens não precisa realizar o rastreamento do câncer do colo do útero.

O risco de exposição ao HPV não desaparece porque as relações acontecem exclusivamente entre mulheres.

Por isso, a orientação sexual não deve ser utilizada isoladamente para decidir se uma pessoa precisa ou não de acompanhamento ginecológico.

E a vacina contra HPV?

É uma das principais ferramentas de prevenção.

No Brasil, o SUS oferece a vacina contra HPV para os públicos contemplados pelo Programa Nacional de Imunizações, incluindo grupos com recomendações específicas.

Pessoas vivendo com HIV entre 9 e 45 anos, por exemplo, possuem recomendação específica para vacinação contra HPV.

Quem tiver dúvidas sobre sua situação vacinal pode procurar uma Unidade Básica de Saúde.

Herpes também pode passar entre mulheres?

Sim.

Tanto o HSV-1 quanto o HSV-2 podem ser transmitidos entre parceiras.

O herpes pode passar por contato direto com pele e mucosas, inclusive durante sexo oral.

E existe outro detalhe importante: uma pessoa pode transmitir o vírus mesmo quando não percebe uma lesão evidente.

Mais uma vez, penetração não é necessária para que exista transmissão.

E sífilis?

Também pode ocorrer.

A sífilis é transmitida principalmente pelo contato direto com uma lesão causada pela bactéria Treponema pallidum.

Se uma dessas lesões estiver presente na vulva, vagina, boca, ânus ou em outra região que entre em contato durante a relação sexual, pode ocorrer transmissão.

Há relatos documentados de transmissão de sífilis entre mulheres.

A sífilis pode passar despercebida porque algumas de suas manifestações desaparecem espontaneamente.

Isso não significa que a infecção desapareceu.

A boa notícia é que sífilis tem tratamento e cura.

Tricomoníase

Essa costuma surpreender muita gente.

A transmissão de Trichomonas vaginalis entre mulheres já foi demonstrada.

A tricomoníase pode provocar:

  • corrimento;
  • coceira;
  • irritação;
  • desconforto ao urinar;
  • alteração no odor.

Mas também pode não provocar sintomas.

Por isso, não apresentar sintomas não significa necessariamente ausência de uma IST.

Clamídia e gonorreia

Mulheres lésbicas também podem se infectar por clamídia e gonorreia.

Os dados científicos sobre transmissão exclusivamente de mulher para mulher são mais limitados para essas infecções, mas isso não significa que elas devam ser ignoradas.

Além disso, tanto a clamídia quanto a gonorreia podem permanecer sem sintomas.

Dependendo das práticas sexuais, um profissional de saúde pode avaliar a necessidade de testagem vaginal ou cervical e também em outros locais, como garganta e reto.

O local da coleta precisa conversar com as práticas sexuais da pessoa.

Hepatites também entram nessa conversa

Principalmente as hepatites B e C.

A hepatite B pode ser transmitida sexualmente.

E temos uma ferramenta extremamente importante de prevenção:

vacina.

A hepatite C é transmitida principalmente pelo contato com sangue. Em contextos sexuais, situações envolvendo sangue ou lesões podem aumentar a possibilidade de exposição.

O SUS disponibiliza testes para HIV, sífilis e hepatites B e C.

E vaginose bacteriana?

Aqui precisamos fazer uma diferenciação importante.

A vaginose bacteriana não é classificada simplesmente como uma IST tradicional.

Ela acontece quando ocorre um desequilíbrio da microbiota vaginal.

Entretanto, estudos mostram uma alta concordância de vaginose bacteriana entre parceiras mulheres, e ela merece atenção especial nessa população.

Alterações no corrimento, odor ou outros sintomas ginecológicos devem ser avaliados por um profissional.

Como tornar o sexo entre mulheres mais seguro?

A prevenção deve considerar o que acontece durante a relação, e não apenas a orientação sexual das pessoas envolvidas.

Algumas possibilidades são:

Barreiras para sexo oral: barreiras de látex próprias para sexo oral podem reduzir o contato direto entre boca e vulva ou ânus.

Brinquedos sexuais: se forem compartilhados, é importante higienizá-los adequadamente. Também é possível utilizar preservativo no brinquedo e trocá-lo ao mudar de pessoa ou região corporal.

Luvas: podem ser utilizadas em determinadas práticas com mãos e dedos, especialmente quando existem cortes, feridas ou outras lesões.

Vacinação: manter a vacinação contra HPV e hepatite B atualizada conforme as recomendações.

Testagem: HIV, sífilis, hepatites e outras ISTs podem fazer parte da rotina de cuidado de acordo com as práticas e exposições de cada pessoa.

Mulher lésbica pode usar PrEP?

Pode.

PrEP não é uma prevenção exclusiva para homens gays.

A indicação da profilaxia pré-exposição ao HIV deve considerar situações de exposição e vulnerabilidade ao HIV.

Se uma mulher apresenta exposições que justificam o uso da PrEP, sua orientação sexual não deve impedir o acesso à prevenção.

E se aconteceu uma exposição ao HIV?

Existe a PEP, a Profilaxia Pós-Exposição ao HIV.

Ela pode ser indicada depois de uma situação considerada de risco.

A PEP precisa ser iniciada o mais rapidamente possível e em até 72 horas após a exposição, e o tratamento dura 28 dias.

Ela está disponível gratuitamente pelo SUS.

Sexo oral também pode transmitir IST?

Pode.

Embora o risco para HIV pelo sexo oral seja muito menor do que em algumas outras práticas, outras ISTs podem ser transmitidas com mais facilidade dessa maneira.

Entre elas estão:

sífilis, herpes, HPV, gonorreia e outras infecções.

Por isso, dizer que determinada prática é “segura” simplesmente porque não envolve penetração pode criar uma falsa sensação de proteção.

“Eu só transo com mulheres. Preciso ir ao ginecologista?”

Sim.

Mulheres que se relacionam exclusivamente com mulheres continuam tendo colo do útero, vagina, vulva, mamas e outras estruturas que precisam de cuidados de saúde.

Além disso, podem se infectar por HPV e outras ISTs.

A orientação sexual não elimina a necessidade de acompanhamento.

E profissionais de saúde também precisam estar preparados para atender mulheres lésbicas sem presumir que elas não têm vida sexual ou que não apresentam risco para ISTs.

O problema pode começar dentro do próprio consultório

Quando uma mulher diz ao profissional de saúde que se relaciona exclusivamente com mulheres e imediatamente escuta:

“Então você não precisa se preocupar com IST.”

existe um problema.

Essa suposição pode fazer com que oportunidades de vacinação, testagem, diagnóstico e prevenção sejam perdidas.

O atendimento deveria perguntar sobre práticas sexuais, e não simplesmente tentar determinar risco pela orientação sexual.

Orientação sexual não é método de prevenção

Talvez essa seja a principal mensagem desta matéria.

Ser lésbica não protege alguém contra uma IST.

Assim como ser gay, bissexual ou heterossexual também não determina sozinho o risco.

O que importa são as práticas, exposições, métodos de prevenção, vacinação, testagem e tratamento.

Mulheres que amam e se relacionam com mulheres também precisam estar presentes nas campanhas de prevenção.

Precisam receber informações sobre HIV.

Precisam saber que PrEP e PEP também existem para elas.

Precisam conversar sobre HPV.

Precisam ter acesso à vacinação, testagem e acompanhamento ginecológico sem preconceito.

Porque invisibilizar uma população nas campanhas de prevenção não elimina as ISTs.

Só elimina a informação que poderia ajudar a preveni-las.

Referências para aprofundamento

Ministério da Saúde: materiais sobre HIV, ISTs, prevenção combinada, PEP, PrEP, HPV e hepatites virais.

CDC: Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines — Women Who Have Sex with Women (WSW) and Women Who Have Sex with Women and Men (WSWM).

Organização Mundial da Saúde (OMS): informações e recomendações sobre infecções sexualmente transmissíveis.

UNAIDS: evidências e materiais sobre HIV, prevenção, tratamento e Indetectável = Intransmissível.